Violência e conversão

Somos seres violentos. Vivemos vidas civilizadas, cordiais, educadas, mas esse é um equilíbrio precário. Se a nossa segurança e paz são ameaçadas, as forças violentas, até então, aprisionadas, soltam-se com fúria. Lembro-me do Livro de Jó, do Antigo Testamento. Jó era o exemplo daquilo que a Bíblia chama um “homem justo”. O diabo provoca Deus: “deixa-me introduzir a desordem na vida desse homem e verás como o teu orgulho nele se esfumará”.

Que fazemos a essa violência? Guardamo-la, bem fechada, no Piso -1, isto é algures nas nossas profundezas. Assim, não deixamos de ser seres reprimidos. Donde vem esta violência? É inata à nossa condição humana? Formou-se a partir das experiências de dor e sofrimento que, inevitavelmente, viver sobre esta terra traz consigo? São traços da nossa condição simplesmente animal?

Não sei, mas sei que somos habitados pela violência. O que são algumas regras de educação ou o “protocolo”? Formas de garantir estabilidade, harmonia e previsibilidade nas nossas interações sociais. Deixemos a besta adormecida e guardada. Mas o pai ou a mãe, desesperados com o filho bebé que teima em não dormir e grita, sabem bem que, lá do fundo, sobe a violência incontrolável. É, para mim, um milagre que na nossa vida em sociedade, não irrompa mais frequentemente essa pulsão destruidora. Deixo ao paciente leitor a tarefa de cogitar quais serão os mecanismos que temos em comum para garantir o leão preso na jaula.

Que podemos fazer? Poderemos mudar a nossa natureza a golpes de vontade? Talvez obtenhamos, pela sabedoria e pela prática da meditação e da compaixão, uma lucidez que desmascare essa força cega que nos habita. (Será isso que propõe a tradição budista?)

No caso do cristianismo, usamos uma palavra caricaturada, extenuada e exangue: conversão.

A caricatura dessa palavra, vemo-la em muitos cristãos que padecem de um otimismo infantil e superficial relativamente à natureza humana. Encaram a conversão com a mesma ligeireza com que um agricultor arranca uma ou outra folha morta da sua árvore, ignorando a doença que ataca raízes e seiva.

Mas o cristão lúcido sabe, conhece e sofre a disfunção da sua natureza humana. Ele aceita o convite para que um outro agricultor desça às raízes da sua árvore doente, como o médico que visita o paciente e aplica o remédio.

Só aí, a violência, a agressividade, a pulsão assassina, serão lentamente, não mutiladas ou reprimidas, mas transfiguradas. E nós sabemos (oxalá!), o que é um ser humano pacificado até aos mais profundo do seu ser. É o homem da bondade inesgotável e da luz.

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