A voz aos amigos (XXXIV)

Sou crescidinho o suficiente para já saber como por vezes a vida me impõe o que, se eu controlasse tudo, jamais faria. Na verdade, à medida que vou avançando no tempo, vão sendo cada vez menos as imposições ligadas àquilo que eu entendo que sou e mais ligadas àquilo que eu faço. São escolhas, claro, mas que de uma forma geral não me alteram nem a personalidade que é a minha nem os valores que me orientam. Mas, mesmo isso, nem sempre é assim tão líquido.
Eu cresci num meio social em que é maior motivo de vergonha pedir que roubar. Vou repetir: quando era muito miúdo, roubar era quase natural e pedir era sempre humilhante. Mesmo na eventualidade de se ser apanhado a roubar – o que não era muito frequente, pelo menos na altura – a justificação que era encontrada era, naquela envolvente, mais bem aceite pelos pares que a humilhação de ter que pedir. Afinal, só se roubava porque não se tinha o que a outros sobrava, pelo que seríamos uma espécie de Zé do Telhado em proveito próprio. E quem tinha, se não cuidava do que tinha, era porque não lhe fazia falta ou não lhe era suficientemente importante para justificar o seu bom cuidado. O meu percurso de vida fez-me reencontrar esta lógica da batata recentemente, junto de alguns dos miúdos com quem passo grande parte dos meus dias. E desmontar isto, mesmo para mim, que o entendo, não é fácil. Sobretudo se aliado a uma outra realidade, que até é incutida pelos pais: “Tu não pedes ajuda, tu desenrascas-te. E se eu venho a saber, seja por quem for, ainda ficas de castigo” (leia-se isto devidamente acompanhado de impropérios típicos do Norte: para cada palavra, dois impropérios). Para o bem e para o mal, esta arte do desenrascanço, a sós, no silêncio da culpa, marca-nos indelevelmente o corpo e a alma. A mim marcou.
Naturalmente, fui crescendo e a sorte da escolha mútua de boas companhias foram-me limando estas e outras arestas que me permitiram ir adotando um outro código de valores mais consentâneos, não com o que sou – ou julgava que era – mas com o que sou chamado a ser. Mas sabemos todos como há coisas em nós que permanecem, que, racionalmente, escolhemos que não sejam de uma determinada maneira, mas que nos desassossegam e exigem um esforço hercúleo para serem contrariadas. Ora, pedir, para mim, é uma dessas coisas. Pedir o que quer que seja a quem quer que seja qualquer que seja o motivo é uma daquelas coisas que me revolvem as entranhas ao ponto de sentir náuseas. Por isso, sempre que pude, evitei esse ato de pedir.
Nas campanhas de solidariedade – que são frequentes na minha vida – nos hipermercados, escolho sempre estar noutro lugar que não seja o da entrega dos sacos. Posso estar na organização, posso estar durante vários dias, com vários turnos, na recolha dos bens e dos sorrisos, mas entregar sacos é matar-me. Posso trabalhar duro no armazém, ser o primeiro a chegar e o último a sair, organizar criteriosamente os alimentos por género e número, contar e recontar para que não falhe nada, mas não me peçam para os pedir. Nem pedir às pessoas para estrem presentes, ou colaborarem, ou abdicarem do seu tempo para me ajudarem. Nada disso. Eu resolvo, eu sacrifico-me, eu desenrasco-me. Com um sorriso nos lábios.
O que eu não sabia – e que a vida se encarregou de me ensinar da melhor maneira: espetando a parede contra a minha cabeça – era que esta é uma extraordinária falta de humildade da minha parte. Pedir é recusar-me autossuficiente, é colocar-me à mercê de alguém, é dizer eu não tenho, é olhar nos olhos e dizer eu preciso, é tornar-me dependente, é arriscar ser desprezado e humilhado, é encarar a possibilidade de ser motivo de pena, que é, para mim, a suprema humilhação. Vai contra todos aqueles instintos que me foram incutidos em miúdo e que ainda hoje me fazem engolir em seco quando têm que ser contrariados. Mas têm que ser contrariados. Eu tenho que os contrariar. Porque pedir, se é aquilo tudo que referi anteriormente, é também descoberta que se é amado, é também ser puxado para cima, é também encontrar uma mão que nos é estendida, é também mergulho num Nós que apenas ultrapassa o vácuo palavrar e encontra verdade quando tem a oportunidade de se fazer vida vivida, vida sentida, vida partilhada. Efetivamente. Na carne. Na alma.
Já adulto, pedi e peço muitas vezes. Nenhuma delas sem um enorme custo, nenhuma delas sem aquela náusea, nenhuma delas sem a procrastinação que destino às coisas verdadeiramente desagradáveis que espero que não tenha necessidade de fazer acontecer, nem que seja por uma qualquer luz vinda do céu: “afasta de mim este cálice, Pai”. Quando peço, o que quer que seja, a quem quer que seja, para quem quer que seja, faço-o inevitavelmente tarde e a más horas, quando já não consigo adiar mais, quando já enfrento as nefastas consequências de não ter tido a coragem de efetuar o pedido antes, atempadamente, quando se justificava, quando sabia ser inevitável enfrentar a dolorosa necessidade de pedir.
E, no entanto, sempre que peço fico maravilhado. Pela generosidade de quem me acompanha, pela naturalidade da entrega, pelo amor que me rodeia e que se torna particularmente palpável quando eu preciso do que quer que seja, de quem quer que seja, para quem quer que seja. Vou percebendo que pedir é uma espantosa maneira de revirar o quotidiano permitindo que o ar se renove, libertando o que nos ata, dando visibilidade e possibilidade ao melhor de nós. E que, por isso, pedir, colocar-se à mercê, submeter-se, estender a mão, é, afinal, o que nos torna verdadeiramente humanos. E caminho, para que os outros façam acontecer amor em nós.
José Pinho

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