IV

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Excesso de realidade

Será hoje o mundo mais violento do que foi no passado? Haverá hoje mais pobreza ou mais sofrimento do que no passado? Eu não estou certo de que assim seja e não estou certo que assim não seja. Existe hoje muita informação disponível que quantifica o nosso progresso como humanidade. Sei que a informação é controvertida e polémica e pode ser mal usada e interpretada. Dizem que nunca vivemos tão bem como hoje.
Se assim é, por que razão tenho uma perceção tão vívida do sofrimento e da presença do mal no mundo, de tal forma que aprece ser a única realidade? Chamo a isso um “excesso de realidade”. Hoje não existe qualquer espécie de mediação entre o espaço, o tempo e a “quantidade” de informação sobre o que se passa no mundo e a existência pessoal de cada pessoa. Podemos estar tranquilamente a ver um meme ou um vídeo e, de repente, ao fazer scroll, aparece um vídeo sobre uma tragédia de uma criança.
A nossa postura de compromisso e vigilância com o que se passa no mundo não pode significar estar em permanência exposto a tudo. Deve ser filtrada e mediada. Não é saudável nem mesmo justo que sejamos expostos a essa torrente, a qual tem subjacente, infelizmente, um negócio. Desta forma, fecham-se as portas a toda a beleza e heroísmo dos quais estão cheios os dias de tantas pessoas. Como em relação a tudo o que nos chega pelos sentidos, moderação e justa medida são princípios universais. Esse “excesso de realidade” pode ter o efeito perverso de provocar em nós medo, ansiedade e, no limite, uma paralisia na nossa ação.
Vejo isso acontecer na chamada “ansiedade climática” que invade muitos jovens. Precisamos lutar, mas com um coração forte e reconciliado. O sofrimento e o mal devem ser percebidos e combatidos mas não podemos deixar que nos façam submergir e paralisar.

A voz aos amigos (XXXV)

O padre na literatura (X)

Carlo Coccioli: “Tra cielo e terra”


Pecado original, redenção, santidade, demónio. Quem se atreveria hoje a escrever um romance sobre estes temas? Tentou-o Carlo Coccioli neste romance de 1950 ousando falar de temas intemporais, e que todas as épocas e lugares enchem-lhe de carne. Aqui não existe somente um padre com “odor” de santidade, enviado para ser pároco numa pequena aldeia montanhosa (Chiarotorre) para que entendesse que, para carregar a cruz, não seria necessário ir até aos confins da terra. Ele trata da vida de todos nós, com as suas lacerações abertas.
Don Ardito é um padre atormentado ao tentar encontrar o caminho para servir a Deus – o céu – progressivamente consciente que terá de percorrê-lo sobre uma terra povoada de indivíduos e leis bem terrenas, numa terra “sem” Deus.
Até que ponto uma pessoa é dona de si ou é de uma outra, inominável? Que direito tem Deus de intervir na existência do homem, se o drama dum sofrimento desconhecido persiste? O mal é apenas maldade humana ou é também domínio de Satanás? Que resposta damos perante a nossa própria insuficiência? É por esta razão que toda a humanidade entra no fio narrativo deste autor: nobres e camponeses, sacerdotes e combatentes (estamos entre 1927 e 1943), pecadores e videntes. Todos eles indissociavelmente ligados a Don Ardito Piccardi, com quem entraram em contacto: o marxista que entra na Trapa, o homossexual atormentado com a sua história, etc.
Don Ardito é como Carlo Coccioli. Na sua escrita febril, com os seus temas exagerados, sem comparação possível a Mauriac ou Bernanos, a verdade é que Coccioli era – e é – apenas ele mesmo, ao “queimar-se” na busca de um sentido para o humano. Don Ardito, pastor de almas, arauto contra Satanás; também ele se deixa possuir quando cede à lógica dos salões à la page (sic!); mas salvo pelo desejo de regressar ao reconhecimento de Deus em cada pessoa, da única forma possível: por amor e sem renunciar a nada do que está no ser humano até o trazer à luz. Começa Don Ardito por recusar em se adaptar a uma via humana e terrena e vemo-lo a amadurecer diante dos nossos olhos, ao renunciar lentamente a esse princípio (e é isso que o torna grande: a renúncia até da sua “riqueza” para nos enriquecer com a sua “pobreza”).
Assim toma consciência de não poder agir pelo Outro, de não poder ser a mão de Deus na terra, entre os homens, sem fazer parte da humanidade, sem estar entre os homens: “se esses – os homens – se movem, algo em mim se move. Talvez o mesmo acontece com eles se eu me movo. Estamos aqui edificados uns para os outros, uma irreparável relação”.
Enfim, o nosso padre chegará àquele que parece ser o caminho mais terreno e divino, ao mesmo tempo e, nas suas derradeiras horas, dirá: “Muitas, muitas coisas me escapam. Por outro lado, não procuro atingi-las.” “Posso perguntar porquê?” “Não sei se te é mais fácil dar-te conta até que ponto é inútil compreender. Compreender no sentido de conhecer…” “E então o que é que é realmente útil?” “Descobri que é útil amar. Mas foi-me pedido tanto até chegar a esta descoberta.”
Arderá nas tuas mãos como fogo este romance e o confronto com um homem que tantos, pelo mundo fora, acreditaram existir numa aldeia perdida nas montanhas a quem escreveram cartas porque lhes tinha lido o coração como um livro aberto!

O livro está traduzido em português: Carlo Coccioli, O céu e a terra (Editora Ulisseia, 1973)

III

Uma série e um filme. A série (1.º episódio): “A very british scandal” retrata as aventuras e desventuras da Duquesa de Argyll e apresenta-a como uma mulher maldosa, vingativa, insaciável nos seus apetites. O filme: “Jane Eyre” segue a vida dura de uma precetora, Jane, desde o quase abandono familiar ao seu envolvimento com um rico proprietário.

Ambos os programas me entretiveram. Continuarei a ver a série. Ao meu espírito, contudo, veio o pensamento sobre estas duas mulheres. Uma, ardilosa, “social climber”, implacável. A outra, lutadora, “com espinha”, que não vergou diante das dificuldades da vida, antes se erigiu a partir delas.

Fazem-me falta mais séries ou filmes (que os há, sei-o) que, sem serem “cheesy”, nos mostrem personagens especiais, raras, lutadoras, com carácter e me ajudem a viver com um pouco mais de beleza e força. A vida já não é fácil. A arte deve ter como função elevar o espírito, dar-nos luz, força e orientação para o caminho. Tenho pena que uma porção apreciável daquilo que é oferecido não cumpra esse desiderato.

II

Ao acabar o livro sobre o eremitismo, tornei-me amigo de vários deles, particularmente dos eremitas japoneses que, ao longo dos séculos, povoaram montanhas e planícies, mergulhados na natureza. Ao ler o relato de um deles, consigo vê-lo na sua pequena cabana com a janela aberta para a beleza luxuriante de árvores e plantas. Tem os olhos fechados, nessa tarde em que nada nem ninguém está próximo. Numa calma e paz de outro mundo, de que ao menos uma vez na vida nos abeirámos, o eremita ouve a chuva tombar. Não há pressa; o seu pensamento é calmo como um lago. Totalmente serenado vive plenamente.

Nesta noite em que escrevo estas linhas, sei que espalhados pelo mundo, aí estão eles, as sentinelas do mundo a vir, os que vigiam sobre o seu coração e o coração do universo. Sei, também, que quando os dias pesarem ou o lixo, que volta sempre como a maré cheia, tomar conta do meu coração, posso simplesmente fechar os olhos, sentar-me no chão, junto de Ryokan ou Basho e, com eles ouvir a chuva batendo as folhas, limpando, lavando, abrindo a porta para a plenitude.

I

Agora que o ano está a terminar, atravessa o meu espírito, ainda que distante, o sofrimento do mundo. Não falo do mais visível ou mediático. Falo da solidão: de querer ter amigos, estar na flor da vida e não haver ninguém. Estar simplesmente sozinho. Falo de quem cuida de uma pessoa de família, anos a fio, esses seres maiores do que o que de mais nobre existe na terra. Falo de quem vê uma, duas, três pessoas da sua própria família a definharem para a doença incurável. Falo destoutra que me dizia sofrer desde os seus dezoito anos.

Enquanto isso, a minha casa está quente. Nada me falta: afeto, amor, serenidade, beleza, alimento, calor. Não me sinto culpado e, sim, sou abençoado. Apenas não consigo viver “como se…” a dor do mundo não existisse. Não quero que me baste o “eu e a minha circunstância”. Trago, de novo, à minha memória, quem dera ao coração, o grito de santa teresa de ávila: “Não durmais porque não há paz sobre a terra.”

Talvez seja esse o meu voto para dois mi e vinte e dois: viver de olhos bem abertos, aliviar esta e aquela dor, alargar sempre mais a fronteira do coração, alargar a roda. Talvez seja exatamente esse o melhor programa para dois mil e vinte e dois: alargar a roda. De olhos abertos e mãos generosas.

Eremitas de todo o mundo, uni-vos!

Um disco da minha juventude: “Poetas Andaluces de ahora” do grupo aguaviva: uma mistura de música, poesia e discurso em primeira voz de alguns poetas da Andaluzia. Um deles dizia de si mesmo que era algo “entre gitano y conventual”. Sempre gostei desta frase e adotei-a esparsamente como um dos lemas sobre mim próprio. Gosto de brincar, de dar boas gargalhadas, de ser ligeiramente pouco apropriado para a minha idade. Mas também gosto e preciso muito de “recuar”, de estar no meu próprio espaço e mundo para ler, escrever, meditar, escutar música. A vida monástica sempre me entusiasmou, não tanto na inevitável dureza que uma tal opção exige, mas na imagem idealizada que prefiro ter quando entro num mosteiro ou vejo documentários sobre a esse tema.

Por essa razão, estou a gostar especialmente do livro: “The book of Hermits: a history of hermits from antiquity to the present” cujo autor é Robert Rodriguez. Nunca vi um livro tão profundo e abrangente sobre a figura do eremita. São mais de cinquenta página de bibliografia! O livro está dividido nas seguintes partes: 1 – O Mundo ocidental: Antiguidade e Idade Média; 2 – O Mundo Oriental: da Antiguidade ao presente; 3 – O Mundo Ocidental Moderno: do Renascimento ao Romantismo; 4 – O Mundo Moderno Ocidental: o século XIX. Como se pode intuir, este é um empreendimento gigantesco e muito bem documentado.

Um aspeto muito interessante do livro é que o autor alarga o conceito de Eremita a todos aqueles que no passado procuraram, de alguma forma, isolar-se por razões muito diferentes da vida em sociedade em ordem a prosseguirem uma caminhada solitária e criativa. Aqui entram escritores e poetas, filósofos, pensadores… É engraçado ler sobe autores que conhecia, melhor ou pior, e que aqui são apresentados especificamente na forma como lidaram com a proximidade ou distância relativamente à sociedade.

Assim sendo, que nenhum eremita contemporâneo se sinta uma “ave rara” por se achar distante ou com reservas na sua relação com a “sociedade” ou a “multidão”. Sinta-se, antes, parte do longo cortejo daqueles e aquelas que, ainda que não eremitas por opção existencial, o são na sua alma.

Cinco pensamentos

I
A locomotiva vertical, encontrei-a na música da banda 21 Pilots chamada “Screen”. A um dado passo o autor fala desta locomotiva que desce do céu: uma metáfora poderosa para falar do movimento de aproximação do céu à terra. A locomotiva evoca rapidez, urgência, é quase imbatível nos obstáculos que encontra na sua passagem. Deve ser com essa força, essa urgência, quase essa prepotência que o céu se quer aproximar da terra e o faz inacreditavelmente com Jesus. Que se renovem as metáforas e a linguagem com que queremos falar e aproximarmo-nos do divino.


I can’t see past my own nose, I’m seeing everything in slo-mo
Look out below crashing down to the ground just like a vertical locomotive
That’s a train, am I painting the picture that’s in my brain?
A train from the sky, locomotive, my motives are insane
My flow’s not great, okay, I conversate with people
Who know if I flow on a song I’ll get no radio play
While you’re doing fine, there’s some people and I
Who have a really tough time getting through this life
So excuse us while we sing to the sky

II
Refletia sobre onde tinha ou estava a encontrar beleza. Recordei o vento nas árvores de manhã quando tinha ido caminhar; A luz desmaiada do inverno que entrou na sala, o céu estrelado antes da primeira luz, um ninho bem perto da janela, um presente inesperado. E esta música que agora escuto.
Tudo coisas belas que falam e pedem resposta.

III
Um amigo do coração trouxe a notícia de uma rapariga que está com leucemia, sem esperança de viver muito mais. Tem dezasseis anos. Ouço a notícia e trago-a para dentro. É o momento de tomar uma decisão: deixo que esta notícia me desloque ou, simplesmente, arrumo-a nalgum canto piedoso e prossigo viagem, relativamente incólume?
É sempre este o dilema: há notícias de sofrimento que desfazem as frágeis categorias com que vou murando a minha existência. O que é que este caso trágico de uma rapariga que já deixou os tratamentos, por inúteis, e que vem agora passar o Natal com os seus pais, o que é isto me está a dizer? Ou, de outra forma o que é que Deus, o Cristo, a vida, o que quer que seja que tenha uma linguagem, me estão a dizer? Num verso do antigo testamento o autor diz: “como tecelão, eu tecia a minha vida, mas cortaram-me a trama”. Há factos que provocam um abalo nos fundamentos. Não sei se um abalo, se mesmo a sua destruição. Nesses momentos, por quem passa por eles, deixa-se simplesmente de viver a vida de acordo com a “pauta” que grupos e sociedades partilham, mas entra-se na grande noite onde não há ombro ou mão amiga que aliviem o sofrimento em permanente carne viva . Aí se dissolvem como um nada todos os planos, escalas de valores, certezas ou evidências.
IV
O ministério dos pequenos gestos: dispor das mãos, do coração, da vontade para dar de comer e de beber à alma deste e daquele – afinal a forma invisível e tão antiga pela qual o mundo está em permanência a ser salvo e recriado. Que venha essa insurreição.
V
Disseram-mo um dia e gravei-o: “Há linhas paralelas que nem no infinito se cruzam. Que o teu olhar voe sempre mais altos que as águas turvas do quotidiano.

A voz aos amigos (XXXIV)

Sou crescidinho o suficiente para já saber como por vezes a vida me impõe o que, se eu controlasse tudo, jamais faria. Na verdade, à medida que vou avançando no tempo, vão sendo cada vez menos as imposições ligadas àquilo que eu entendo que sou e mais ligadas àquilo que eu faço. São escolhas, claro, mas que de uma forma geral não me alteram nem a personalidade que é a minha nem os valores que me orientam. Mas, mesmo isso, nem sempre é assim tão líquido.
Eu cresci num meio social em que é maior motivo de vergonha pedir que roubar. Vou repetir: quando era muito miúdo, roubar era quase natural e pedir era sempre humilhante. Mesmo na eventualidade de se ser apanhado a roubar – o que não era muito frequente, pelo menos na altura – a justificação que era encontrada era, naquela envolvente, mais bem aceite pelos pares que a humilhação de ter que pedir. Afinal, só se roubava porque não se tinha o que a outros sobrava, pelo que seríamos uma espécie de Zé do Telhado em proveito próprio. E quem tinha, se não cuidava do que tinha, era porque não lhe fazia falta ou não lhe era suficientemente importante para justificar o seu bom cuidado. O meu percurso de vida fez-me reencontrar esta lógica da batata recentemente, junto de alguns dos miúdos com quem passo grande parte dos meus dias. E desmontar isto, mesmo para mim, que o entendo, não é fácil. Sobretudo se aliado a uma outra realidade, que até é incutida pelos pais: “Tu não pedes ajuda, tu desenrascas-te. E se eu venho a saber, seja por quem for, ainda ficas de castigo” (leia-se isto devidamente acompanhado de impropérios típicos do Norte: para cada palavra, dois impropérios). Para o bem e para o mal, esta arte do desenrascanço, a sós, no silêncio da culpa, marca-nos indelevelmente o corpo e a alma. A mim marcou.
Naturalmente, fui crescendo e a sorte da escolha mútua de boas companhias foram-me limando estas e outras arestas que me permitiram ir adotando um outro código de valores mais consentâneos, não com o que sou – ou julgava que era – mas com o que sou chamado a ser. Mas sabemos todos como há coisas em nós que permanecem, que, racionalmente, escolhemos que não sejam de uma determinada maneira, mas que nos desassossegam e exigem um esforço hercúleo para serem contrariadas. Ora, pedir, para mim, é uma dessas coisas. Pedir o que quer que seja a quem quer que seja qualquer que seja o motivo é uma daquelas coisas que me revolvem as entranhas ao ponto de sentir náuseas. Por isso, sempre que pude, evitei esse ato de pedir.
Nas campanhas de solidariedade – que são frequentes na minha vida – nos hipermercados, escolho sempre estar noutro lugar que não seja o da entrega dos sacos. Posso estar na organização, posso estar durante vários dias, com vários turnos, na recolha dos bens e dos sorrisos, mas entregar sacos é matar-me. Posso trabalhar duro no armazém, ser o primeiro a chegar e o último a sair, organizar criteriosamente os alimentos por género e número, contar e recontar para que não falhe nada, mas não me peçam para os pedir. Nem pedir às pessoas para estrem presentes, ou colaborarem, ou abdicarem do seu tempo para me ajudarem. Nada disso. Eu resolvo, eu sacrifico-me, eu desenrasco-me. Com um sorriso nos lábios.
O que eu não sabia – e que a vida se encarregou de me ensinar da melhor maneira: espetando a parede contra a minha cabeça – era que esta é uma extraordinária falta de humildade da minha parte. Pedir é recusar-me autossuficiente, é colocar-me à mercê de alguém, é dizer eu não tenho, é olhar nos olhos e dizer eu preciso, é tornar-me dependente, é arriscar ser desprezado e humilhado, é encarar a possibilidade de ser motivo de pena, que é, para mim, a suprema humilhação. Vai contra todos aqueles instintos que me foram incutidos em miúdo e que ainda hoje me fazem engolir em seco quando têm que ser contrariados. Mas têm que ser contrariados. Eu tenho que os contrariar. Porque pedir, se é aquilo tudo que referi anteriormente, é também descoberta que se é amado, é também ser puxado para cima, é também encontrar uma mão que nos é estendida, é também mergulho num Nós que apenas ultrapassa o vácuo palavrar e encontra verdade quando tem a oportunidade de se fazer vida vivida, vida sentida, vida partilhada. Efetivamente. Na carne. Na alma.
Já adulto, pedi e peço muitas vezes. Nenhuma delas sem um enorme custo, nenhuma delas sem aquela náusea, nenhuma delas sem a procrastinação que destino às coisas verdadeiramente desagradáveis que espero que não tenha necessidade de fazer acontecer, nem que seja por uma qualquer luz vinda do céu: “afasta de mim este cálice, Pai”. Quando peço, o que quer que seja, a quem quer que seja, para quem quer que seja, faço-o inevitavelmente tarde e a más horas, quando já não consigo adiar mais, quando já enfrento as nefastas consequências de não ter tido a coragem de efetuar o pedido antes, atempadamente, quando se justificava, quando sabia ser inevitável enfrentar a dolorosa necessidade de pedir.
E, no entanto, sempre que peço fico maravilhado. Pela generosidade de quem me acompanha, pela naturalidade da entrega, pelo amor que me rodeia e que se torna particularmente palpável quando eu preciso do que quer que seja, de quem quer que seja, para quem quer que seja. Vou percebendo que pedir é uma espantosa maneira de revirar o quotidiano permitindo que o ar se renove, libertando o que nos ata, dando visibilidade e possibilidade ao melhor de nós. E que, por isso, pedir, colocar-se à mercê, submeter-se, estender a mão, é, afinal, o que nos torna verdadeiramente humanos. E caminho, para que os outros façam acontecer amor em nós.
José Pinho

O que a vida me ensinou (II)

Este ensinamento é relativamente recente, mas tem ocupado os meus pensamentos. A experiência de ser criança é bela e comovente, mas, ao mesmo tempo, altamente arriscada. Nessa fase do nosso desenvolvimento, as nossas necessidades de afeto, de proteção, de escuta, de amor são avassaladoras. Mesmo que o ambiente familiar e o contexto envolvente tenham sido positivos e afetuosos, creio que haverá sempre alguma coisa que no mundo interior da criança sai magoado. Não falo sequer das experiências de infância dolorosas ou mesmo traumáticas, onde essa dor cresce de forma bem ais dolorosa.
Diria que são as limitações próprias da vida e da contingência do existir. Um pouco como a primeira experiência traumática que consiste em sair do calor e da proteção do ventre da mãe e passar para um meio ambiente mais doloroso e hostil.
Com o crescimento, outras encontrões, feridas e marcas farão o seu percurso. Paralelamente, aprendemos a jogar o jogo que a sociedade nos propõe como o “programa da felicidade” montado na construção do ego, na procura do sucesso, do poder, da afirmação social.
Tudo somado, tenho aprendido naquilo que vejo em mim e nas pessoas à minha volta que existe esse desassossego e cambalear da alma humana. Procuramos parecer bonitos e asseados, sensatos, bem comportados e ajustados, mas a realidade do nosso “deep down” clama por outra medicina.
É por isso que, à medida que os anos vão passando, tenho aprendido a ser mais prudente no meu julgamento daquilo que as pessoas transmitem, no que dizem, na sua linguagem corporal, na sua aparência em suma. Por vezes acreditei ter-me desiludido com a pessoa A ou B (da mesma forma e com a mesma naturalidade com que C e D naturalmente se desiludiram comigo) mas essa desilusão assentou na crença errónea de que conhecia a pessoa. E isso é errado: há um turbilhão tão intenso e inconfessado nas nossas emoções e sentimentos sempre tão profundos; existem tantas marcas de sofrimentos, ressentimento, medo, solidão, agressividade – tudo isso a reclamar uma prudência e cautela como atitudes primordiais na abordagem a outro ser humano.

advento

“Que difícil é ser o alvo desta atenção divina.”

António Ramos Rosa

Que pode ainda ser dito sobre o advento que não tenha sido repetido? “Nada há de novo debaixo do sol”; blindamo-nos, então, nessa espécie de linguajar piedoso que nos consola e sossega – e aí vamos, “paramentados com ideias de circunstância” como disse Ruy Belo, ao encontro do Rei.
Somos demasiadamente grandes para entrarmos pelo advento e, por ele, no estábulo do bem aventurado. Aquilo que as nossas mãos desassossegadas querem tocar é por demais incandescente. Não suportamos este mistério tremendo. Creio que sem esta constatação inicial nada poderemos tatear desta procissão de textos e símbolos, personagens e histórias que vão desfilando diante de nós nestes dias primeiros. Queremos domesticar o fogo, mas o fogo não pode ser domesticado. Há uma humildade primordial sem a qual a nossa boa vontade se torna apenas ornamental, decorativa, na realidade, incapaz.
É grande o mistério, mas a nossa grandeza, essa inflamação irremediável do ego, reduz ao tamanho do olhar a paisagem infinita.
O salmo diz que a ovelha anda extraviada e errante: põe na sua boca esta oração, das mais pungentes da Bíblia: “ando perdida, procura o teu servo”. Eis a constatação desarmante da incapacidade em encontrar a senda para o regresso ao calor! Que venha, então, o bom pastor encaminhar e guiar a ovelha perdida. Será este o ponto de partida para que o olhar possa arregalar-se de espanto ou seremos daqueles que Iavé verbera, através de Isaías, nós os amigos do templo, do rito, da rúbrica?
Quem sabe a nossa oração pudesse ser simplesmente: “Se rasgasses os céus e descesses!” Se conseguíssemos estendê-la como um manto por sobre a alma de cada ser vivo que habita este mundo… É um grito por mim, por ti, por qualquer passante com quem nos cruzamos, tão distante do advento como o oriente do ocidente.
Cur Deus homo? Porque Deus se fez homem? Que a pergunta nos atormente, nos moa até doer. Que a palavra ponha a nu a nossa indigência e, assim, nos decidamos a entrar no cortejo dos pobres rumo ao lugar onde menino dorme confiado, ele, a medicina para as nossas dores, o colírio para os nossos olhos. E que a luz se estenda como relâmpago fulminante a todo o ser que vive e respira neste mundo.