VI

1. Achei curiosa a expressão usada por S. Bento: “Pax perniciosa”. A paz perniciosa. Não sei se entendi corretamente, mas associei essa paz perniciosa aos momentos em que sinto que todas as variáveis à minha volta estão sob o meu controlo: casa e filhos, trabalho. Como se dissesse a mim mesmo: agora estou em segurança, agora está tudo bem. É uma paz perniciosa porque é mentirosa: é uma mentira que o ego me faz. Que sei do que me pode acontecer no momento seguinte? Tudo é incerto e imprevisível. É mentirosa porque quer abrandar ou fazer cessar o combate que sempre tenho de travar.

2. O meu pai gostava de citar a frase, que atribuía a Santa Teresinha do Menino Jesus: “A vida é uma má noite numa má pousada.” O “ar do tempo” reage a esta frase e às implicações que traz. Os meus contemporâneos vociferam contra tal ideia deprimente: a vida é para ser vivida, colhendo, saboreando tudo o que tem de belo para dar. O nosso mundo e o nosso tempo estão cheios de coisas maravilhosas. Temos de viver ao máximo!
Talvez estas ideias estejam erradas; no entanto, observo que muita gente é infeliz; o mercado dos fármacos antidepressivos é grande e gera receitas avultadas. Há muito gente a recorrer a terapias com o fim de sair do seu estado de depressão e sofrimento.
É perigoso hoje dizer que estamos neste mundo de passagem, constatando como é breve a vida “sob o sol”.
O contemporâneo usará, ainda, um argumento religioso, afirmando que foi Deus quem criou este mundo grande e belo para que dele desfrutássemos. É um argumento verdadeiro. Inclusivamente, na nossa caminhada para Deus, usamos a beleza da criação como expressão da beleza do Criador e como caminho para nos aproximarmos dele, ou antes, para nos deixarmos aproximar por ele. Tudo isso está muito certo.
Os nossos contemporâneos também dirão que a espiritualidade cristã desprezou durante demasiado tempo a realidade e beleza deste mundo, procurando refúgio na outra vida e, pior, deixando de se comprometer com este mundo e, inclusivamente, de lutar pela justiça.
“Não sejas deprimente”, dizem, quando introduzimos uma nuvem negra no otimismo militante.
A primeira das quatro nobres verdades do Budismo, diz-nos que a vida é sofrimento. O caminho da espiritualidade desta religião consiste no processo de nos livrarmos desse sofrimento. Aqui temos uma visão “pessimista” da vida humana (e não “contaminada” por qualquer traço do cristianismo). Pergunto por que razão os budistas consideram que uma vida sem reflexão, sem um caminho novo é sofrimento. Não serão os budistas, também eles, pessimistas? O que os leva a este caminho?
A vida é bela, mas incerta, difícil, imprevisível. E trágica.

V

O problema com o piso -1

O texto que transcrevo abaixo confirma na perfeição aquilo que penso e sobre o qual tenho escrito neste blogue: somos seres desassossegados. O medo, a ansiedade, a culpa, são verdadeiros existenciais da nossa condição humana. Lavram-nos por dentro, operam a um nível muito mais difuso e pervasivo do que podemos supor. Com certeza que somos funcionais: cuidamos da família, trabalhamos, divertimo-nos, realizamos as operações básicas quotidianas. No entanto, somos roídos por dentro. A experiência da prática da meditação mostra-me à saciedade como, no dia a dia, a mente humana se encarrega de obliterar este desassossego existencial. No silêncio repetido diariamente, faço a experiência de perceber como corre em mim esse rio subterrâneo de medo, ansiedade, desassossego. E, repito, com certeza que sou funcional. A verdadeira pergunta, no entanto, é: que preço estou disposto a pagar para ser implacavelmente livre e profundamente feliz? Dante e Vergílio desceram ao inferno antes de subir ao céu.

O medo está na superfície da consciência e existe uma força inconsciente mais profunda que é a ansiedade. A ansiedade não é específica, é vaga, é sentida como uma espécie de medo geral de algo novo ou potencialmente ameaçador. A ansiedade tende a isolar-nos e a impedir-nos de arriscar algo novo. É vaga, mas tem um nível baixo – ou alto – e um estado de funcionamento constante. (…) E ainda mais profundo do que a ansiedade é o que podemos chamar de pavor. Esse pavor é um sentimento de que o nosso destino está condenado, que haverá um resultado terrível e cataclísmico no final da história. (…) Assim, cada uma destas forças negativas do inconsciente, coletivamente chamadas “medo”, afetam o corpo. Elas são controladas pela amígdala, aquela parte muito primitiva do nosso cérebro que emite hormonas de stress como o cortisol que nos preparou quando éramos caçadores-coletores com um ritmo cardíaco mais rápido e aumentando a nossa pressão sanguínea e fazendo-nos piscar muito os olhos. Estes foram os preparativos para o corpo lutar ou fugir. É uma reação muito primitiva perante a vida. O problema surge quando estas respostas não se relacionam com a realidade, quando se tornam permanentes. É como se a máquina ficasse presa e se repetisse numa nota negativa. Se estiver neste estado de medo, então pode sentar-se com um amigo ou terapeuta e eles podem ajudá-lo a ver e compreender que tudo isto não está relacionado com a realidade. Tudo isto se deve a acontecimentos passados na sua vida. E isso pode ser o início de um processo de libertação. Mas a libertação tem de surgir num nível mais profundo.

Laurence Freeman

https://mailchi.mp/wccm/daily-wisdom-393126?e=5fa31a93c3

IV

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Excesso de realidade

Será hoje o mundo mais violento do que foi no passado? Haverá hoje mais pobreza ou mais sofrimento do que no passado? Eu não estou certo de que assim seja e não estou certo que assim não seja. Existe hoje muita informação disponível que quantifica o nosso progresso como humanidade. Sei que a informação é controvertida e polémica e pode ser mal usada e interpretada. Dizem que nunca vivemos tão bem como hoje.
Se assim é, por que razão tenho uma perceção tão vívida do sofrimento e da presença do mal no mundo, de tal forma que aprece ser a única realidade? Chamo a isso um “excesso de realidade”. Hoje não existe qualquer espécie de mediação entre o espaço, o tempo e a “quantidade” de informação sobre o que se passa no mundo e a existência pessoal de cada pessoa. Podemos estar tranquilamente a ver um meme ou um vídeo e, de repente, ao fazer scroll, aparece um vídeo sobre uma tragédia de uma criança.
A nossa postura de compromisso e vigilância com o que se passa no mundo não pode significar estar em permanência exposto a tudo. Deve ser filtrada e mediada. Não é saudável nem mesmo justo que sejamos expostos a essa torrente, a qual tem subjacente, infelizmente, um negócio. Desta forma, fecham-se as portas a toda a beleza e heroísmo dos quais estão cheios os dias de tantas pessoas. Como em relação a tudo o que nos chega pelos sentidos, moderação e justa medida são princípios universais. Esse “excesso de realidade” pode ter o efeito perverso de provocar em nós medo, ansiedade e, no limite, uma paralisia na nossa ação.
Vejo isso acontecer na chamada “ansiedade climática” que invade muitos jovens. Precisamos lutar, mas com um coração forte e reconciliado. O sofrimento e o mal devem ser percebidos e combatidos mas não podemos deixar que nos façam submergir e paralisar.

A voz aos amigos (XXXV)

O padre na literatura (X)

Carlo Coccioli: “Tra cielo e terra”


Pecado original, redenção, santidade, demónio. Quem se atreveria hoje a escrever um romance sobre estes temas? Tentou-o Carlo Coccioli neste romance de 1950 ousando falar de temas intemporais, e que todas as épocas e lugares enchem-lhe de carne. Aqui não existe somente um padre com “odor” de santidade, enviado para ser pároco numa pequena aldeia montanhosa (Chiarotorre) para que entendesse que, para carregar a cruz, não seria necessário ir até aos confins da terra. Ele trata da vida de todos nós, com as suas lacerações abertas.
Don Ardito é um padre atormentado ao tentar encontrar o caminho para servir a Deus – o céu – progressivamente consciente que terá de percorrê-lo sobre uma terra povoada de indivíduos e leis bem terrenas, numa terra “sem” Deus.
Até que ponto uma pessoa é dona de si ou é de uma outra, inominável? Que direito tem Deus de intervir na existência do homem, se o drama dum sofrimento desconhecido persiste? O mal é apenas maldade humana ou é também domínio de Satanás? Que resposta damos perante a nossa própria insuficiência? É por esta razão que toda a humanidade entra no fio narrativo deste autor: nobres e camponeses, sacerdotes e combatentes (estamos entre 1927 e 1943), pecadores e videntes. Todos eles indissociavelmente ligados a Don Ardito Piccardi, com quem entraram em contacto: o marxista que entra na Trapa, o homossexual atormentado com a sua história, etc.
Don Ardito é como Carlo Coccioli. Na sua escrita febril, com os seus temas exagerados, sem comparação possível a Mauriac ou Bernanos, a verdade é que Coccioli era – e é – apenas ele mesmo, ao “queimar-se” na busca de um sentido para o humano. Don Ardito, pastor de almas, arauto contra Satanás; também ele se deixa possuir quando cede à lógica dos salões à la page (sic!); mas salvo pelo desejo de regressar ao reconhecimento de Deus em cada pessoa, da única forma possível: por amor e sem renunciar a nada do que está no ser humano até o trazer à luz. Começa Don Ardito por recusar em se adaptar a uma via humana e terrena e vemo-lo a amadurecer diante dos nossos olhos, ao renunciar lentamente a esse princípio (e é isso que o torna grande: a renúncia até da sua “riqueza” para nos enriquecer com a sua “pobreza”).
Assim toma consciência de não poder agir pelo Outro, de não poder ser a mão de Deus na terra, entre os homens, sem fazer parte da humanidade, sem estar entre os homens: “se esses – os homens – se movem, algo em mim se move. Talvez o mesmo acontece com eles se eu me movo. Estamos aqui edificados uns para os outros, uma irreparável relação”.
Enfim, o nosso padre chegará àquele que parece ser o caminho mais terreno e divino, ao mesmo tempo e, nas suas derradeiras horas, dirá: “Muitas, muitas coisas me escapam. Por outro lado, não procuro atingi-las.” “Posso perguntar porquê?” “Não sei se te é mais fácil dar-te conta até que ponto é inútil compreender. Compreender no sentido de conhecer…” “E então o que é que é realmente útil?” “Descobri que é útil amar. Mas foi-me pedido tanto até chegar a esta descoberta.”
Arderá nas tuas mãos como fogo este romance e o confronto com um homem que tantos, pelo mundo fora, acreditaram existir numa aldeia perdida nas montanhas a quem escreveram cartas porque lhes tinha lido o coração como um livro aberto!

O livro está traduzido em português: Carlo Coccioli, O céu e a terra (Editora Ulisseia, 1973)

III

Uma série e um filme. A série (1.º episódio): “A very british scandal” retrata as aventuras e desventuras da Duquesa de Argyll e apresenta-a como uma mulher maldosa, vingativa, insaciável nos seus apetites. O filme: “Jane Eyre” segue a vida dura de uma precetora, Jane, desde o quase abandono familiar ao seu envolvimento com um rico proprietário.

Ambos os programas me entretiveram. Continuarei a ver a série. Ao meu espírito, contudo, veio o pensamento sobre estas duas mulheres. Uma, ardilosa, “social climber”, implacável. A outra, lutadora, “com espinha”, que não vergou diante das dificuldades da vida, antes se erigiu a partir delas.

Fazem-me falta mais séries ou filmes (que os há, sei-o) que, sem serem “cheesy”, nos mostrem personagens especiais, raras, lutadoras, com carácter e me ajudem a viver com um pouco mais de beleza e força. A vida já não é fácil. A arte deve ter como função elevar o espírito, dar-nos luz, força e orientação para o caminho. Tenho pena que uma porção apreciável daquilo que é oferecido não cumpra esse desiderato.

II

Ao acabar o livro sobre o eremitismo, tornei-me amigo de vários deles, particularmente dos eremitas japoneses que, ao longo dos séculos, povoaram montanhas e planícies, mergulhados na natureza. Ao ler o relato de um deles, consigo vê-lo na sua pequena cabana com a janela aberta para a beleza luxuriante de árvores e plantas. Tem os olhos fechados, nessa tarde em que nada nem ninguém está próximo. Numa calma e paz de outro mundo, de que ao menos uma vez na vida nos abeirámos, o eremita ouve a chuva tombar. Não há pressa; o seu pensamento é calmo como um lago. Totalmente serenado vive plenamente.

Nesta noite em que escrevo estas linhas, sei que espalhados pelo mundo, aí estão eles, as sentinelas do mundo a vir, os que vigiam sobre o seu coração e o coração do universo. Sei, também, que quando os dias pesarem ou o lixo, que volta sempre como a maré cheia, tomar conta do meu coração, posso simplesmente fechar os olhos, sentar-me no chão, junto de Ryokan ou Basho e, com eles ouvir a chuva batendo as folhas, limpando, lavando, abrindo a porta para a plenitude.

I

Agora que o ano está a terminar, atravessa o meu espírito, ainda que distante, o sofrimento do mundo. Não falo do mais visível ou mediático. Falo da solidão: de querer ter amigos, estar na flor da vida e não haver ninguém. Estar simplesmente sozinho. Falo de quem cuida de uma pessoa de família, anos a fio, esses seres maiores do que o que de mais nobre existe na terra. Falo de quem vê uma, duas, três pessoas da sua própria família a definharem para a doença incurável. Falo destoutra que me dizia sofrer desde os seus dezoito anos.

Enquanto isso, a minha casa está quente. Nada me falta: afeto, amor, serenidade, beleza, alimento, calor. Não me sinto culpado e, sim, sou abençoado. Apenas não consigo viver “como se…” a dor do mundo não existisse. Não quero que me baste o “eu e a minha circunstância”. Trago, de novo, à minha memória, quem dera ao coração, o grito de santa teresa de ávila: “Não durmais porque não há paz sobre a terra.”

Talvez seja esse o meu voto para dois mi e vinte e dois: viver de olhos bem abertos, aliviar esta e aquela dor, alargar sempre mais a fronteira do coração, alargar a roda. Talvez seja exatamente esse o melhor programa para dois mil e vinte e dois: alargar a roda. De olhos abertos e mãos generosas.

Eremitas de todo o mundo, uni-vos!

Um disco da minha juventude: “Poetas Andaluces de ahora” do grupo aguaviva: uma mistura de música, poesia e discurso em primeira voz de alguns poetas da Andaluzia. Um deles dizia de si mesmo que era algo “entre gitano y conventual”. Sempre gostei desta frase e adotei-a esparsamente como um dos lemas sobre mim próprio. Gosto de brincar, de dar boas gargalhadas, de ser ligeiramente pouco apropriado para a minha idade. Mas também gosto e preciso muito de “recuar”, de estar no meu próprio espaço e mundo para ler, escrever, meditar, escutar música. A vida monástica sempre me entusiasmou, não tanto na inevitável dureza que uma tal opção exige, mas na imagem idealizada que prefiro ter quando entro num mosteiro ou vejo documentários sobre a esse tema.

Por essa razão, estou a gostar especialmente do livro: “The book of Hermits: a history of hermits from antiquity to the present” cujo autor é Robert Rodriguez. Nunca vi um livro tão profundo e abrangente sobre a figura do eremita. São mais de cinquenta página de bibliografia! O livro está dividido nas seguintes partes: 1 – O Mundo ocidental: Antiguidade e Idade Média; 2 – O Mundo Oriental: da Antiguidade ao presente; 3 – O Mundo Ocidental Moderno: do Renascimento ao Romantismo; 4 – O Mundo Moderno Ocidental: o século XIX. Como se pode intuir, este é um empreendimento gigantesco e muito bem documentado.

Um aspeto muito interessante do livro é que o autor alarga o conceito de Eremita a todos aqueles que no passado procuraram, de alguma forma, isolar-se por razões muito diferentes da vida em sociedade em ordem a prosseguirem uma caminhada solitária e criativa. Aqui entram escritores e poetas, filósofos, pensadores… É engraçado ler sobe autores que conhecia, melhor ou pior, e que aqui são apresentados especificamente na forma como lidaram com a proximidade ou distância relativamente à sociedade.

Assim sendo, que nenhum eremita contemporâneo se sinta uma “ave rara” por se achar distante ou com reservas na sua relação com a “sociedade” ou a “multidão”. Sinta-se, antes, parte do longo cortejo daqueles e aquelas que, ainda que não eremitas por opção existencial, o são na sua alma.

Cinco pensamentos

I
A locomotiva vertical, encontrei-a na música da banda 21 Pilots chamada “Screen”. A um dado passo o autor fala desta locomotiva que desce do céu: uma metáfora poderosa para falar do movimento de aproximação do céu à terra. A locomotiva evoca rapidez, urgência, é quase imbatível nos obstáculos que encontra na sua passagem. Deve ser com essa força, essa urgência, quase essa prepotência que o céu se quer aproximar da terra e o faz inacreditavelmente com Jesus. Que se renovem as metáforas e a linguagem com que queremos falar e aproximarmo-nos do divino.


I can’t see past my own nose, I’m seeing everything in slo-mo
Look out below crashing down to the ground just like a vertical locomotive
That’s a train, am I painting the picture that’s in my brain?
A train from the sky, locomotive, my motives are insane
My flow’s not great, okay, I conversate with people
Who know if I flow on a song I’ll get no radio play
While you’re doing fine, there’s some people and I
Who have a really tough time getting through this life
So excuse us while we sing to the sky

II
Refletia sobre onde tinha ou estava a encontrar beleza. Recordei o vento nas árvores de manhã quando tinha ido caminhar; A luz desmaiada do inverno que entrou na sala, o céu estrelado antes da primeira luz, um ninho bem perto da janela, um presente inesperado. E esta música que agora escuto.
Tudo coisas belas que falam e pedem resposta.

III
Um amigo do coração trouxe a notícia de uma rapariga que está com leucemia, sem esperança de viver muito mais. Tem dezasseis anos. Ouço a notícia e trago-a para dentro. É o momento de tomar uma decisão: deixo que esta notícia me desloque ou, simplesmente, arrumo-a nalgum canto piedoso e prossigo viagem, relativamente incólume?
É sempre este o dilema: há notícias de sofrimento que desfazem as frágeis categorias com que vou murando a minha existência. O que é que este caso trágico de uma rapariga que já deixou os tratamentos, por inúteis, e que vem agora passar o Natal com os seus pais, o que é isto me está a dizer? Ou, de outra forma o que é que Deus, o Cristo, a vida, o que quer que seja que tenha uma linguagem, me estão a dizer? Num verso do antigo testamento o autor diz: “como tecelão, eu tecia a minha vida, mas cortaram-me a trama”. Há factos que provocam um abalo nos fundamentos. Não sei se um abalo, se mesmo a sua destruição. Nesses momentos, por quem passa por eles, deixa-se simplesmente de viver a vida de acordo com a “pauta” que grupos e sociedades partilham, mas entra-se na grande noite onde não há ombro ou mão amiga que aliviem o sofrimento em permanente carne viva . Aí se dissolvem como um nada todos os planos, escalas de valores, certezas ou evidências.
IV
O ministério dos pequenos gestos: dispor das mãos, do coração, da vontade para dar de comer e de beber à alma deste e daquele – afinal a forma invisível e tão antiga pela qual o mundo está em permanência a ser salvo e recriado. Que venha essa insurreição.
V
Disseram-mo um dia e gravei-o: “Há linhas paralelas que nem no infinito se cruzam. Que o teu olhar voe sempre mais altos que as águas turvas do quotidiano.

A voz aos amigos (XXXIV)

Sou crescidinho o suficiente para já saber como por vezes a vida me impõe o que, se eu controlasse tudo, jamais faria. Na verdade, à medida que vou avançando no tempo, vão sendo cada vez menos as imposições ligadas àquilo que eu entendo que sou e mais ligadas àquilo que eu faço. São escolhas, claro, mas que de uma forma geral não me alteram nem a personalidade que é a minha nem os valores que me orientam. Mas, mesmo isso, nem sempre é assim tão líquido.
Eu cresci num meio social em que é maior motivo de vergonha pedir que roubar. Vou repetir: quando era muito miúdo, roubar era quase natural e pedir era sempre humilhante. Mesmo na eventualidade de se ser apanhado a roubar – o que não era muito frequente, pelo menos na altura – a justificação que era encontrada era, naquela envolvente, mais bem aceite pelos pares que a humilhação de ter que pedir. Afinal, só se roubava porque não se tinha o que a outros sobrava, pelo que seríamos uma espécie de Zé do Telhado em proveito próprio. E quem tinha, se não cuidava do que tinha, era porque não lhe fazia falta ou não lhe era suficientemente importante para justificar o seu bom cuidado. O meu percurso de vida fez-me reencontrar esta lógica da batata recentemente, junto de alguns dos miúdos com quem passo grande parte dos meus dias. E desmontar isto, mesmo para mim, que o entendo, não é fácil. Sobretudo se aliado a uma outra realidade, que até é incutida pelos pais: “Tu não pedes ajuda, tu desenrascas-te. E se eu venho a saber, seja por quem for, ainda ficas de castigo” (leia-se isto devidamente acompanhado de impropérios típicos do Norte: para cada palavra, dois impropérios). Para o bem e para o mal, esta arte do desenrascanço, a sós, no silêncio da culpa, marca-nos indelevelmente o corpo e a alma. A mim marcou.
Naturalmente, fui crescendo e a sorte da escolha mútua de boas companhias foram-me limando estas e outras arestas que me permitiram ir adotando um outro código de valores mais consentâneos, não com o que sou – ou julgava que era – mas com o que sou chamado a ser. Mas sabemos todos como há coisas em nós que permanecem, que, racionalmente, escolhemos que não sejam de uma determinada maneira, mas que nos desassossegam e exigem um esforço hercúleo para serem contrariadas. Ora, pedir, para mim, é uma dessas coisas. Pedir o que quer que seja a quem quer que seja qualquer que seja o motivo é uma daquelas coisas que me revolvem as entranhas ao ponto de sentir náuseas. Por isso, sempre que pude, evitei esse ato de pedir.
Nas campanhas de solidariedade – que são frequentes na minha vida – nos hipermercados, escolho sempre estar noutro lugar que não seja o da entrega dos sacos. Posso estar na organização, posso estar durante vários dias, com vários turnos, na recolha dos bens e dos sorrisos, mas entregar sacos é matar-me. Posso trabalhar duro no armazém, ser o primeiro a chegar e o último a sair, organizar criteriosamente os alimentos por género e número, contar e recontar para que não falhe nada, mas não me peçam para os pedir. Nem pedir às pessoas para estrem presentes, ou colaborarem, ou abdicarem do seu tempo para me ajudarem. Nada disso. Eu resolvo, eu sacrifico-me, eu desenrasco-me. Com um sorriso nos lábios.
O que eu não sabia – e que a vida se encarregou de me ensinar da melhor maneira: espetando a parede contra a minha cabeça – era que esta é uma extraordinária falta de humildade da minha parte. Pedir é recusar-me autossuficiente, é colocar-me à mercê de alguém, é dizer eu não tenho, é olhar nos olhos e dizer eu preciso, é tornar-me dependente, é arriscar ser desprezado e humilhado, é encarar a possibilidade de ser motivo de pena, que é, para mim, a suprema humilhação. Vai contra todos aqueles instintos que me foram incutidos em miúdo e que ainda hoje me fazem engolir em seco quando têm que ser contrariados. Mas têm que ser contrariados. Eu tenho que os contrariar. Porque pedir, se é aquilo tudo que referi anteriormente, é também descoberta que se é amado, é também ser puxado para cima, é também encontrar uma mão que nos é estendida, é também mergulho num Nós que apenas ultrapassa o vácuo palavrar e encontra verdade quando tem a oportunidade de se fazer vida vivida, vida sentida, vida partilhada. Efetivamente. Na carne. Na alma.
Já adulto, pedi e peço muitas vezes. Nenhuma delas sem um enorme custo, nenhuma delas sem aquela náusea, nenhuma delas sem a procrastinação que destino às coisas verdadeiramente desagradáveis que espero que não tenha necessidade de fazer acontecer, nem que seja por uma qualquer luz vinda do céu: “afasta de mim este cálice, Pai”. Quando peço, o que quer que seja, a quem quer que seja, para quem quer que seja, faço-o inevitavelmente tarde e a más horas, quando já não consigo adiar mais, quando já enfrento as nefastas consequências de não ter tido a coragem de efetuar o pedido antes, atempadamente, quando se justificava, quando sabia ser inevitável enfrentar a dolorosa necessidade de pedir.
E, no entanto, sempre que peço fico maravilhado. Pela generosidade de quem me acompanha, pela naturalidade da entrega, pelo amor que me rodeia e que se torna particularmente palpável quando eu preciso do que quer que seja, de quem quer que seja, para quem quer que seja. Vou percebendo que pedir é uma espantosa maneira de revirar o quotidiano permitindo que o ar se renove, libertando o que nos ata, dando visibilidade e possibilidade ao melhor de nós. E que, por isso, pedir, colocar-se à mercê, submeter-se, estender a mão, é, afinal, o que nos torna verdadeiramente humanos. E caminho, para que os outros façam acontecer amor em nós.
José Pinho