Podcast #1

“1984” – George Orwell

Hoje ouvi um episódio áudio sobre o livro de George Orwell, 1984. Este episódio pertence ao podcast In our time:” Melvyn Bragg e os convidados discutem ideias, pessoas e acontecimentos que moldaram o nosso mundo”, ali leio. É o melhor podcast que ouço
Gosto de receber informação interessante que corta os circuitos de pensamento e que aparecem ligados à “gestão do quotidiano”. George Orwell escreveu o livro como uma crítica feroz ao comunismo. Gosto de ouvir pessoas que conhecem bastante bem o assunto sobre o qual falam. Apresentam as suas ideias o tempo que consideram necessário e não se repetem. Que diferença para os debates que vemos em Portugal! Aprecio o sotaque tão distinto e claro dos participantes cujo inglês é facilmente percetível.
Orwell, durante algum tempo, quando viveu em Barcelona, ficou espantado com a experiência de fraternidade que encontrou nos seus camaradas de esquerda. Há uma forte componente de nostalgia de um paraíso e uma crença quase naïf na bondade do ser humano. Nesta luta da esquerda radical, v.g. o comunismo, vejo uma sede de comunhão e a crença num futuro e num homem novos. George Orwell rapidamente se desencantou. 1984, escrito quase no final da sua vida, é um retrato implacável do poder totalitário do regime soviético. “Big brother is watching you”.

Pedir o incêndio

“É preciso pedir o incêndio”, disse-me, com o olhar meio perdido no chão que fitava, mas com o tom de voz de quem viu coisas. Como não poucas vezes sucedia com ela, eu estava consciente que algo de grave e fundo fora lançado para fora da alma. Queria perguntar, pedir uma explicação, mas sabia que nada adiantaria. Explicar equivaleria a deixar que o cérebro se apoderasse de uma verdade fugidia e atrevida, que a domesticasse com prós e contras, que a manietasse.


Então era preciso pedir o incêndio… que vem essa palavra fazer a este dia, a esta tarde cinzenta e preguiçosa? O mundo não está sossegado, bem sei (Yeats: “While the world is full of troubles/ And anxious in its sleep”) mas lá tenho, e tantos como eu, encontrado formas – herdadas umas, cozinhadas, outras – de aniquilar esse ruído ensurdecer do clamor inaudível do sofrimento humano. “Paramentado com ideias de circunstância” (Ruy Belo) lá vou sobrevivendo no meio do caos, murado pelo pensamento, defendido infantilmente pelo pensamento, pelas razões, pela lógica. Mas, eis que que o choque de realidade sempre entra por uma qualquer fresta e rebenta com tudo, com a frágil e ilusória armadura contra os dias e a dor.


“Pedir o incêndio…” Outro poeta, Daniel Faria, pediu a propagação do amor no “coração paralítico”. Ele sabia do frio que assola os corações humanos, apesar de tanto esbracejar a caminho do bem. Sim, era preciso pedir o acendimento do grande fogo, as chamas avassaladoras que tudo consomem à sua passagem. O espetáculo tremendo e fascinante da luz, do calor, da transmissão de tudo com tudo, lavrando, destruindo e purificando à sua passagem. Sim, era urgente trazer a este dia, a mim e a esse e àquele, a cor, a energia inesgotável da beleza, a corrente assustadora da lava incandescente, tudo ardendo, tudo renovando, tudo renascendo.


Espantado, ouvi a voz do profeta no coração da cidade alheada: “Oh, se rasgasses o céu e descesses!”

Platitudes – XIII

1. A fé é da ordem do combate. Chega de antropologias semipelagianas. Chega de fazer cócegas ao cérebro. Este é o tempo de combate, noturno, permanente. Só uma coisa comoverá os nossos contemporâneos: círios acesos na noite, anjos que lutaram incansavelmente com Deus na noite.

2. Leio “Callista” do cardeal John Henry Newman. Callista é uma pagã convertida ao cristianismo, prestes a ser julgada e instada a abjurar a sua fé. Vejo aqui o exemplo mais acabado de desafio à ordem estabelecida: de um lado a fé, do outro a cidade, o Estado, os valores de uma sociedade. Que abismo e que difícil deverá ter sido para os mártires levantarem-se em nome da sua fé, tendo como inimigo todo o mundo visível. A eles, glória.

3. Em Fátima, há tempos: o andor de Nossa Senhora circulava no meio do povo. É belo pisar o mesmo chão onde um dia Maria apareceu aos pastorinhos, estar em profunda comunhão com as centenas de milhar de peregrinos de todos os lados reunidos. Eis a fé profunda de um povo, visível nos rostos, nas súplicas, nos gestos de devoção, no amor à Virgem de Fátima. Uma experiência profunda e tocante de Igreja que me é dado viver. Em vários momentos da recitação do terço e da Eucaristia, é espantoso o silêncio de milhares de pessoas tornando o santuário num espaço sem ruído.

Na recitação do terço, recitar o “Pai Nosso” e as “Ave Maria” em uníssono é experiência poderosa. Ali não há a frieza e o ritualismo vazio de muitas eucaristias, mas o calor apaixonado, a súplica veemente e lancinante de tantas histórias de dor e sofrimento, pedindo a intercessão da Virgem.

Este povo de Deus reunido é uma porção do grande povo de Deus que caminha na terra e uma expressão daquele povo que se encontra já no céu e que connosco caminha pelas estradas do mundo.

Que falta fazem esta experiências de comunhão e fraternidade: muitos cristãos acabam por viver uma fé mais ou menos pessoal e solitária. Precisamos todos de momentos destes, ver, ouvir tocar a presença do divino que se torna tão palpável.

Trespassada pela espada

Memória de Nossa Senhora das Dores. Retenho a palavra de Simeão a Maria: “uma espada trespassará a tua alma”. Esta festa antigamente chamava-se as sete dores de Nossa Senhora. A figura venerada e tão querida aos cristãos teve uma vida em que a dor imperou, do princípio ao fim. Nada de glittering, de glamour, o culto da aparência, preparada para arrasar. As sete dores acompanham-na desde a profecia de Simeão até ao sepultamento de Jesus. Que mistério: o caminho das personagens “grandes” da Sagrada Escritura e da história da Igreja são pessoas que morderam o sofrimento, com ele viveram, por ele foram acompanhadas durante grande parte da sua vida. Um sofrimento duro, avassalador, humanamente insuportável, socialmente insustentável. Ainda por cima, abraçado voluntariamente quando não alegremente. É absurdo de mais para o pobre homem do século XXI, o homem do pão sem côdea, do café “sem princípio”, mendigando esta aprovação, aquele louvor Por onde andamos nós, os cristãos, os “burgueses espirituais” que não aprendemos nem queremos reconhecer que o Mestre trouxe a espada para o combate?

Não chores

Jesus diz à viúva que acaba de perder o filho: “Não chores”.
De que lugar vem esta injunção? A que profundidade ou de que aproximação ao amor é que esta ordem é dada? A partir de que lugar Jesus o faz? Será um voto piedoso, como quando o dizemos sem convicção? Será apenas para que o outro cale a dor que interfere com a previsibilidade dos meus dias, como se verdadeiramente quisesse dizer: “a tua dor invade a segurança dos meus dias, não a quero.”
“Não chores”, diz ele. Não chores porque sei a partir de que lugar és amada. Garanto-te que há um vento que sopra do alto, capaz de dar vida aos mortos, de ressuscitar todos os sepultos que sobem e descem apressados as avenidas. Tenho para ti a palavra definitiva, essa que enxuga todas as lágrimas.

Do Senhor é a terra e o que nela existe

Que coisa diz esta frase? Melhor, o que diz esta frase-bomba?
A Terra é o nosso mundo, todo ele é do Senhor, do Deus vivo. Mas… o que significa dizer que a terra é do Senhor? Significa que lhe pertence, que é sua propriedade? Significa dizer que ele, Deus, é o autor, aquele que o criou?
Quando saio do lugar onde estou neste momento e passo para o espaço exterior, que mudará ou deveria mudar nesse meu estar-no-mundo? Serei eu um exilado desta verdade que Deus habita a realidade mais ínfima? Da mesma forma que me sinto seguro quando rodo a chave na porta e entro em casa, será que me sinto seguro, deslumbrado, estarrecido porque reconheço a mão invisível na beleza avassaladora da criação? Não falo de “ter a noção” que o mundo foi criado por Deus, mas de entrar nessa dimensão nova, ainda que não me afaste dos lugares que habito quotidianamente.
Tudo o que existe na terra é pertença do Senhor e eu sou o exilado, esse que na sua pobre racionalidade, não consegue por si mesmo o dom da presença-em-movimento para-mim-que é o próprio Deus.

A locomotiva vertical

O que faz esta palavra divina na manhã deste dia? Há um lógica própria, existem leis já estabelecidas que ditam o que esperar e qual a mundivisão oferecida a cada dia, a cada estação do ano, a cada tempo da vida. Todas elas obedecem ao acumulado de sabedoria que herdámos desde tempos imemoriais. Essa sabedoria humana, comunitária, prepotente dita o que pensar, o que fazer, o que esperar.
Por isso, este é o tempo de férias e de descanso. Estou um pouco mais afastado do mundo do trabalho e de todos os desafios, preocupações e esperanças que traz consigo. Diz a sabedoria humana que este tempo é de descanso e despreocupação. E assim, se houver algum acontecimento que venha perturbar esta sabedoria humana, reajo de forma aborrecida: “este tipo não sabe que estou em férias?” ou então “logo agora que estou em férias é que tinha de me rebentar o cilindro!”.
A palavra de Deus é o disruptor por excelência. Cuidado com ela! Queima. Leva-nos a entrar numa outra e nova dimensão da realidade que tem o potencial de abalar todos e cada um dos fundamentos da nossa pacata e previsível existência. Sem ela, impera com à vontade a sabedoria do mundo, a sabedoria humana.
Aos profetas, o autor bíblico relata: “A palavra de Deus veio sobre…” – como se ela descesse de forma abrupta e imprevisível caindo em cima do pobre profeta que apenas queria plantar sicómoros.
Na música “Screen” da banda 21 Pilots está uma metáfora tremenda relativa à descida do divino sobre humano: “locomotiva vertical”: aqui se conjugam a velocidade, a inevitabilidade, a urgência e a incapacidade de se lhe resistir.
Sempre que abro a Sagrada Escritura, desde que não seja para confirmar o meu aburguesamento espiritual, essa locomotiva vertical despenha-se sobre a minha vida. Traz fogo, a fúria dos elementos, um tremor de terra, colírio para os olhos, afago para o coração. Assim, se deixo que essa palavra circule em mim como o sangue, abro a porta do armário das crónicas de Nárnia e acedo uma realidade nova e inaudita. Quando regresso já não sou o mesmo: os olhos maravilhados pelo ali visto, o coração regenerado. Um pouco como os magos que, depois de abalados pelo menino na manjedoura, regressam a casa por outro caminho.
Quando os seguidores de Jesus, chamado o Cristo, não abrem sequer essa Palavra flamejante, quando preferem os pensamentos-pensados da sabedoria do mundo, tudo está ainda por acontecer. Posso a locomotiva vertical da palavra flamejante quebrar a muralha impenetrável da boa consciência.

Hei-de falar-lhe ao coração

“Tocam, quando passa, contraditórios clarins

Nenhum o levará à cidade que procura.”

Ruy Belo

Hei-de atrair ao meu amor a casa de Israel”, diz o amante. Atrair… criar artes, manhas, sinais, para que o passante distraído, cabeça baixa, polegar em movimento, atente que está a ser chamado. Não apenas chamado, mas, como um íman, puxado para alguém. Atraído para o amor, afinal a única realidade que presta. E o nosso distraído, solicitado por tantas vozes, aliciado com tantas promessas, venerado lamentavelmente como um pequeno e caprichoso rei, regressa a casa com um amargo na boca. O amante lá vai acenando, discreto e silencioso, apontando à ovelha o pasto verde, o sossego, o regaço de um colo.

O amante levanta os olhos e vê a multidão inquieta: só ele sabe os abismos secretos do coração dos passantes, a dor escondida, a espera adiada, a desilusão. Ele tão só quer falar ao coração, soprar a palavra do alento e da misericórdia.

Oseias 2,16.17b-18.21-22.

“O Anjo que em meu redor passa e me espia”

Bendito seja o Senhor, que enviou o seu anjo e libertou os seus servos, que n’Ele confiaram.

Dn 3, 9

Quem fala nesta perícope? É o profeta Daniel. Qual foi o anjo que Deus enviou? De onde e para onde o enviou? Não temos o seu nome. Deus envia um anjo como proteção para um grupo de pessoas. Essas pessoas são os servos de Deus. A razão pela qual o anjo foi enviado foi a de dar a liberdade aos servos, a esse grupo de pessoas. Se são servos de Deus, têm com ele uma relação, alguma espécie de vínculo. Deus envia um anjo libertador porque sabe que os seus servos estão de alguma forma presos. O Senhor dá, através do anjo, a liberdade. O povo confiou em Deus.

Que faz esta palavra, nesta sexta-feira dia dez de junho, dia do anjo da guarda? Aliás, o que faz a Palavra que Deus envia cada dia, repito, que faz essa palavra no meu dia? Eu também tenho palavras e sou habitado pelas palavras convencionadas e razoáveis e previsíveis e repetitivas que a minha mente, os grupos, a sociedade, ministram. Esse conjunto de palavras forma uma nebulosa, diria, forma um ecossistema, a medida, o tom e a métrica à minha forma de ver o mundo e nele habitar. É com essas palavras que vivemos, entendemos o mundo, estamos em sociedade.

E, de repente, a cada dia caem palavras incandescentes, provocatórias, revolucionárias, indigestíveis. Palavras que abalam os fundamentos da minha forma de entender o mundo, da forma como o coletivo de cidadãos organiza a sua escala de valores. Ah, que aborrecimento… que estão essas palavras descidas do céu a fazer? Elas interferem com os meus planos, com a lógica estabelecida. Elas são fogo, são o vendaval que tudo varre, tudo põe a nu…

Olho para essas palavras neste dia dez de junho: fala da libertação do povo, mas já somos todos livres! Diz que Deus manda um anjo à minha frente (mas quem?)  e que tem um lugar preparado para mim (mas qual?). Diz que tenho de ouvir a voz desse mensageiro (mas onde está?) e que esse mesmo mensageiro segue à minha frente…

Que fazem essas palavras, essas injunções, neste dia pachorrento em que descansei, li, vi uma série, andei despreocupado pela casa?

Que inoportunas são essas palavras vindas-de-cima!

O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.

Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.

E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.

Sophia de Mello Breyner

Platitudes – XII

  1. Há uma surdez “ontológica” e absoluta que nenhum esforço pode curar. A árvore está demasiadamente inquinada para medrar. A cura vem sempre do alto. Surdez e cegueira, duas incapacidades viscerais. Os pensamentos confinam e apoucam. Oh, a vida morna, a arrogância de pensar que vejo e ouço, a impenitência e a ilusão de ser de tudo o centro. “Ando errante, como ovelha desgarrada”, diz o salmo. Eis a condição do homem.
  2. A impotência diante da omnipotência dos ditames do ego. Uma inflamação grave, permanente, totalitária e, ainda assim, suficientemente astuta para fazer crer que de nada padeço: um pequenito inferno ambulante, os meus dias.
  3. Sei que sou empurrado a pouco e pouco para fora da cidade, da praça, das vozes, das verdades do tempo.
  4. É quase certo que magoei pessoas ao longo do caminho, uma ou outra por tê-las simplesmente abandonado. Talvez a vida seja feita bem mais de encontrões que de encontros. Somos uns desajeitados e toscos na arte de comunicar o amor e o afeto. Quem sabe apenas os anjos tenham essa transparência. Há demasiada entropia entre o coração e o mundo fora. O ser humano tem um coração complexo, profundo, quase totalmente inacessível a si mesmo. Dele brotam os comportamentos mais inesperados, por ele tomamos decisões estranhas, por ele terminam amizades sólidas. Talvez a parcimónia e uma extrema prudência deveriam reger as relações entre as pessoas, como um pórtico para todas as relações.
  5. Olharei um dia para trás e lamentarei não ter vivido? Eis a pergunta que escalda.
  6. Há uma doença coletiva, a inflamação do ego. E ninguém tem a cura.
  7. Lido algures: “ancora o teu barquito no navio dos teus pais”.
  8. O mundo odeia pessoas felizes e livres.
  9. Os outros estão ainda tremendamente dentro de mim. Habitam os meus pensamentos e motivações mais secretas.
  10. Séneca insiste muito no trabalho interior: trabalhar sobre nós mesmos a fim de nos tornarmos pessoas melhores. Talvez haja pessoas que nem sequer têm consciência de que podem e deem trabalhar sobre si mesmas. Séneca é muito arguto em relação aos movimentos mais subtis da nossa alma. Percebo que a filosofia estóica tenha influenciado o cristianismo.
  11. Estamos sempre aquém do dia que vivemos.
  12. Às vezes assusto-me com a perspetiva de que a imprevisibilidade, o caos, a surpresa, se abatam inesperadamente sobre mim. Afinal de contas nada me protege da realidade. Nada, a não ser efabulações mentais.
  13. Num livro, leio que tal personagem é de “envergadura” – que que significa essa palavra? Talvez  alguém que deixa nos outros uma marca, uma impressão. Distinguir-se-á pela sua presença, quem sabe pela sua calma, maneiras, pela resistência em condescender com a vulgaridade, pela fidelidade a códigos de pensamento e de procedimento. Essas escasseiam e abundam pessoas vulgares e superficiais, estas bem alienadas da sua própria casa.