Platitudes – IX

De regresso.

1. “A arte da vida consiste no cultivo da sabedoria.” John Henry Newman.
Tem a vida uma arte para ser vivida? Não bastará apenas que a vivamos dia após dia, deixando que flua, lidando com ela da melhor forma possível? Dominar uma arte requer tempo de prática, aprendizagem e mestria. Requer vencer a vontade de parar, de ficar satisfeito a meio caminho. De acordo com a citação, viver pode ser conseguido com arte ou sem ela.
Um outro possível significado da frase poderá ser o de que apenas a vida vivida com sabedoria digna de ser chamada uma vida “com arte”.
E o que pode significar viver sem sabedoria? Mais ainda, o que vem a ser a sabedoria?

2. John Main foi um monge beneditino, fundador da Comunidade Mundial de Meditação Cristã. É uma das pessoas “desobstruidora de canais”. Essas pessoas, místicos, santos, os devorados pelo amor, os “loucos por Cristo”, os círios na noite do mundo – todos eles, à sua maneira, têm ou tiveram esse ministério. Fruto da acomodação cultural, da mediocridade, da falta de exemplos vivos, a vida da fé vai-se tornando progressivamente mais estafada e mortiça. Então surgem estes homens, que pela sua vida, pela sua intuição, pela sua entrega, limpam e preparam as veredas, os caminhos de acesso às terras altas, às nascentes, a um regresso ao primeiro dia onde tudo nos foi prometido. É preciso pedir a descida do Incêndio que nos acorde do “coração paralítico”, como escreveu o poeta Daniel Faria.

3. Sei que a Quaresma já passou e para a maioria de nós a Páscoa, durando apenas um domingo, também. Algures naquele tempo austero, topei com um versículo: “Converte-nos a ti”. Conforme disse há tempos o papa Francisco, a tentação do pelagianismo ronda a vida cristã: a convicção que o trabalho da nossa conversão é fundamentalmente nosso: “faço e aconteço e tal…”. No entanto, há uma dimensão trágica na nossa condição, escondida como fruto proibido: a incapacidade visceral e absoluta de fazer regressar à comunhão divina as zonas mais profundas, rebeldes e selvagens do nosso ser. Feliz aquele que um dia descobre a verdade da frase: “converte-me a ti”. Descobriu, talvez em lágrimas, o drama da impotência humana (ainda que S. Tomás de Aquino tenha dito com humor que, apesar do pecado, o homem consegue coçar a barba), a errância do coração como condição fundamental.
Numa feliz tradução, S. Paulo dizia: “Suplicamos-vos em nome de Cristo: deixai-vos reconciliar com Deus.” Nós somos o potro incorrigível que não se deixa nunca domar, somos os ex-cêntricos, como Adão escondendo-nos do amor. Chega aos meus ouvidos, de novo, este magnífico verso de Ramos Rosa: “Que difícil é ser o alvo desta atenção divina”.

“Onde estás?”, pergunta Deus a Adão. E nós, com ele, respondemos: “ouvi os teus passos e como estava nu, escondi-me.”

Etty Hillesum

“Uma vida transformada”

Li em dois dias o livro. A sua existência sobe desde uma família disfuncional que ela apelida de “caótica”,  atravessando-a por terras de paixão, de inferno e de uma sede ardente de compreensão de si. Guiada por mão sábia e amiga, essa mesma vida coloca-a às portas da fé, no dia em que espontânea e repentinamente sente a necessidade de se ajoelhar numa casa de banho, sobre um tapete áspero.

A partir daí a sua vida transforma-se. Enquanto em Amesterdão se aperta o cerco aos judeus e Etty descobre progressivamente que os seus dias estão marcados, dentro dela maduram frutos maravilhosos na sua relação com Deus, numa alegria indefetível mesmo diante do sofrimento e na missão comprometida de auxílio aos seus irmãos judeus, alvos privilegiados da ira nazi.

Ler pedaços dos seus “Diários”, ver a sua coragem, o amor por Deus e pela criação que transbordam incólumes para o auxílio aos que a rodeiam – tudo isso faz dela um ser humano espantoso. Em tempos de cinismo, de mediocridade, onde faltam estrelas que brilham e abunda o odor a vulgaridade, esta mulher ajuda-me a olhar com renovada confiança para aquilo que tem de melhor a natureza humana.

Os tempos sombrios que viveu durante a segunda guerra e que lhe ditaram a sina, fazem-me, também, confirmar o carácter sinuoso e difícil que é este o de trilhar a existência, olhando-a com verdade, despido de contos e lendas trazidos por qualquer vento. Insisto e confirmo que o viver é tarefa árdua e que, num momento ou outro, a verdade crua baterá à porta.

Ainda assim, quando caminhava rente ao arame farpado no campo de concentração, Etty aspergia o cheiro de plantas e flores, deslumbrando-se pela poesia serena de um entardecer. Que ser humano maravilhoso: a coluna direita, sem nenhuma ilusão quanto à maldade que a cercava, a mão no ombro da velha cega e comida pela fome e, no seu vasto reino interior, uma prece levantada ao Deus que aprendeu a conhecer e amar com uma voracidade apenas acessível aos que morrem de fome. Ela é a incarnação viva do verso de Sophia: “Intacta, caminhava entre os destroços”.

A voz aos amigos (XXXIX)

Ao entardecer

Ao entardecer, do dia ou da vida, as coisas que tiveram mais côr ou mais valor ficam diferentes. O que eram apelos da exterioridade convertem-se em convites à interioridade, ao recolhimento da consciência. Os ruídos e as alegrias são, agora, suaves sons e uma serenidade na qual redescobrimos que temos alma. O que sentimos agora, o que saboreamos neste instante é absolutamente coerente com um anseio de eternidade. O entardecer é como um quadro que nos ensina a ver as coisas pelas quais passámos distraidamente durante o dia.
John Atkinson Grimshaw, conhecido como pintor da noite, transporta-nos no espaço e no tempo para esses ambientes em que as horas de agir são substituídas pelas de refletir e apreciar.
Vejam este vídeo num ecrã grande:

Paulo Farinha

Uma árvore plantada à beira de um regato

Photo by Gustavo Zambelli on Unsplash

Condenarei aquele que me vira as costas e confia num simples homem, e conta somente com a força humana. Pois é como o arbusto no deserto, que cresce na aridez, em solo salgado, onde não há nada de bom e onde ninguém habita. Todavia abençoarei aquele que confia em mim e procura em mim a segurança. Esse é semelhante a uma árvore plantada à beira de um regato, estendendo as suas raízes para a água. Não teme quando vem o estio, porque as suas folhas permanecem verdes; pouco lhe importa se não há chuva; e não deixa de dar fruto. Quem pode entender o coração humano? Não há nada mais enganador; está demasiado doente para ser curado. Eu, o Senhor, penetro no íntimo do homem, e examino o seu coração. Dou a cada um segundo o seu procedimento conforme as suas ações.

Jeremias 17, 5-10

Confiar ou não confiar em Deus, eis a questão. “Confiar” é uma palavra bem mais poderosa do que simplesmente “acreditar”. Na confiança, entrego a minha fé (confidere) a alguém, isto é, assento os fundamentos da minha existência nesse outro, algo bem mais profundo que o uso pobre do verbo “acreditar” (em Deus). Aqui, “Deus” aparece como um ente de razão, tão crível como acreditar que D. Afonso Henriques viveu ou que existe algo chamado ONU.

Por isso, a distinção entre aquele que confia e aquele que não confia é tão radical. Aquele que não confia em Deus, confia antes em si mesmo. Ele é comparado a um arbusto no deserto, sem beleza, sem graça, quase sem vida. Está cortado da água que lhe daria pujança. Esse, conta apenas consigo mesmo para fazer frente ao mar revolto  e imprevisível que é a nossa existência sobre a terra.

Por outro lado, aquele que confia em Deus e que encontra nele a sua segurança, é descrito de forma bela:  uma árvore, cujas raízes estão sempre mergulhadas na água; as folhas são sempre verdes faça ou não calor. Mais: dá sempre fruto.  A árvore recebe da água, o arbusto definha, não é belo, não tem graça.

Que pode esta poderosa metáfora querer dizer? Simplesmente que a relação com Deus se joga numa dimensão mais profunda e misteriosa que simplesmente “acreditar”. Entregar a nossa confiança ao Mistério a que chamamos Deus, significa o mesmo que a seiva faz a uma planta. É tão radical e vital como isso. Entregar a Deus a nossa fé é permitir que circule, corra ou superabunde nos confins mais agrestes e escondidos da nossa alma, uma água que nos torna belos. Belos porque não temos de carregar o peso intolerável do jugo do Ego com a sua sedução, o seu fascínio, o seu beijo mortal. Não queremos essa luta permanente por manter a cabeça acima da linha da água. Procuramos a beleza radiante e juvenil, a segurança profunda do Lugar onde nunca falta a água, onde o abraço do Pai não engana e demora.

After life

Pessoas aos trambolhões. Assim posso descrever o fio que une as diferentes personagens da série “After life”. A linguagem é rude, aparece muitas vezes a f*** word. Há personagens estranhos como o carteiro ou o rapaz gordo que estagia no jornal local. Ainda mais estranho o psiquiatra e o seu estilo gingão e heterodoxo de ajudar o paciente. Anda por lá um prostituta e uma criança na escola a ver-se livre de bullies.

E, claro, a personagem principal Tony (Ricky Gervais) que faz o luto da morte da sua mulher e companheira de uma vida. Ao longo da primeira temporada acompanhamos os primeiros tempos depois da morte de Lisa, a vontade de deixar de viver, a irascibilidade dirigida a todos os que estão à sua volta.

É bem provável que apareça por baixo do episódio “linguagem obscena” e outro epítetos que alertam o telespectador para o que vai ver. Poder-se-iam adicionar gestos obscenos, divórcios, taras sexuais, bulimia, assédio sexual, a lista seria longa. Portanto, “do ponto de vista estrutural e estruturante”  (como ouvi recentemente a um comentador desportivo), esta seria uma série a evitar.

A verdade é que “After life” é uma série profundamente humana e ternurenta. Por baixo da linguagem e dos comportamentos “pouco ortodoxos” correm os personagens tateando alguma coisa que dê sentido, força, beleza e felicidade às suas vidas. De forma desajeita e tipicamente inglesa, eles lá vão tentando oferecer “a helping hand” a quem sentem que dela está precisado.

Por isso, há duas formas de olhar para a trama narrativa: se virmos por “fora”, diremos que é uma série amoral, obscena, disfuncional. Mas se conseguirmos vê-la a partir de “dentro”, temos um retrato daquilo que é a humanidade: pessoas desesperadamente procurando um sentido; pessoas que oferecem, entre encontrões e emoções contidas, uma boia de salvação.

Dando um salto fora para depois regressar: o Papa Francisco comparou a Igreja a uma hospital de campanha: no horror da guerra, ali se curam as feridas dos combatentes, algumas graves sérias e, no limite, ali se ajuda a morrer com dignidade. Porque não comparou o papa a Igreja a uma…Igreja? Penso que uma possível resposta é a de que Francisco tem a aguda perceção que, à semelhança dos personagens da série, também nós somos pessoas feridas que tateamos algum caminho, lugar ou regaço  onde o amor possa curar o nosso coração ferido. E isto é o fundamental. As “pessoas da Igreja” devem ser os médicos e enfermeiros prontos a oferecer alívio para os feridos pela existência caídos e cambaleantes.

O Papa mais não faz que aquilo que Jesus fez: encontrar as pessoas pelos caminhos e salvá-las, isto é, restituí-las à vida. Também encontrou crianças, pessoas a fazer o seu luto, prostitutas, gente de moral duvidosa, com estilos de vida capazes de arrepiar um crente piedoso. Ele não via as pessoas de “fora”, mas por “dentro”. Só ele sabia o quão extraviadas, sofredoras e sobrecarregadas estavam. E as suas palavras e os seus gestos dirigiam-se sempre para a cura da ferida aberta dos que encontrava.

Gosto do pensamento: “Ubi caritas et amor Deus ibi est”: onde há amor e caridade Deus aí está. Onde houver, nesta terra, um gesto de salvação, um gesto que restitui alguém à vida, Deus está presente e atuante. Encontrei muitos desses gestos em “After life.

Em câmara lenta

Os gestos dela são sempre rápidos. Sabe o que tem a fazer, as tarefas para o dia. O importante é chegar ao ponto em que pode dizer a si mesma que, para aquele momento tudo está feito. E essa é a sensação mais gratificante: a de, ainda que por momentos, ter a ilusão que ao realizar todas as tarefas que tem previstas para essa manhã ou tarde (não sei) uma sentimento de ordem, de domínio, de pacificação emerge no seu espírito.

Não importa se não há qualquer prazer nas tarefas que tem de realizar. Elas nada valem por si mesmas. É ao ponto final do trabalho que quer chegar. Estar nesse pequeno oásis onde, fugazmente, experimenta a chegada à terra prometida do dever cumprido e a um paraíso original.

Observo-a e observo-me. Quantos dos meus gestos são dignos? Quantos deles são pausados, solenes, conscientes, presentes? Andarei, também eu, rebolando pelos dias como um feixe de palha disperso numa tarde de vento?

Por isso me recordei de uma história sobre a artista Lourdes Castro e o seu marido. Quando viam que as solicitações e o trabalho eram avassaladores (aquela sensação angustiante de perder o pé e cair), eles criavam uma performance artificial. Começavam a caminhar pela casa lentamente, como se estivessem em câmara lenta, realizando as tarefas de forma demorada.

Esta história vem-me muitas vezes ao pensamento. E, o mais curioso, é que por vezes tento pô-la em prática. Quando entro na cozinha, a minha vontade é despachar tudo o que tenho a fazer, arrumar, cozinhar, para o mais rapidamente possível ir ao que me interessa.  O que acontece a esse momento? Ele é um interlúdio e um estorvo ao meu roteiro, como um parêntesis.

Tragicamente, o problema é que os parêntesis são demasiados e tornam tudo isto numa equação de difícil resolução. Sou um pouco como ela, sempre à procura do oitavo dia, o dia do repouso, sempre esquivo, sempre em fuga O mais engraçado, é que quando entro neste jogo de tocar nas coisas com calma e lentidão exageradas, quando estou absolutamente na lua entre os tachos, os gestos que solenemente pontifico tornam-se rituais. E estes rituais comunicam comigo.  Então, uma serenidade desce sobre mim: o caos do mundo interior trasmuda-se em reino de bem-aventurança.

Platitudes – VIII

1. Li que, na antiga tradição monástica oriental, o “noviço”, isto é aquele que estava num período de discernimento e prova relativamente à sua vocação, era chamado à presença do seu Padre Mestre (o formador), no final de cada dia.
Era o momento em que o noviço falava sobre as suas vivências interiores e exteriores, verbalizando o que sentia, dando forma e tom a todo um mundo de pensamentos, emoções, sentimentos e ações que tinham percorrido o seu dia. A esta terapêutica chamavam “tirar o veneno do pescoço da cobra”.

Penso que a necessidade permanece atual. Deveríamos, ao final de cada dia, ter um tempo e um interlocutor a quem pudéssemos confiar tudo o que fomos vivendo. Vamos sempre acumulando um peso que precisa de ser alijado. Há muitas forma: uma série, uma música, o cuidado do jardim, uma corrida. Penso, contudo, que nada bate a palavra que dizemos e que é acolhida, compreendida e guardada pela alma gémea. Quando somos compreendidos, que benção… Alguma coisa é sanada, a carga repartida, o coração recomeça a viver.

2. O Cristianismo é uma religião da paz. Acreditamos que Jesus deu a sua vida para que os inimigos se tornassem amigos; para que, de todos os povos da terra se formasse uma só família humana. Não creio que haja dúvidas em relação a isso.
A um nível mais próximo e pessoal, quando duas pessoas estão desavindas, rapidamente se diz que devem dialogar e tentar uma aproximação. Também isto é verdade. De todos os modos, a pergunta que faço é: a que preço? Onde está a linha divisória entre a procura da paz e a “paz podre”? O que separa a procura da unidade do unanimismo?

Jesus foi seguramente aquele que mais procurou a paz, quem se atreveria a negá-lo? Mas a paz e a união que ele procurou não podem ser desligadas da procura da justiça e da verdade. A sua forma de ser e de estar, levou a sua família a dizer que ele “estava fora de si”. Que deveria ele ter feito nesse momento? Deveria ter cedido, a bem da paz e da harmonia familiar e tomado uma postura mais “branda” e cordata a fim de “não levantar ondas”? Porque quis ele provocar o poder religioso do seu tempo? Não teria sido mais fácil uma postura mais dócil e “politicamente correcta”, onde pudesse ter lavrado algumas críticas mas sempre a partir de “dentro do sistema”? Porque disse ele que tinha vindo trazer a espada em vez da paz? É apenas uma metáfora?

Creio que a rapidez com que a prática cristã procura silenciar as dissensões que surgem tem de ser devidamente escrutinada. Confundimos demasiadas vezes a construção da paz com a conformidade face ao “status quo”. Se duas pessoas têm duas formas de entender um problema concreto ou a própria vida que são diferentes e irreconciliáveis, que devem fazer? Nas cartas de Paulo ou no livro dos Atos dos Apóstolos (não me lembro) vemos que Paulo e um seu colaborador (Silas?) seguem cada um para seu lado, uma vez que têm visões diferentes sobre o minstério e não chegam a um entendimento.

O esforço deve ser sempre feito no sentido da concórdia e da unidade. Contudo, essa unidade plena e total é escatológica e só se verificará no final dos tempos. A união e a paz têm de ter por base a verdade e a justiça e não a paz podre para que tudo fique na mesma.

A voz aos amigos (XXXVIII)

A figura do padre na literatura (XII)

Em 1953 surge o romance “Manhã submersa” de Vergílio Ferreira. Curioso que o romance estava a ter pouca receção até que se chega a Abril de 74 e, com ele, o fim da ditadura. Não há isso de “acasos” na história…

António dos Santos, o Borralho, foi obrigado, pela miséria e pela orfandade, a receber o apoio financeiro duma Senhora rica – numa forma manipuladora de fazer as contas com a divindade – para entrar no antigo seminário menor do Fundão – o Casarão. O texto (a tessitura) é a narração do doloroso processo de desvinculação de um futuro forçado (a ação desenrolar-se-ia pelos anos 30). A cena final representa essa libertação redentora: António torna-se inapto para o ministério sacerdotal.

De certa forma é um romance autobiográfico em que se tenta sobrepor o narrador, com o seu mundo individual (omnipresente e omnisciente), ao “Sistema Total” e autorreplicativo (Michel Foucault) que representa o Seminário e este, por sinédoque, o Estado Novo. É uma luta desigual em que parece que o sistema sempre vence.

Assim, as figuras dos padres aparecem como o descarte – vítimas e novamente protagonistas replicadores – dum sistema social altamente castrador e, no qual, quase ninguém se salva.

Um órfão, a quem lhe é proposta uma nova figura paternal (o reitor), precisa de “matar” essa figura. Curioso que, quando Lauro António nos anos 80 adaptou o romance para filme, Vergílio Ferreira interpretará a personagem do reitor do seminário, figura dominante desse universo fechado com o qual o autor parece, dessa forma, querer acertar contas.

Padres funestos, violentos e temíveis: o professor de latim “de olhares curtos como bicadas”, promotor da competição inter pares e o clima generalizado de suspeita; o professor de português de maus fígados. “Rememoro o humor frisado e agressivo do padre Lino, a vasta sombra do padre Tomás nos corredores, a feminilidade nervosa do padre Fialho, o grosso Raposo, o padre Martins de pau, o melancólico Pita, o Silveira, o Canelas, o Reitor”.

O reitor não tem nome. É intencional, porque é uma figura-tipo, imago da figura temível do pai edipiano.

Só o padre Alves se salva. Com a sua “fronte de gigante” era um “bom varão que me tratava por filho”. Mostrava-se “verdadeiro e humano” e envolvia-o uma lenda de “coragem e de glória”. Iluminava o seu rosto um “olhar silencioso e compassivo”. Lança-se a hipótese que se tratasse do padre Joaquim Alves Brás, que fora diretor espiritual e fundador da Obra de santa Zita. O reconhecimento geral das suas virtudes faz com que decorra presentemente o processo da sua beatificação.

“Manhã submersa” pode ser o resultado extremo dum sistema social fechado, autorreferencial. Um sistema só se torna saudável quando há membranas que permitem a permuta e a transferência com outros sistemas. De contrário o sistema fica doente e, com ele, as pessoas que o retroalimentam. O clericalismo precisa dum sistema maior – nacional – em que o sistema religioso copia o autoritarismo civil com quem desenvolve um sistema simbiótico. O Papa Francisco não se cansa de o combater.

Humberto Martins

Platitudes – VII

1. Os dias começam a ficar maiores e a temperatura mais amena. Depois de ter tido COVID, retomei as minhas caminhadas madrugadoras. Uma e outra vez saboreio esta hora matutina ainda que escura. No regresso do caminho olho o céu, esperando o momento em que verei a primeira luz da manhã pela primeira vez.

Desde o momento em que os dias começaram a ficar mais pequenos, a noite foi progressivamente envolvendo todo o tempo em que caminho. Entro no seio da noite e  dele saio ainda no escuro. Será uma festa a manhã em que puder vislumbrar a primeira luz ténue que anunciará a manhã.

São duros os ciclos da natureza, mas, diz quem sabe, necessários. A chegada do outono, com os dias inapelavelmente mirrados; a mudança da hora, essa machadada na luz. Depois vem o Inverno com um sol de meio dia triste e vencido.

Que venha então a primavera! As manhãs já mais luminosas, belas e perfumadas: parece que dentro de nós um força puxa para uma vida pujante e irreprimivelmente doce.

2. Ainda e sempre a “pequena plenitude”: um estado de estremecimento com os acontecimentos do quotidiano que, num repente, ganham brilho e beleza inauditos. Aparentemente, tudo segue o seu curso, mas o olhar capta o oiro do dia.

3. Os místicos alertam para a forma como a nossa mente funciona de forma dual: gosto/ não gosto, bom/ mau, digno/indigno, amigo/ inimigo. Talvez a liberdade interior aconteça quando percebemos a realidade como una.

4. Tenho medo de um dia olhar para trás e ver que não vivi “to the full”. De novo, à minha memória este verso de António Ramos Rosa: “Será que posso ser o que nuca fui/ e que pensei que nunca poderia ser?” Angustia-me descobrir um dia que vivi apenas em conformidade, timorato e cauteloso. Pode a minha vida (e, quem sabe, a tua) receber ainda um sobressalto de plenitude, de transbordamento interior, como se houvesse uma inundação de dentro para fora? O que será uma vida sobreabundante?

5. O meu pai era pessimista e saudosista. Cresci com o seu discurso negativo relativamente a Portugal e aos portugueses. Creio que não deixei de ter uma visão parecida ao longo dos tempos. Se comparo Portugal aos países de maior desenvolvimento, cultura ou talento, não posso deixar de pensar que somos apenas medianos. Poderíamos ser um grande país? Terá havido algum momento no nosso passado em que ombreámos com as grandes potências europeias? Quando foi que começámos a divergir face “à Europa”? Somos um caso perdido? Acho que somos de facto bons na mediania. Há mudanças de mentalidade, nos nossos hábitos de pensar, de agir, de trabalhar, que estão muito enraizados e são difíceis de extirpar. Como se pode operar essa mudança? Com elites que o sejam verdadeiramente e com um consenso alargado e fino relativamente ao papel e importância da educação.

É um pouco isto…

A voz aos amigos (XXXVII)

O maior presente

Existe um livro, cheio de boas notícias, que tem lá esta frase: “Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.”. (Mt 6, 33) Só poderemos algo no agora. Os nossos “poderes mágicos” só funcionam no instante presente. Até quem tenta acertar num futuro melhor, só pode prepará-lo dentro de um agora.

Um excesso de remorsos por aquilo que foi mal feito no passado e um excesso de ansiedade pelos monstros que nos podem aguardar escondidos no futuro, são as receitas infalíveis para boicotar o sabor e os efeitos do presente. Uma cura só pode ocorrer num presente, num momento. E a cura para a vida pertence àqueles que têm fé na vida.

Esta parábola oriental vai no mesmo sentido:

Um simples homem, na Índia, percorria altas montanhas por estreita vereda quando se deparou com um tigre que, esfaimado, lhe barrou o caminho. Correu sem destino, sem saber para onde o fazia, aproximando-se de precipício mortal. Sem alternativa, viu as raízes de uma videira expostas. Pendeu-se numa com a mão direita e noutra com a esquerda. Mesmo por cima de sua cabeça, sem o alcançar, o tigre impaciente movia-se em círculos. Logo em baixo, no fundo da ravina, outro tigre aguardava a queda da apetecida presa. Continuou firmemente preso às raízes. Mas para seu espanto e desvario, dois ratos, um branco e outro preto roíam com vigor, um a raiz direita e o outro a esquerda. No desespero de morte iminente os seus olhos quedaram-se num morango esplendoroso e resplandecente que pendia à sua esquerda. Amparando-se com a mão direita, colheu-o, levou-o à boca e exclamou: – Que delícia, saboroso…

Paulo Farinha