A aurora de róseos dedos

Corro o risco de ser injusto. Ainda assim, vou dizê-lo: o Dia verdadeiro, único e pleno é curto. A noite fecha tudo sob o véu da negritude. O dia desventra o mistério e torna tudo claro, patente. Atravessar o dia é atravessar um longo deserto, caravanas inumeráveis, ruidosas, que se entrecruzam, chocam e afastam. Não há mistério durante o dia, não há formas durante a noite.
Por isso saí de casa bem cedo, ainda estava escuro. Um silêncio, vasto como a abóbada do céu, estendia o seu manto sobre todas as coisas. Como sempre, os pássaros antecipavam a madrugada gloriosa, cantando como loucos, desdenhando dos cuidados e do estado de alienação em que mergulhara.
Lá ia eu, passo a passo, rasgando a noite. Olhava para trás e para a minha direita, perscrutando o negro do céu, enquanto esperava a primeira notícia. Diante de mim a noite negra teimava, mas nas minhas costas lá vinha timidamente ganhando o seu espaço, como uma criança na feira passando entre as pernas dos adultos para poder ver. Lembrei-me uma e outra vez da bonita expressão que lera na Odisseia: “Quando surgiu a que cedo desponta, a Aurora de róseos dedos”. E aí estava o momento mágico: a passagem do testemunho da noite para o dia. Num céu imaculadamente limpo, estudei esse momento tão especial em que o céu vai ganhando cores e tons diferentes, suaves, meigos, doces, amigos. Era esse o momento do espanto, o momento da existência, simultaneamente misterioso, virgem, ancestral.
Daí em diante, depois do mistério ser dessacralizado e atirado para um canto, atravesso o longo deserto da jornada, onde o sol cai a pique, a luz tudo revela e nada esconde. Eis o barulho, a agitação, a vida fora do lugar, o aviltamento do segredo. Então, ao entardecer, a minha alma voa de novo, desejando esse interstício, essa fresta, essa irrupção da eternidade esgueirada entre a noite e o dia.
Mas não estou só. Comigo vão todos aqueles que nos prendemos com os fios invisíveis da mais simples humanidade: pronuncio os seus nomes, deposito-os no Nome sobre todos os nomes. Lanço uma prece, pedindo a bênção para o coração extenuado. Saio do bosque encantado como Adão e Eva expulsos do paraíso, cegos diante da violência.

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