Sempre alerta!

“Sempre alerta! é um lema dos escuteiros: o escuteiro deve estar sempre atento ao que se passa à sua volta. Estar atento, não para saber mais sobre a realidade ou para a criticar ou por medo de que alguma coisa de mal possa advir. A atenção e o estado de alerta têm como foco o serviço: quem precisa da minha ajuda?
Considero a escola escutista uma escola de valores. Na verdade nunca fui escuteiro, mas esta ideia de educar e formar o caráter pela palavra, pela ação, pela capacidade de servir, de assumir riscos, de se libertar das comodidades do dia a dia – tudo isso ajudará uma criança ou um jovem a crescer de forma mais completa, sadia e generosa. Nestes tempos onde os exemplos de altruísmo e amor estão, não ausentes, mas ocultos, em que o culto do individualismo e do egoísmo campeiam, é bom saber que grupos de rapazes e raparigas vivem de forma alegre, sadia, centrados no outro.
Quando a expressão “sempre alerta” veio ao meu espírito, estava, na realidade, a pensar noutra coisa, sobre a qual também já escrevi aqui, e que é uma das ideias que ocupa o meu espírito com alguma frequência. Nos evangelhos, Jesus, diz aos discípulos para estarem atentos, alertas, vigilantes. É possível que façamos com esta injunção, o que fazemos com tantas outras: “É letra!” (aqui no norte de Portugal usamos esta expressão para dizer que é mentira, que não acreditamos).
Que quererá dizer o Mestre com esta ordem para permanecer vigilante? Pelo contrário, que significa não estar vigilante? Uma interpretação possível pode dizer respeito ao dia da nossa morte: está atento porque a vida é frágil, não vivendo tu como se fosses eterno. Viver com esta realidade não seria já coisa pouca; o quanto mudaria o nosso dia a dia, adiado e monótono, se ussa urgência tomasse conta dos nossos ossos?
Pessoalmente, penso que essa vigilância se aplica também à tomada de consciência das surpresas da vida: não apenas as grandes, mas as mais pequenas e triviais. Posso viver com a ilusão (ainda que inconsciente) de que controlo as variáveis da minha vida e isso dá-me segurança. No entanto, que sei eu do que me espera ao dobrar da esquina, quando toca a campainha ou o telefone?
E, questão decisiva, onde estou eu, onde está o centro gravitacional da minha vida, quando for visitado pelo inesperado? É que nos temos um centro e uma periferia. E, se vivemos descentrados, periféricos, onde estaremos quando a surpresa aparecer? Aí estarei desprevenido, desatento. Direi: por que raio vem esta contrariedade alterar o curso que eu quero que a minha vida forçosamente tenha?
Há muitos anos li um poema de uma autora francesa, Madeleine Delbrêl, que se chamava o “Baile da obediência”. Achei piada a esta expressão: dançar conforme a música, diria, parafraseando a autora. Eis uma bela metáfora para a forma como podemos estar na vida. Aceitar as surpresas e mudanças, pequenas ou grandes, com bom humor, com graciosidade, com elegância, como quem espera um amigo anunciado.
Enquanto dançamos, mantemos os olhos bem abertos e atentos à nossa volta, não vá subitamente faltar a luz.

Concede-nos viver a nossa vida,
não como um jogo de xadrez, onde tudo é calculado,
não como uma competição onde tudo é difícil,
não como um teorema que nos quebra a cabeça,
mas como uma festa sem fim onde nosso encontro se renova,
como um baile,
uma dança,
entre os braços da tua graça,
na música universal do teu amor.
Senhor, vem convidar-nos para a dança.

Madeleine Delbrêl

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