O que a vida me ensinou (II)

Este ensinamento é relativamente recente, mas tem ocupado os meus pensamentos. A experiência de ser criança é bela e comovente, mas, ao mesmo tempo, altamente arriscada. Nessa fase do nosso desenvolvimento, as nossas necessidades de afeto, de proteção, de escuta, de amor são avassaladoras. Mesmo que o ambiente familiar e o contexto envolvente tenham sido positivos e afetuosos, creio que haverá sempre alguma coisa que no mundo interior da criança sai magoado. Não falo sequer das experiências de infância dolorosas ou mesmo traumáticas, onde essa dor cresce de forma bem ais dolorosa.
Diria que são as limitações próprias da vida e da contingência do existir. Um pouco como a primeira experiência traumática que consiste em sair do calor e da proteção do ventre da mãe e passar para um meio ambiente mais doloroso e hostil.
Com o crescimento, outras encontrões, feridas e marcas farão o seu percurso. Paralelamente, aprendemos a jogar o jogo que a sociedade nos propõe como o “programa da felicidade” montado na construção do ego, na procura do sucesso, do poder, da afirmação social.
Tudo somado, tenho aprendido naquilo que vejo em mim e nas pessoas à minha volta que existe esse desassossego e cambalear da alma humana. Procuramos parecer bonitos e asseados, sensatos, bem comportados e ajustados, mas a realidade do nosso “deep down” clama por outra medicina.
É por isso que, à medida que os anos vão passando, tenho aprendido a ser mais prudente no meu julgamento daquilo que as pessoas transmitem, no que dizem, na sua linguagem corporal, na sua aparência em suma. Por vezes acreditei ter-me desiludido com a pessoa A ou B (da mesma forma e com a mesma naturalidade com que C e D naturalmente se desiludiram comigo) mas essa desilusão assentou na crença errónea de que conhecia a pessoa. E isso é errado: há um turbilhão tão intenso e inconfessado nas nossas emoções e sentimentos sempre tão profundos; existem tantas marcas de sofrimentos, ressentimento, medo, solidão, agressividade – tudo isso a reclamar uma prudência e cautela como atitudes primordiais na abordagem a outro ser humano.

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