04.02.2023

Leio um artigo sobre o pintor e ceramista Manuel Cargaleiro. Na viagem  pelas suas memórias, recorda a amizade com o poeta Herberto Hélder que o visita na sua quinta de família. Achei interessante a descrição sobre HH: uma pessoa solitária, que gostava, por bons bocados, de passear só entre hortas e pomares.

Penso nas almas que procuram a solidão e o recolhimento. Louvo-as em silêncio, agradeço-lhes  o inconformismo, a procura honesta de um outro andamento vivencial. Em mim, algo renasce ou, pelo menos, retoma um mais de vigor. Saúdo, então, os habitantes desses outro mundos. 

Platitudes XIV

  1. O Salmo manda-me “Cantar um cântico novo”. A Palavra de Deus, oferecida em cada dia é o maior inimigo dos pensamentos, os obsessivos, o orgulho, aqueles que oferecem uma mundivisão determinada pela minha educação e pela ditames do mundo. Portanto, hoje, a palavra, manda-me cantar um cântico novo. Não apenas me manda cantar, mas manda-me cantar algo novo.
    Se alguém me aparecesse aqui a dizer para eu cantar acharia bem estranho. Diria:
    Que razões tenho eu para cantar?
    Como posso cantar se tenho esta e aquela preocupação?
    Como posso cantar se me sinto indigno, se sinto em mim vastas regiões lunares de desconfiança, de ressentimento, de medo, de indignidade?
    Ainda assim, devo cantar. Canto, não porque as circunstâncias tenham de ser favoráveis; ou porque sinta alguma coisa; ou que me considere digno. Canto porque me fundo na Palavra, porque o anjo que mandou José levantar-se a meio da noite e a partir com o menino para o Egito, mo ordena. E eu apenas tenho de obedecer.
    Levanto-me no meio da noite para te louvar”. É esta a vocação do buscador.
  2. A ler “The old ways”, de Robert Macfarlane: quando nos sedentarizamos estaremos a perder algo que apenas o contacto prolongado com a natureza pode dar? Será a vida rotineira e sem novidade a evitar? Estará o ser humano feito para o nomadismo e as caminhadas prolongadas e vigorosas?
  3. É fácil estar contente e sentir-me protegido nesta tarde, aqui na sala, com silêncio e a lareira. É fácil ocultar que este mundo é profundamente problemático. Mas que posso fazer? Não creio que a má consciência seja a solução. Muito menos dizer que enquanto houver sofrimento no mundo não poderei desfrutar de nada. Por outro lado, murar-me também não é justo nem verdadeiro. Como posso estar alerta? Qual o posicionamentos justo diante do sofrimento? Recentemente, soube de um filho de pessoa amiga dependente da droga. Que grande será a dor dessa mãe. Este facto fala, tem uma linguagem e um desafio. Ao saber dele o que me diz? Está a deslocar-me do lugar existencial onde me encontro, da mesma forma que um livro ou um filme me põem a pensar. O encontro com o sofrimento, próprio ou alheio, implica sempre o “regresso por outro caminho”, como os magos, depois de ter visto o Salvador.

In nativitate Domini

Comecemos pelo que o Natal não é.


O Natal não é uma comemoração. Não lembramos um piedoso acontecimento passado, ocorrido há cerca de dois mil anos, localizado e datado na História, mas sem implicação ou consequências para hoje.


No Natal não recordamos a figura histórica de Jesus, esse personagem encantador, esse ser humano excecional, admirado pelos seus altos padrões morais e éticos, pela sua mensagem de amor sublime.


O Natal não é sequer apenas a festa da família de sangue, onde me resguardo com “os meus”. O próprio Cristo o tinha dito: “A minha mãe e os meus irmãos são aqueles que fazem a vontade do meu pai.”
É por isso que um perigo espreita: o Natal tornar-se uma festa em que olhamos para Jesus como alguém que viveu num ponto já distante e poeirento da nossa história sem que a sua vida, o seu sopro e a sua mensagem interfiram grandemente com a história dos homens.

O que será, então, o Natal? Que significa dizer, como ouvimos no Evangelho, que o “Verbo se fez carne”? Isto é, que significa dizer que Deus tomou forma humana, tornando-se alguém igual a nós? Repito: que significa um Deus tornado humano?
Talvez pudéssemos pedir àquele que é a luz verdadeira que, nesta hora vespertina, nos levasse, por um momento que fosse, das trevas para a claridade matinal de todos os começos. Talvez pudéssemos reconhecer, com humildade, que o mistério do nascimento de Jesus é por demais desmesurado para que sequer o compreendamos. Talvez tenhamos de seguir o conselho do próprio Jesus ao sábio Nicodemos: “Tens de nascer de novo” que é como quem diz: não podes acolher o menino sem que algum colírio cure os teus olhos da cegueira dos que julgam ver, para que, aí sim, o passas receber no espanto do seu amor.


E, esse que é a “Luz Verdadeira” que boa nova tem para ti? Nas tuas rotinas, nas alegrias e nas dores que são o pão de cada dia da tua vida, que tem o Filho para te dizer? Qual é a Boa Notícia que o Verbo nos oferece a nós, errantes e cansados, nós que acorremos a dessedentar o desejo em ilusões passageiras?


Diz o mensageiro: “O Senhor consola o seu povo”. Consolação! Que palavra profunda, bela e reconfortante. A fé não é um conjunto de propostas morais, ou de ritos incompreensíveis, nem o reino da boa consciência, nem a recitação mecânica de preces e orações.
A grande verdade do Natal e da nossa fé é esta: Deus vem para nos consolar. E consolar é aquilo que as nossas mães fizeram quando éramos meninos. Viajemos à nossa infância e lembremos quem nos deu colo, quem secou as nossas lágrimas, quem nos preparou um mimo ou uma surpresa, quem deu abraço e toque e beijos.


É por isso precisamos renascer neste Natal! Pedir à criança indefesa que nos ajude a acolher esse amor extraordinário feito de consolação. Jesus é o pobre que bate à porta para oferecer sossego ao teu coração sobressaltado. A paz que anuncia é a única que acalma as sedes, todas as sedes; ele é a certeza que na nossa viagem de regresso somos esperados e acolhidos, a nós que andamos errantes, bebendo uma água que só atiça ainda mais a nossa secura.


No relato dos magos, o evangelista diz-nos que, depois de adorarem o menino, eles partiram “por outro caminho”. Possa assim ser este tempo de bênção: o tempo de acolhermos, nesta, uma vida nova e de regressarmos à vida por um outro caminho.


Peçamos, pois, nesta noite santa, que o Humilde por excelência, o pobre de Nazaré, alargue o nosso mirrado coração para que ele, o Príncipe da Paz, ilumine a nossa vida e nos console na desolação. Que o Deus que “vem do futuro” (J. A. Mourão) nos abra à esperança, libertados de um olhar cínico e resignado sobre a história, sobre nós, sobre os outros. Que o Filho de Deus nos inunde de uma alegria que ser humano algum poderá tirar. Que o Iluminador estenda a sua paz a todos os corações marcados pelo ódio, pela violência, a todos os inocentes feridos, deitados borda fora.


Que o criador do Universo lave os nossos olhos, toque o nosso ‘coração paralítico’ (Daniel Faria) para que neste Natal possamos soltar “brados de alegria”, ouvidos nos confins do nosso mundo e do nosso coração.

Advento e o riso de Sara

Olho para o advento como o tempo das promessas impossíveis ou o tempo dos escândalos: “Hão-de chegar a Sião com brados de alegria com eterna felicidade a iluminar-lhes o rosto”. As promessas de Deus acerca do futuro ultrapassam com à-vontade toda e qualquer utopia política. Deus promete um futuro de paz, de prosperidade, de entendimento. Esse futuro diz respeito a toda a humanidade: cessará o sofrimentos, a dor, a morte. Um dia “Deus será tudo em todos”: o mal e o sofrimento são realidades a prazo. O bem vencerá o mal. Caminhamos, ainda que no escuro breu, em direção um futuro melhor. Tudo o que fazemos de bem acrescenta e apressa esse dia. A força obscena do pecado não é a realidade última.


Paro, desconcertado. Algures, alguém ri. É o riso de Sara, mulher de Abraão, quando lhe dizem que vai ser mãe. Como posso eu, pensa, ser mãe se tenho esta idade tão avançada?
É, também, o nosso riso, incrédulos diante desse futuro messiânico prometido. Sim… nós rimos. “Quando a esmola é grande, o pobre desconfia”. Rimos dos relatos pueris e pitorescos que Isaías antevê. Não há cálculo, racionalidade ou estatística que se mantenha diante dessa disrupção torrencial de felicidade que Deus promete.
Se não ríssemos, seríamos outras pessoas: comprometidos, radiantes de esperança, conscientes do combate diário a travar. Teríamos gosto, sabor, um brilho nos olhos, uma alegria irreprimível, uma esperança de ferro. Mas não: por aí vamos nós, rindo silenciosamente como Sara, entretidos e saciados com medíocres verdades religiosas para sossegar o nosso reduto murado.
Que Deus nos cure “do coração paralítico” para soltar o grito, vasto como os mares: “Oh! Se rasgasses os céus e descesses!”

Podcast #1

“1984” – George Orwell

Hoje ouvi um episódio áudio sobre o livro de George Orwell, 1984. Este episódio pertence ao podcast In our time:” Melvyn Bragg e os convidados discutem ideias, pessoas e acontecimentos que moldaram o nosso mundo”, ali leio. É o melhor podcast que ouço
Gosto de receber informação interessante que corta os circuitos de pensamento e que aparecem ligados à “gestão do quotidiano”. George Orwell escreveu o livro como uma crítica feroz ao comunismo. Gosto de ouvir pessoas que conhecem bastante bem o assunto sobre o qual falam. Apresentam as suas ideias o tempo que consideram necessário e não se repetem. Que diferença para os debates que vemos em Portugal! Aprecio o sotaque tão distinto e claro dos participantes cujo inglês é facilmente percetível.
Orwell, durante algum tempo, quando viveu em Barcelona, ficou espantado com a experiência de fraternidade que encontrou nos seus camaradas de esquerda. Há uma forte componente de nostalgia de um paraíso e uma crença quase naïf na bondade do ser humano. Nesta luta da esquerda radical, v.g. o comunismo, vejo uma sede de comunhão e a crença num futuro e num homem novos. George Orwell rapidamente se desencantou. 1984, escrito quase no final da sua vida, é um retrato implacável do poder totalitário do regime soviético. “Big brother is watching you”.

Pedir o incêndio

“É preciso pedir o incêndio”, disse-me, com o olhar meio perdido no chão que fitava, mas com o tom de voz de quem viu coisas. Como não poucas vezes sucedia com ela, eu estava consciente que algo de grave e fundo fora lançado para fora da alma. Queria perguntar, pedir uma explicação, mas sabia que nada adiantaria. Explicar equivaleria a deixar que o cérebro se apoderasse de uma verdade fugidia e atrevida, que a domesticasse com prós e contras, que a manietasse.


Então era preciso pedir o incêndio… que vem essa palavra fazer a este dia, a esta tarde cinzenta e preguiçosa? O mundo não está sossegado, bem sei (Yeats: “While the world is full of troubles/ And anxious in its sleep”) mas lá tenho, e tantos como eu, encontrado formas – herdadas umas, cozinhadas, outras – de aniquilar esse ruído ensurdecer do clamor inaudível do sofrimento humano. “Paramentado com ideias de circunstância” (Ruy Belo) lá vou sobrevivendo no meio do caos, murado pelo pensamento, defendido infantilmente pelo pensamento, pelas razões, pela lógica. Mas, eis que que o choque de realidade sempre entra por uma qualquer fresta e rebenta com tudo, com a frágil e ilusória armadura contra os dias e a dor.


“Pedir o incêndio…” Outro poeta, Daniel Faria, pediu a propagação do amor no “coração paralítico”. Ele sabia do frio que assola os corações humanos, apesar de tanto esbracejar a caminho do bem. Sim, era preciso pedir o acendimento do grande fogo, as chamas avassaladoras que tudo consomem à sua passagem. O espetáculo tremendo e fascinante da luz, do calor, da transmissão de tudo com tudo, lavrando, destruindo e purificando à sua passagem. Sim, era urgente trazer a este dia, a mim e a esse e àquele, a cor, a energia inesgotável da beleza, a corrente assustadora da lava incandescente, tudo ardendo, tudo renovando, tudo renascendo.


Espantado, ouvi a voz do profeta no coração da cidade alheada: “Oh, se rasgasses o céu e descesses!”

Platitudes – XIII

1. A fé é da ordem do combate. Chega de antropologias semipelagianas. Chega de fazer cócegas ao cérebro. Este é o tempo de combate, noturno, permanente. Só uma coisa comoverá os nossos contemporâneos: círios acesos na noite, anjos que lutaram incansavelmente com Deus na noite.

2. Leio “Callista” do cardeal John Henry Newman. Callista é uma pagã convertida ao cristianismo, prestes a ser julgada e instada a abjurar a sua fé. Vejo aqui o exemplo mais acabado de desafio à ordem estabelecida: de um lado a fé, do outro a cidade, o Estado, os valores de uma sociedade. Que abismo e que difícil deverá ter sido para os mártires levantarem-se em nome da sua fé, tendo como inimigo todo o mundo visível. A eles, glória.

3. Em Fátima, há tempos: o andor de Nossa Senhora circulava no meio do povo. É belo pisar o mesmo chão onde um dia Maria apareceu aos pastorinhos, estar em profunda comunhão com as centenas de milhar de peregrinos de todos os lados reunidos. Eis a fé profunda de um povo, visível nos rostos, nas súplicas, nos gestos de devoção, no amor à Virgem de Fátima. Uma experiência profunda e tocante de Igreja que me é dado viver. Em vários momentos da recitação do terço e da Eucaristia, é espantoso o silêncio de milhares de pessoas tornando o santuário num espaço sem ruído.

Na recitação do terço, recitar o “Pai Nosso” e as “Ave Maria” em uníssono é experiência poderosa. Ali não há a frieza e o ritualismo vazio de muitas eucaristias, mas o calor apaixonado, a súplica veemente e lancinante de tantas histórias de dor e sofrimento, pedindo a intercessão da Virgem.

Este povo de Deus reunido é uma porção do grande povo de Deus que caminha na terra e uma expressão daquele povo que se encontra já no céu e que connosco caminha pelas estradas do mundo.

Que falta fazem esta experiências de comunhão e fraternidade: muitos cristãos acabam por viver uma fé mais ou menos pessoal e solitária. Precisamos todos de momentos destes, ver, ouvir tocar a presença do divino que se torna tão palpável.

Trespassada pela espada

Memória de Nossa Senhora das Dores. Retenho a palavra de Simeão a Maria: “uma espada trespassará a tua alma”. Esta festa antigamente chamava-se as sete dores de Nossa Senhora. A figura venerada e tão querida aos cristãos teve uma vida em que a dor imperou, do princípio ao fim. Nada de glittering, de glamour, o culto da aparência, preparada para arrasar. As sete dores acompanham-na desde a profecia de Simeão até ao sepultamento de Jesus. Que mistério: o caminho das personagens “grandes” da Sagrada Escritura e da história da Igreja são pessoas que morderam o sofrimento, com ele viveram, por ele foram acompanhadas durante grande parte da sua vida. Um sofrimento duro, avassalador, humanamente insuportável, socialmente insustentável. Ainda por cima, abraçado voluntariamente quando não alegremente. É absurdo de mais para o pobre homem do século XXI, o homem do pão sem côdea, do café “sem princípio”, mendigando esta aprovação, aquele louvor Por onde andamos nós, os cristãos, os “burgueses espirituais” que não aprendemos nem queremos reconhecer que o Mestre trouxe a espada para o combate?

Não chores

Jesus diz à viúva que acaba de perder o filho: “Não chores”.
De que lugar vem esta injunção? A que profundidade ou de que aproximação ao amor é que esta ordem é dada? A partir de que lugar Jesus o faz? Será um voto piedoso, como quando o dizemos sem convicção? Será apenas para que o outro cale a dor que interfere com a previsibilidade dos meus dias, como se verdadeiramente quisesse dizer: “a tua dor invade a segurança dos meus dias, não a quero.”
“Não chores”, diz ele. Não chores porque sei a partir de que lugar és amada. Garanto-te que há um vento que sopra do alto, capaz de dar vida aos mortos, de ressuscitar todos os sepultos que sobem e descem apressados as avenidas. Tenho para ti a palavra definitiva, essa que enxuga todas as lágrimas.

Do Senhor é a terra e o que nela existe

Que coisa diz esta frase? Melhor, o que diz esta frase-bomba?
A Terra é o nosso mundo, todo ele é do Senhor, do Deus vivo. Mas… o que significa dizer que a terra é do Senhor? Significa que lhe pertence, que é sua propriedade? Significa dizer que ele, Deus, é o autor, aquele que o criou?
Quando saio do lugar onde estou neste momento e passo para o espaço exterior, que mudará ou deveria mudar nesse meu estar-no-mundo? Serei eu um exilado desta verdade que Deus habita a realidade mais ínfima? Da mesma forma que me sinto seguro quando rodo a chave na porta e entro em casa, será que me sinto seguro, deslumbrado, estarrecido porque reconheço a mão invisível na beleza avassaladora da criação? Não falo de “ter a noção” que o mundo foi criado por Deus, mas de entrar nessa dimensão nova, ainda que não me afaste dos lugares que habito quotidianamente.
Tudo o que existe na terra é pertença do Senhor e eu sou o exilado, esse que na sua pobre racionalidade, não consegue por si mesmo o dom da presença-em-movimento para-mim-que é o próprio Deus.