A voz aos amigos (XXX)

Como se mede, hoje a distância? Quão longe é, hoje, o longe?

I

Há já algum tempo que vários dos meus filhos vivem e moram longe de casa. Daquela que era a sua casa. De entre eles, alguns ainda vivem no país e outros – uma das raparigas – não vive sequer no mesmo continente. Entre nós, falamos quase todos os dias, certamente todas as semanas, e acompanhamos os seus estados de espírito com uma frequência que, provavelmente, não acontecia quando eles estavam à mão de semear. Não admira: todos temos esta coisa de quase desprezo pelo corriqueiro que sabemos que amanhã se repete com facilidade. Na nossa relação familiar à distância, as redes sociais são uma verdadeira bênção: conhecemos as suas casas como se já lá tivéssemos estado, temos conversas em família com todos ao mesmo tempo, combinamos prendas, por vezes cozinhamos juntos, e até a árvore do último Natal foi montada a partir de bitaites enviados pelo WhatsApp. Excetuando aquelas alturas em que sentimos que eles estão com dificuldades – e que nos dão ganas de nos metermos no primeiro avião para lhes dar colo – a distância física não equivale, de todo, à distância afetiva. Estando longe, estão perto. Na realidade eles não estão fora, estão dentro, bem dentro, e o que nos separa é nada, absolutamente nada.

II

Nos Açores, no topo da montanha, conseguia ver toda a ilha. E todo o mar à minha volta. E a única coisa que conseguia pensar era: onde vai esta gente toda ao domingo? Pela primeira vez vi-me confrontado com um sítio demasiado pequeno para os meus anseios. Nunca antes me tinha acontecido esta sensação de claustrofobia em céu aberto. Mas já me tem acontecido, depois desse episódio. Várias vezes! Hoje em dia ninguém fica deste lado do mundo na viagem de lua de mel, as férias passam-se nas Maldivas, ou em Cabo Verde, ou em qualquer outro lugar que, há dez anos, nos exigiria anos de poupanças e planeamento. A sensação que tenho é que a Terra está a ficar demasiado pequena. Para onde iremos daqui a vinte anos? O que será longe, nessa altura? Por isso os ricos querem viajar agora para o espaço: a última reserva exclusiva dos endinheirados.

III

A distância nunca foi tão iludida. E nunca foi tão ilusória. Todos conhecemos pessoas que, morando no mesmo espaço, habitam noutros lugares, onde se sentem queridos, onde se sabem entendidos, aceites sem subterfúgios, sem discussões nem exigências outras que não aquelas que estão dispostas a conceder. Neste, como noutros tempos, o nosso mundo afetivo é composto por aqueles que conhecemos e a quem nos damos a conhecer. Mas enquanto noutros tempos esses eram, fundamentalmente, os que gravitavam no mesmo espaço físico, agora o espaço é outro. Não o fora de nós, nem o de dentro, mas o algures, o não-sei-bem-onde, no qual apenas entra quem permitimos que nos habite, com ou sem tenda montada, sem pagar renda, mas despejo programado. São lugares precários, estes, onde se habita o efémero e, inevitavelmente, o ilusório. São lugares onde rapidamente se deixa de estar, tal a facilidade com que se parte para um outro lugar, que o virtual exige armas, mas não bagagens. Também por isso há, hoje, uma evitabilidade da exigência, por contraposição à antiga inevitabilidade do encontro, quando não tínhamos outra alternativa senão habitar a mesma casa, a mesma aldeia, a mesma vizinhança, e era mais difícil evitarmos o confronto com os outros… e connosco próprios. E, passito a passito, como na canção, vamos ficando distraidamente longe…

IIII

Quando Z chegou ao Espaço, bastou o seu olhar para sabermos logo qual deles chegara. Z é um miúdo com aquelas experiências que, quando chegam, chegam sempre demasiado cedo. Nos seus oito anos já defendeu a mãe e a irmã da porrada do pai, e apanhou por tabela; já viveu, escondido, numa instituição, já viu refeita a sua família com um – agora sim – pai, e agora, infelizmente, guarda tudo no seu coração. Infelizmente, porque nem sempre são as coisas boas o que se guarda no coração, e o Z não as viveu ainda o suficiente para poder substituir as que o habitam. Inusitadamente doce, terno, sobretudo para um miúdo do bairro, o Z traz-me sempre à memória o Dr Jekyll e o Mr Hyde, do Stevenson, só que desta vez não o leio em livro, mas nos seus olhos, ora suplicantes, ora furiosos, prontos a explodir. Quando nos chegou não sabíamos o que fazer, e fazíamos tudo mal. Mas fomos aprendendo: ficamos perto, atentos, deixamos que o Hulk salte cá para fora e depois sentamos, escutamos, mimamos, recordando-lhe ao ouvido o quanto gostamos dele, e que está seguro connosco. E sabemos que assim que a lágrima cai, suavemente, é sempre seguida de um abraço do tamanho do mundo, que nos restitui ao que a vida deveria ser. E o Z a si próprio, cada vez mais perto do que sonha ser.

Zé Pinho

Come, be my light

Que posso dizer aos passantes?
Quando me sento, pelo fim da tarde, no meu banco junto à rua movimentada, procuro adivinhar o que se passará nessas vastas planícies que são a alma de cada um.
Cada passante carrega dentro de si as perguntas-grandes, as perguntas cuja respostas lhes são veladas a seus próprios olhos.
Não apenas as carregam, como as sofrem, como são atravessados por elas. Saberão eles que existir é ser balouçado pelo vento, ser levado daqui para acolá sem remissão? Nessas idas e vindas as perguntas-grandes permanecem.
Lá vão os passantes, carregando o peso de existir, procurando o lugar do repouso, tateando o regresso a casa. Observo-os: que se passará dentro, no lugar da alma? Que peso carregam? De onde vêm? De tempos imemoriais ou da jornada ora finda? Que consolo lhes é oferecido, que consolo procuram?
Que posso dizer eu aos passantes?
Aqui estou, sentada, os olhos cavados pela existência longa e atribulada. Que palavra lhes posso confiar, agora que dobro o cabo dos meus dias, eu que fiz já a viagem do regresso? Que desafogo, que certeza lhes posso oferecer para as perguntas-grandes que os maceram e vergam?
Toda a vida procurei o rochedo seguro, toda a minha vida foi caminho da desapropriação, o caminho da sede, o caminho do renascimento. E, nesta tarde de outono, bela, solarenga, enquanto os pássaros recolhem tranquilos aos ninhos, penso nos passantes.
Virá ainda, esta noite, o vento da consolação quando o sono é já consonante com a terra? Haverá alguma estrela que perdure e brilhe e guie? Espreitarão os olhos meigos do animal, convidando o coração à ternura perdida na infância? Oh, a serenidade da noite que apazigua as sedes, sossega todas as perguntas, antecipa a madrugada.
Quem sabe… talvez um dia possa dizer aos passantes acerca da palavra nova que vem do futuro.

A voz aos amigos (XXIX)

A figura do padre na literatura (VII)

Nas famílias, para salvar o património, somos muitas vezes obrigados a concluir as uniões mais estranhas.” Podíamos resumir assim o romance de François Mauriac “Les Anges noirs” (Anjos Negros).  Estamos diante dos ingredientes típicos do escritor francês: o mundo da burguesia, a família, casamentos arranjados por conveniência, o património, a ganância, o amor, a traição e a morte.

No outono da sua vida, Gabriel, figura sombria mas com cara angelical, põe num caderno escolar as suas memórias e entrega a Alain Forcas, o jovem pároco da aldeia, o anjo bom e generoso, mas vestido de um negro que o torna um estranho aos demais. Estes dois homens têm aspetos em comum: fizeram o seminário menor, mas um tornou-se padre, outro seguiu um percurso bem diverso. Hoje, tantos anos passados, Gabriel sente-se irmanado a Forcas no desprezo dos demais – encontram-se, descobrem-se e entendem-se um ao outro.

Gabriel casara com uma mulher que não amava, por conveniência e dever de paternidade. Em vez disso, a bela Mathilde, a prima da mulher, que ele amava, contentou-se em casar com um homem mais velho, por questões de indissolubilidade de património. Da relação com Adila, a sua esposa, agora falecida, nasce Andrès que está prometido à jovem Catherine, filha de Mathilde. Mas Andrès tem uma amante, Tota, que é a irmã de Forcas, o abade!

Gabriel, já velho, mas ainda mantendo uma ligeira chama da juventude, sente que é altura de fazer contas à vida. Chantageado por uma mulher, provando assim do seu próprio veneno, encontra-se escondido na sua terra natal a tentar proteger o único ser que alguma vez amou: Andrès, seu filho.

Gabriel sente, desde logo, simpatia por este “anjo negro”, este jovem padre que é o motivo da chacota da aldeia, porque acolhera uma mulher em sua casa (no caso, a irmã). Do padre, Gabriel diz profeticamente: “Ele é o motivo de chacota da aldeia… Ridicularizado… um fraco… cobrimo-lo de etiquetas e ele cala-se… seria levado ao matadouro e não diria o mais pequeno ‘ai’. Os outros culpam-no por todos os atos ilícitos que eles próprios praticam em segredo e ele aceita carregá-los sobre si. Ele resiste ao impulso de gritar… um desperdício humano de que toda a gente goza…” Mas, “se há um homem no mundo a quem eu gostaria de me abrir, esse homem é você”, abre ele assim o caderno confiado a Forcas. Alain sente inicialmente um certo asco ao pegar naquelas páginas. No entanto, vence-o com a sua solicitude pastoral: “só se pode pensar num ser de cada vez. Há apenas um ser que existe para nós; e todos os outros fingimos acreditar que não existem”, pensa ele ao fazer resistência para adentrar-se no “mistério do mal” descrito naquele caderno.

Mauriac apresenta aqui o seu credo: aqueles que parecem devotar ao mal a sua vida, talvez sejam acolhidos antes de todos os outros no Reino e a profundidade da sua queda dá a medida exata da sua vocação reencontrada. E Alain foi tendo, lentamente, a sensação quase física desse parentesco de almas entre eles os dois, dessas misteriosas alianças em que todos nós estamos envolvidos pelo pecado e pela graça.

Curioso que no fim, Gabriel no seu leito de doente, acorda e encontra um sonolento Forcas a velar à sua cabeceira. Sentiu algo forte e estranho: podia ser ele esse jovem padre naquela poltrona, se se tivesse cumprido. Por sua vez, quando é a vez do padre despertar e o doente dorme, este tenta vencer a repulsa e observa aquela figura, o “desenho puro da testa, do nariz, da boca: nem o tempo nem o crime alteraram aquela cara indestrutível”. E Alain Forcas, que tinha tudo para ser um hipócrita, descobre que o valor duma pessoa não depende das suas ações, sejam boas ou más, mas da sua viagem interior em que, por vezes, uma faísca é suficiente para iluminar a escuridão humana!

Humberto Martins

Palavra intragável

Leio: “Senhor, Deus omnipotente, tudo está sujeito ao teu poder”. Leio e, instintivamente, qualifico esta palavra como intragável. Na linguagem quotidiana designamos assim o que não presta, nada vale, causa repulsa. Ali, intragável é algo que não se pode tragar, não passa no pescoço, fica preso. Talvez seja um pedaço grande demais ou estranho demais ao paladar, em suma, não dá para assimilar.
O reino da fé está pejado de escolhos destes: verdades que desafiam a mais elementar das evidências, desafiam os alicerces a partir dos quais fomos encontrando o nosso lugar no mundo, a nossa mundivisão. Não só desafiam como deitam por terra esse edifício. Ninguém simpatizará se lhe disserem que nada daquilo em que acredita é verdade, do género: a realidade não existe; ou então, a realidade é apenas aparente.
Não queremos esse paiol de dinamite sob as nossas convicções mais sólidas. Queremos previsibilidade e razoabilidade: um, dois três quatro, quatro, três, dois, um. Isto sim. Chamamos a isso sabedoria, saber estar no mundo, sensatez. Não queremos palavras intragáveis. Deus diz que tudo está sujeito ao seu poder e que ninguém pode resistir à sua vontade e nós olhamos para o mundo e lançamos fora essa palavra intragável. Deus não pode mandar nisto tudo e o mundo estar como está. Assim, impercetivelmente, atiramos borda fora tudo que custa a mastigar e ficamos apenas com o pão sem côdea. Por isso a nossa fé é impostora. Era preferível lutar contra Deus como Jacob, ou fugir dele como Job, mas bem pior é termos a atitude dos fariseus que riam daquilo que Jesus dizia ou dos atenienses “chutando” Paulo para canto: ‘havemos de ouvir-te mais tarde’. E assim, domesticamos a nossa fé, ornamento na construção que entendemos fazer da nossa vida.
Os profetas não pregavam uma mensagem. Tinha sido a mensagem a estilhaçar a sua vida, agora em chamas, e eles lá iam, de plantadores de árvores e guardadores de rebanhos a arautos desabrigados da palavra intragável, impossível de atender e entender pelos poderosos, pelos sábios, pelos atarefados.

Pensa bem na tua situação

«Assim fala o Senhor do Universo: Este povo diz: “Não chegou ainda o tempo de se reconstruir o Templo do Senhor”». E a palavra do Senhor foi manifestada, por meio do profeta Ageu: «Para vós chegou o tempo de habitardes em casas confortáveis, enquanto este Templo continua em ruínas». Por isso, assim fala o Senhor do Universo: «Pensai bem na vossa situação. Semeais muito e colheis pouco; comeis e não vos saciais; bebeis e não matais a sede; vestis-vos e não vos aqueceis; e o operário mete o seu salário num saco roto». Assim fala o Senhor do Universo: «Pensai bem na vossa sorte: Subi ao monte, trazei madeira e reconstruí o meu Templo; nele porei a minha complacência e manifestarei a minha glória», diz o Senhor.

Ageu, 1, 1-8.

Palavras duras, difíceis de ouvir quanto mais de engolir! O povo andava entretido na sua vida, não quer saber daquilo que para Deus é importante. O seu pequeno mundo fala mais alto que que o sangramento do coração de Deus. Trato da minha vida, do meu trabalho, da minha família – que me interessa, fora disso? Para lá da minha porta, que me interessa o resto?
Mas Deus diz: pensa bem na tua situação. Essa blindagem quotidiana pouco te sacia: crês-te em segurança porque a “vida te corre bem”; esse dinheiro que amealhas dá-te a segurança dos opulentos; os teus filhos belos, felizes e sadios enchem-te de orgulho como um estandarte levantado; semeias, lutas, vences, mas o teu olhar não sobe acima dos muros com que edificaste a tua vida: os teus e basta. Sim, apenas esses contam.
Mas olha, diz, Deus, levanta os olhos: não é o mundo pasto de chamas? Não ouves um grito surdo? E, no entanto, bem te basta a casa confortável, laboriosamente construída. Mas levanta os olhos, ainda! Não está o templo do coração de Deus em chamas ou destruído ou ferido ou calcado aos pés (enquanto compras ainda isto e aquilo, bebes mais um copo, planeias a última “escapadinha”)? Olha, que é o profeta que fala. E diz mais, esse desgraçado: que colhes pouco do que semeias com todo o amor do teu coração, que não te sacias com nada, que andas com os lábios secos, morto de sede, vestido e com frio. Ao fim e ao cabo, acumulas e guardas, mas nada se conserva. Como num saco roto, a sementeira parece ter sido em vão.
E lá está a voz paciente do Deus dos Patriarcas: constrói o Templo, levanta os olhos e o coração afora das tuas muralhas. Entra na construção, chama outros, o dia desponta, há vento fresco a despertar as nascentes.
Sobe ao monte, criatura, sobe ao monte! Se ao menos o teu olhar se alevantasse, verias a glória do Senhor, o esplendor do Senhor, a beleza e a majestade daquele que é, ele mesmo, o lugar sagrado. Esse que te espera, cântaro na mão para dar de beber às tuas sedes, para te abrir o caminho dos começos, para que possas cantar o cântico dos que sobem da morte para a vida, esses que caminharam pelo noite fora, sustentados apenas pela palavra da promessa.

Grande e pequeno

“Aquele que for o mais pequeno entre vós esse é que será o maior”.
Tive de me sentar quando ouvi a frase. Como quem não quer a coisa e com a insistência dos seus companheiros, ele lançou a bomba. Já tinha dito várias outras, também difíceis, mas esta era por demais. Não era apenas difícil de digerir, mas um bomba de fragmentação, como um aspersor dizimando tudo à sua volta.
Fiquei ainda um pedaço em silêncio a cismar… O meu primeiro pensamento foi de me censurar por insistir em abrir quotidianamente essa verdadeira caixa de Pandora, o livro. E, logo hoje, esta pérola. Ser o primeiro… ser o último. Ser grande… ser pequeno… Irra!
Não havia nada a fazer, nada a edulcorar, nenhum compromisso possível. A sentença desceu como um raio e não havia apelo nem agravo. Que podia eu fazer? Espernear e bater com as mãos no chão? Lamentar-me e pontapear a parede? Bem sabia o que era a frase…
Eu andava, parcimoniosa e tenazmente, a construir a minha grandeza, descobrindo, formas subtis, acreditava eu, de ser o primeiro, pelos menos nas fantasias da minha imaginação e agora, vinha ele mandar-me para o fim da fila.
No cinema da vida que se desenrolava diante de mim estava tão habituado a ver tantos e tantas com a sua corrida diversa mas todos almejando a mesma meta: ser grande, ser o primeiro, ser rei, dominar…
E quando olhei para trás para o passado, para a história dos homens lá estava a verdade irrefutável, eterna, incontornável: ser grande, ser o primeiro, ser rei, dominar…
Como se atrevia esse “sujeitinho” (como me habituara a ouvir nas novelas brasileiras) virar tudo do avesso? Porque não introduziu na sentença algum advérbio consolador como “preferentemente”, “desejavelmente” ou então “sempre que possível”? Era tão mais fácil…
E agora que faço? Vou por aí, feito o louco narrado por Nietzsche, dizer a todos que está tudo errado, que vão todos a correr para o início da fila, mas deviam ir para o fim? E que faço a estes trejeitos meio inconscientes de gritar mentalmente ao mundo que sou Deus? Tudo demasiadamente complicado.
Definitivamente, esta sentença não cabe neste dia. Porque fui abrir o livro? Estava bem melhor no deve-haver deste dia cinzento de setembro, tão chão como o mais chão dos pensamentos. Já sei… não vou abrir nunca mais o livro das sentenças. Vou procurar a sabedoria que me é oferecida por milhares de vozes milhares de vezes: quero ser empurrado para cima, sob pena de ser ninguém. Não quero mais o livro, nem a ele, nem sentenças.
Ainda assim… talvez o despojar-me de “ofuscantes plumagens” me permita finalmente topar comigo mesmo. Talvez a criança sentada ali no muro, diante da minha sala, tenha alguma coisa que ensinar-me.

Poder e autoridade

Naquele tempo, Jesus chamou os doze Apóstolos e deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demónios e para curarem todas as doenças. Depois enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os enfermos. E disse-lhes: «Não leveis nada para o caminho: nem cajado, nem alforge, nem pão, nem dinheiro, e não leveis duas túnicas. Quando entrardes em alguma casa, ficai nela até partirdes dali. Se alguns não vos receberem, ao sair dessa cidade, sacudi o pó dos vossos pés, como testemunho contra eles». Os Apóstolos partiram e foram de terra em terra a anunciar a boa nova e a realizar curas por toda a parte.

Evangelho segundo São Lucas 9,1-6.

A missão dos seguidores, neste ano de 2021 qual é, segundo este texto? Ter poder sobre os demónios, curar doenças, anunciar a boa nova, realizar curas.
Se há poder sobre os demónios é porque há pessoas possuídas. E há pessoas doentes, pessoas necessitadas de cura, pessoas dominadas por más notícias.
Portanto, este parece ser o cerne da mensagem de Jesus: uma terapêutica. Aproximar-se do caído, do doente e comunicar-lhe uma palavra nova, levantá-lo com um gesto.
Significa que, depois de viver este dia, me encontrei com pessoas doentes, necessitadas de cura? Terei visto pessoas possuídas pelo demónio?
Não sei.
O que eu sei, olhando para os meus semelhantes, é que vejo, cada vez de forma cristalina, que as pessoas andam sobrecarregadas por pesos invisíveis, por vezes até curvadas. Sei, de verdade segura, que há pessoas que se roubaram ou a quem roubaram a alegria. Ou a esperança. Ou que, em algum momento se consideraram definitivamente um caso perdido. Outras, carregam o peso insuportável do seu narcisismo… e que carga…
Antes da parafernália moral “deves/ não deves”, “podes/ não podes” jaz a pessoa, de alguma forma, em algum momento da sua história, caída à beira da estrada, ou a caminhar com alguma dificuldade, ou a respirar mal, ou enredada num labirinto.
Não precisamos ser cristãos para proferir a “palavra-que-alevanta” mas como cristãos podemos fazer um pedaço que seja em cada dia para nos tornarmos servidores no mister de aligeirar a carga deste e daquele.

Falei ontem com o meu amigo.
Como têm sido estes dias, de uma parte a esta? Estranhos, disse…
Exteriormente, depois das férias regressou ao trabalho: rotinas, hábitos, projetos, desejos de melhorar aqui e ali. É bom. Se alguém me vê de fora, afirmou, tudo está a seguir o seu curso. A mesma pessoa, as mesmas idas e vindas. (Como dizia uma antiga música brasileira: “Tudo está em seu lugar/ Graças a Deus”). Já não é bênção pequena que as coisas possa seguir o seu curso sem sobressaltos, garantiu-me.
Quando estávamos perto de uma árvore tão bela quanto digna, parou. Começou a dizer coisas estranhas: que de algumas semanas a esta parte, algum dique dentro de si rebentara. Os dias têm vindo cheios, carregados, atarefados, mas adentro uma serenidade descida das terras altas insinuava-se nos interstícios do coração, como se de repente a bitola proposta insidiosamente pela doxa (disse-me que era o senso comum não verificado) não imperasse.
Eu estava desconcertado. Ele explicou: a doxa diz que a semana de trabalho é penosa e que é bom o fim de semana. E se, perguntou-me, essa distinção deixasse de ser assim tão pronunciada? Não basta ter uma semana particularmente feliz e recompensadora e um contratempo ao fim de semana? Basta receber coisas boas num momento ou noutro e as contas baralham-se.
Alguma coisa estava a mudar em mim, disse. Percebi que subia no caminho, como quem se vai afastando da aldeia, com as suas conversas, hábitos, rotinas, e descobre uma nova respiração, uma nova mentalidade uma outra escala de valores. Lembrei-me de uns versos de A. Ramos Rosa e que talvez fossem a pergunta a que o meu amigo estaria encontrando resposta:
“Eu quero estar vivo apesar de tudo
para que me dês a oportunidade de uma outra vida nesta
Será que ainda posso ser o que nunca fui
e que julguei que nunca poderia ser?”

Talvez o meu amigo estivesse nesse caminho, descobrindo novas realidades inabitadas e inexploradas. Quem sabe? Um novo andamento vivencial. Talvez, pela primeira vez, tenha visto a outra margem, esbatida mas real.

É um pouco isto…

A minha mente e o meu espírito têm o seu conjunto de pensamentos, especialmente erráticos nos primeiros momentos depois de acordar. Quando me aproximo da Palavra de Deus, interrompe-se o ciclo de pensamentos, com as suas compulsões, as suas prioridades, a sua escala de valores. A Palavra de Deus, se acreditada, é disrupção e deslocação. E isso é bom, porque me descentra de mim, dos caprichos do Ego, da estreiteza da minha forma de entender a vida, da entropia e da pequenez. Quando a antífona do Salmo diz: “Exulta de alegria no Senhor!” não é um desejo piedoso ou quimérico, mas uma injunção séria: um movimento de abandono de um caminho para entrar num outro. Esse movimento é o passar do Egodrama ao Teodrama. E a vida cristã é sempre esse trânsito da entropia às “planícies ilimitadas de Deus”, como escreveu o poeta Ruy Belo. Essa passagem do Egodrama ao Teodrama é sempre fonte de alegria e liberdade. É uma passagem do quarto claustrofóbico à paisagem aberta e fresca.
É perigoso o homem de um só livro”, diziam-me em tempos. “Livro” em sentido metafórico: há muitas formas de totalitarismo na nossa vida, muitas avenidas de um sentido só. Ficamos presos a esta forma de pensar, a este juízo sobre os outros e sobre a vida. E é isso que é perigoso. A Palavra de Deus é sempre uma pedra de tropeço na minha mundivisão. É como as setas de direção do caminho de Santiago, sem as quais o peregrino caminha errante.
A direção para que aponta a Palavra de Deus não é da ordem da moral ou do exortativo, mas existencial e terapêutico. Isto é muito importante porque, estou convencido, não poucos cristãos fazem da religião um adorno sossegado. Contudo, essa Palavra tem a força de uma tempestade, vento que tudo varre.
O teólogo Karl Rahner falava das palavras “vindas de baixo” e das palavras “vindas de cima”. É uma metáfora espacial muito usada na religião (cima/baixo), mas elucidativa daquilo que pretendo dizer: se ficamos limitados às palavras vindas de baixo, com certeza que respiramos na mesma, mas o ar é mais poluído e menos benfazejo. Temos de trazer ao nosso dia essas palavras lá de cima. Dizemos, na linguagem teológica que a Palavra de Deus é performativa – isto é, faz aquilo que diz. Esta realidade tem uma força tremenda porque se uma palavra tem esse poder, ela, no limite, pode dar o que de mais precioso a nossa vida tem: a felicidade.
Termino, recorrendo de novo, a um episódio do Antigo Testamento, que já por aqui citei: o vale de ossos que, quando visitados pelo sopro de Deus, recobram a vida e tornam-se um conjunto de seres viventes. A Palavra, o sopro, o hálito, não existem para ornamentar a nossa existência, mas para fazerem de nós seres viventes, nós que, no dizer de S. Gregório de Nissa, “vivemos uma vida morta”.

“Eu vi os caminhos rebeldes do meu povo”

«O Senhor diz: Eu vi os caminhos rebeldes do meu povo, mas hei-de curá-lo e guiá-lo, oferecendo-lhe reconforto.»

Is 57,14-19

Os nossos caminhos são de rebeldia. Nós é que sabemos do ontem, do hoje e do amanhã. Nós é que somos os mestres, os entendidos, os sábios, os peritos. Somos rebeldes porque queremos ser deuses. O rebelde, rebela-se ou revolta-se contra aquele ou aquilo que considera ser fonte de opressão. Diz: vou sair da casa dos meus pais, vou cortar laços com estes amigos, não quero estar dependente de normas, regras ou imposições ou ditames.
Quando me afasto de Deus, o erro desse afastamento não é de ordem moral. Não estou a quebrar uma regra extrínseca, datada, anacrónica. Quando Deus me vê a afastar dele ou quando vê o seu povo seguir caminhos para longe de si, a tristeza de Deus não é a do catequista zangado porque os meninos preferem jogar bola; é a tristeza da mãe que vê o filho dolorosamente andar errante, desorientado, zangado como um cão com fome – um estrangeirado face a tudo e todos. O drama, repito, não é moral, mas existencial: ao virar costas estanca a seiva que alenta os meus braços, as minhas pernas, o bater do coração, o olhar contemplativo para a beleza. Só Deus sabe o drama do humano que vira costas. Bem diz ele que essa pessoa é como árvore sem vida, uma cisterna que não armazena água, um conjunto de ossos sem carne ou nervuras.
A tragédia é a moralização-de-tudo-o-que-é-cristão. E que grande tragédia. Estar cortado de Deus é estar cortado de um fonte. Claro que continuamos a coçar a barba e fazer limonada e a ter sucesso na vida… Et pourtant…
Face a essa rebeldia, Deus fala de cura, de orientação e reconforto. Qual destas três palavras tem um qualquer ressaibo de moralismo? Eu vou curar o teu coração ferido, vou dar orientação aos teus passos errantes, vou confortar aquilo que em ti precisa de conforto, aquilo que em ti é desconchego, tristeza, desilusão, luto, a pequena morte da alma.