Skaters na Casa da Música

Quando por lá passo, ali estão eles, em grupos rolando de cá para lá, conversando, apanhando sol, desfrutando do bom piso liso que o espaço fronteiro ao edifício lhes proporciona. Uma ou outra subida / descida tornam ainda mais apetecível o lugar para estas deambulações sobre rodas.
Passo por eles e penso: a que distância estão estes membros-da-tribo de-skaters da mensagem do evangelho, ou pior, da “mensagem da Igreja” (o que quer que ela contenha)? A que distância da linguagem, da simbólica, dos ritos, do discurso, de todas e qualquer mediações estarão eles? Estes jovens estão a anos-luz da Igreja e esta talvez ainda mais distante deles. Que teria a Igreja para lhes oferecer de que eles tenham sede?
E como seria a presença de Jesus junto deles? Que “abordagem pastoral” praticaria? Subiria para um desses skates? Faria perguntas? Moralizaria?
Não sei se nós, dentro da Igreja temos a cabal consciência da profundidade em que caiu o nosso discurso “autorreferencial” de que fala o Papa. Isto é, teremos a noção de como são ultra periféricas pessoas e grupos que até estão relativamente perto de nós, geograficamente falando? E quando nos tentamos aproximar, fazemo-lo a partir de onde? Meia dúzia de “pensamentos-pensados” ainda que bem intencionados?
Talvez seja melhor deixá-los rolar… Quem sabe encontrem laços de pertença comum, de comunhão, de entreajuda que escasseiam em não poucas das nossas comunidades.

Série: Dexter

Uma das séries que mais gostei foi “Dexter”. Dexter Morgan trabalha na polícia e tem acesso a informação privilegiada relativa os criminosos sob investigação. Em criança ficou marcado ao ver a sua mãe ser assassinada. Essa experiência fez crescer nele o que chama o seu “dark passenger”, uma força irreprimível e poderosa para matar. Tendo consciência do que se estava a desenvolver no filho, o seu pai iniciou-o num “código”. Com a aprendizagem desse código, Dexter aprenderá a canalizar a necessidade de matar segundo as regras desse mesmo código: pessoas que comprovadamente cometem crimes graves e que envolvem a vida, a saúde e a felicidade de outras pessoas.
Esta série levanta questões interessantes.
1 – Dark passenger”. O protagonista tem dentro de si uma força irreprimível para fazer o mal. Não a temos nós também, ainda que em grau soft? A diferença será de essência ou de grau? Onde está a linha vermelha entre a sanidade e a patologia? Os comportamentos perturbadores e violentos que são socialmente reprováveis são catalogados e isso descansa-nos: ‘eles são doentes nós somos sãos’. No entanto, o dark passenger é bem mais insidioso do que podemos julgar.
2 – Justiça. Não sei o que pensa o estimado leitor, mas a perspetiva de alguém ser uma espécie de “vigilanti” agrada-me e só os “pensamentos conformes à moral e aos bons costumes” abafam este desejo de que “ao menos haja quem limpe o sebo a esses criminosos já que a polícia não faz nada”. Percebo pouco da moral vitoriana, mas intuo que o grande problema era o verniz colocado sobre o vulcão das pulsões inconscientes e subterrâneas. Esta série obriga, de forma honesta, a perceber que, debaixo dos raciocínios lógicos, racionais e até religiosos, há um outro piso onde a violência, o ressentimento, o medo, a culpa, a agressividade, moram. Ninguém é apenas racional. Cuidado com o leão escondido!
3 – O bem e o mal são lugares inamovíveis? Fazer justiça pelas próprias mãos é errado até onde? Há alguma justiça neste justiceiro que mata apenas quem tem a certeza que é criminoso, (aspeto que nunca é beliscado ao longo de todas as temporadas)? Há alguma compreensão para Dexter por ter visto a mãe ser assassinada à sua frente num banho de sangue?
Enfim… perguntas difíceis para respostas difíceis. Certeza nos princípios, mas a vida não é a branco e preto e, muitas vezes, temos de avançar às apalpadelas. Desconfia de quem tem demasiadas certezas, ó leitor.

A voz aos amigos (XXXVI)

O Padre na Literatura (XI)

“Debaixo de algum céu” – Nuno Camarneiro

Prémio Leya 2012, este “Debaixo de qualquer céu”, de Nuno Camarneiro, é o primeiro romance sobre o qual me debrucei, escrito originalmente em língua portuguesa e no qual aparece a figura de um padre.
Uma história são pessoas num lugar, por algum tempo” (p. 12). Este é um livro de histórias de pessoas, contadas em 7 dias, do dia de Natal ao do Ano Novo (os dias da criação), que vivem no mesmo prédio, mas que não conhecem suficientemente os dramas a gerar-se no apartamento ao lado. Mas, nem todos!
No terceiro esquerdo mora um jovem padre, Daniel. Na missa de Natal, evangelho do prólogo de S. João, “um padre tão novo e um mistério tão grande para explicar”. Pela porta entreaberta do seu apartamento, Daniel diz a Manuela, vizinha do segundo andar: “O escuro serve-nos para esconder o que não queremos ver, esperamos o dia e depois lavamo-nos com água e luz na esperança de alguma coisa nova. Mas não somos diurnos como queremos ser, Manuela, fundeamos a noite, e do pescoço para baixo somos só mistério.” A vizinha, mulher casada, mãe de um casal, tinha tomado a iniciativa de voltar ao apartamento do padre para reaver, pelo menos, o tabuleiro deixado com as sobras do assado do dia anterior, partilhado com ele, altura em que se envolveram sexualmente.
Daniel está doente de fé. Na noite, acende a luz para continuar a escrever palavras para dar a outros certezas que não tem; quer rezar e não se lembra de uma “oração daquele lugar” que seja; e faltam-lhe os sons “que falam a Deus como se fosse Ele a falar consigo, como um assobio”.
Atormenta-o o sacramento da confissão: “uma mulher conta um segredo a um homem à espera de que Deus a ouça e lhe perdoe […] coisa que se decide entre o pecador e o inventor do pecado”. Ao padre cabe-lhe ouvir, calar e viver com o horror dentro de si, sem castigo nem perdão. E Daniel não desiste: “Mas eu sou homem também, de pecados por todas as partes que se fundem com os alheios e, quando sonho, quando dispo os paramentos, quando vivo como os outros, acho-me incapaz de distinguir o mal que fiz do mal que escutei ou imaginei ou compreendi.” E usa uma analogia: “O lixo sai de casa e repousa no aterro onde é tratado e transformado, ninguém se preocupa com os contentores ou os carros de recolha ou os homens que o transportam. Mas é esse lixo residual, esse que se agarra às paredes e às mãos, a diferença entre o que produzimos e o que tratamos, é esse lixo que corrói os metais e a carne.
O padre Daniel sente-se envolvido emocionalmente com Beatriz, do terceiro direito, a mulher que perdeu a razão de viver, e que lhe pediu ajuda na confissão, e está pronto para deixar o seu Deus, de perder-se com ela, no seu abismo. Mas Beatriz quer ir ao fundo sozinha atrás de quem já antes partira.
Figura-ponte é Marco Moço, o velho lobo do mar, que juntou Daniel e David, do rés-do-chão, à volta duma boa caldeirada, o sacerdote do sagrado e o sacerdote do profano. Para Marco, “as religiões seriam perfeitas se pudessem dispensar os deuses, se os homens se despissem na rua sem precisarem de olhar para cima, rindo orgulhosos por serem donos da loucura e de palavras raras”. Em vez, Daniel, sempre a braços com as palavras certas para as suas homilias, escrevera num livro de poesia, oferecido precisamente a Beatriz: “as palavras são difíceis, mas são o que temos”.
Romance sobre gente como nós, que estamos perdidos, que nos deixamos embalar pela rotina, em dias todos iguais, a não ser que um relâmpago provoque um apagão e nos faça um autêntico “reset”. Paramos quando pressentimos algo no ar carregado de eletricidade, no prenúncio duma morte anunciada ou dum desastre que aconteceu mesmo ao nosso lado, no regresso para casa, e que nos faz lembrar que só se vive uma vez!

Humberto Martins

VI

1. Achei curiosa a expressão usada por S. Bento: “Pax perniciosa”. A paz perniciosa. Não sei se entendi corretamente, mas associei essa paz perniciosa aos momentos em que sinto que todas as variáveis à minha volta estão sob o meu controlo: casa e filhos, trabalho. Como se dissesse a mim mesmo: agora estou em segurança, agora está tudo bem. É uma paz perniciosa porque é mentirosa: é uma mentira que o ego me faz. Que sei do que me pode acontecer no momento seguinte? Tudo é incerto e imprevisível. É mentirosa porque quer abrandar ou fazer cessar o combate que sempre tenho de travar.

2. O meu pai gostava de citar a frase, que atribuía a Santa Teresinha do Menino Jesus: “A vida é uma má noite numa má pousada.” O “ar do tempo” reage a esta frase e às implicações que traz. Os meus contemporâneos vociferam contra tal ideia deprimente: a vida é para ser vivida, colhendo, saboreando tudo o que tem de belo para dar. O nosso mundo e o nosso tempo estão cheios de coisas maravilhosas. Temos de viver ao máximo!
Talvez estas ideias estejam erradas; no entanto, observo que muita gente é infeliz; o mercado dos fármacos antidepressivos é grande e gera receitas avultadas. Há muito gente a recorrer a terapias com o fim de sair do seu estado de depressão e sofrimento.
É perigoso hoje dizer que estamos neste mundo de passagem, constatando como é breve a vida “sob o sol”.
O contemporâneo usará, ainda, um argumento religioso, afirmando que foi Deus quem criou este mundo grande e belo para que dele desfrutássemos. É um argumento verdadeiro. Inclusivamente, na nossa caminhada para Deus, usamos a beleza da criação como expressão da beleza do Criador e como caminho para nos aproximarmos dele, ou antes, para nos deixarmos aproximar por ele. Tudo isso está muito certo.
Os nossos contemporâneos também dirão que a espiritualidade cristã desprezou durante demasiado tempo a realidade e beleza deste mundo, procurando refúgio na outra vida e, pior, deixando de se comprometer com este mundo e, inclusivamente, de lutar pela justiça.
“Não sejas deprimente”, dizem, quando introduzimos uma nuvem negra no otimismo militante.
A primeira das quatro nobres verdades do Budismo, diz-nos que a vida é sofrimento. O caminho da espiritualidade desta religião consiste no processo de nos livrarmos desse sofrimento. Aqui temos uma visão “pessimista” da vida humana (e não “contaminada” por qualquer traço do cristianismo). Pergunto por que razão os budistas consideram que uma vida sem reflexão, sem um caminho novo é sofrimento. Não serão os budistas, também eles, pessimistas? O que os leva a este caminho?
A vida é bela, mas incerta, difícil, imprevisível. E trágica.

V

O problema com o piso -1

O texto que transcrevo abaixo confirma na perfeição aquilo que penso e sobre o qual tenho escrito neste blogue: somos seres desassossegados. O medo, a ansiedade, a culpa, são verdadeiros existenciais da nossa condição humana. Lavram-nos por dentro, operam a um nível muito mais difuso e pervasivo do que podemos supor. Com certeza que somos funcionais: cuidamos da família, trabalhamos, divertimo-nos, realizamos as operações básicas quotidianas. No entanto, somos roídos por dentro. A experiência da prática da meditação mostra-me à saciedade como, no dia a dia, a mente humana se encarrega de obliterar este desassossego existencial. No silêncio repetido diariamente, faço a experiência de perceber como corre em mim esse rio subterrâneo de medo, ansiedade, desassossego. E, repito, com certeza que sou funcional. A verdadeira pergunta, no entanto, é: que preço estou disposto a pagar para ser implacavelmente livre e profundamente feliz? Dante e Vergílio desceram ao inferno antes de subir ao céu.

O medo está na superfície da consciência e existe uma força inconsciente mais profunda que é a ansiedade. A ansiedade não é específica, é vaga, é sentida como uma espécie de medo geral de algo novo ou potencialmente ameaçador. A ansiedade tende a isolar-nos e a impedir-nos de arriscar algo novo. É vaga, mas tem um nível baixo – ou alto – e um estado de funcionamento constante. (…) E ainda mais profundo do que a ansiedade é o que podemos chamar de pavor. Esse pavor é um sentimento de que o nosso destino está condenado, que haverá um resultado terrível e cataclísmico no final da história. (…) Assim, cada uma destas forças negativas do inconsciente, coletivamente chamadas “medo”, afetam o corpo. Elas são controladas pela amígdala, aquela parte muito primitiva do nosso cérebro que emite hormonas de stress como o cortisol que nos preparou quando éramos caçadores-coletores com um ritmo cardíaco mais rápido e aumentando a nossa pressão sanguínea e fazendo-nos piscar muito os olhos. Estes foram os preparativos para o corpo lutar ou fugir. É uma reação muito primitiva perante a vida. O problema surge quando estas respostas não se relacionam com a realidade, quando se tornam permanentes. É como se a máquina ficasse presa e se repetisse numa nota negativa. Se estiver neste estado de medo, então pode sentar-se com um amigo ou terapeuta e eles podem ajudá-lo a ver e compreender que tudo isto não está relacionado com a realidade. Tudo isto se deve a acontecimentos passados na sua vida. E isso pode ser o início de um processo de libertação. Mas a libertação tem de surgir num nível mais profundo.

Laurence Freeman

https://mailchi.mp/wccm/daily-wisdom-393126?e=5fa31a93c3

IV

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Excesso de realidade

Será hoje o mundo mais violento do que foi no passado? Haverá hoje mais pobreza ou mais sofrimento do que no passado? Eu não estou certo de que assim seja e não estou certo que assim não seja. Existe hoje muita informação disponível que quantifica o nosso progresso como humanidade. Sei que a informação é controvertida e polémica e pode ser mal usada e interpretada. Dizem que nunca vivemos tão bem como hoje.
Se assim é, por que razão tenho uma perceção tão vívida do sofrimento e da presença do mal no mundo, de tal forma que aprece ser a única realidade? Chamo a isso um “excesso de realidade”. Hoje não existe qualquer espécie de mediação entre o espaço, o tempo e a “quantidade” de informação sobre o que se passa no mundo e a existência pessoal de cada pessoa. Podemos estar tranquilamente a ver um meme ou um vídeo e, de repente, ao fazer scroll, aparece um vídeo sobre uma tragédia de uma criança.
A nossa postura de compromisso e vigilância com o que se passa no mundo não pode significar estar em permanência exposto a tudo. Deve ser filtrada e mediada. Não é saudável nem mesmo justo que sejamos expostos a essa torrente, a qual tem subjacente, infelizmente, um negócio. Desta forma, fecham-se as portas a toda a beleza e heroísmo dos quais estão cheios os dias de tantas pessoas. Como em relação a tudo o que nos chega pelos sentidos, moderação e justa medida são princípios universais. Esse “excesso de realidade” pode ter o efeito perverso de provocar em nós medo, ansiedade e, no limite, uma paralisia na nossa ação.
Vejo isso acontecer na chamada “ansiedade climática” que invade muitos jovens. Precisamos lutar, mas com um coração forte e reconciliado. O sofrimento e o mal devem ser percebidos e combatidos mas não podemos deixar que nos façam submergir e paralisar.

A voz aos amigos (XXXV)

O padre na literatura (X)

Carlo Coccioli: “Tra cielo e terra”


Pecado original, redenção, santidade, demónio. Quem se atreveria hoje a escrever um romance sobre estes temas? Tentou-o Carlo Coccioli neste romance de 1950 ousando falar de temas intemporais, e que todas as épocas e lugares enchem-lhe de carne. Aqui não existe somente um padre com “odor” de santidade, enviado para ser pároco numa pequena aldeia montanhosa (Chiarotorre) para que entendesse que, para carregar a cruz, não seria necessário ir até aos confins da terra. Ele trata da vida de todos nós, com as suas lacerações abertas.
Don Ardito é um padre atormentado ao tentar encontrar o caminho para servir a Deus – o céu – progressivamente consciente que terá de percorrê-lo sobre uma terra povoada de indivíduos e leis bem terrenas, numa terra “sem” Deus.
Até que ponto uma pessoa é dona de si ou é de uma outra, inominável? Que direito tem Deus de intervir na existência do homem, se o drama dum sofrimento desconhecido persiste? O mal é apenas maldade humana ou é também domínio de Satanás? Que resposta damos perante a nossa própria insuficiência? É por esta razão que toda a humanidade entra no fio narrativo deste autor: nobres e camponeses, sacerdotes e combatentes (estamos entre 1927 e 1943), pecadores e videntes. Todos eles indissociavelmente ligados a Don Ardito Piccardi, com quem entraram em contacto: o marxista que entra na Trapa, o homossexual atormentado com a sua história, etc.
Don Ardito é como Carlo Coccioli. Na sua escrita febril, com os seus temas exagerados, sem comparação possível a Mauriac ou Bernanos, a verdade é que Coccioli era – e é – apenas ele mesmo, ao “queimar-se” na busca de um sentido para o humano. Don Ardito, pastor de almas, arauto contra Satanás; também ele se deixa possuir quando cede à lógica dos salões à la page (sic!); mas salvo pelo desejo de regressar ao reconhecimento de Deus em cada pessoa, da única forma possível: por amor e sem renunciar a nada do que está no ser humano até o trazer à luz. Começa Don Ardito por recusar em se adaptar a uma via humana e terrena e vemo-lo a amadurecer diante dos nossos olhos, ao renunciar lentamente a esse princípio (e é isso que o torna grande: a renúncia até da sua “riqueza” para nos enriquecer com a sua “pobreza”).
Assim toma consciência de não poder agir pelo Outro, de não poder ser a mão de Deus na terra, entre os homens, sem fazer parte da humanidade, sem estar entre os homens: “se esses – os homens – se movem, algo em mim se move. Talvez o mesmo acontece com eles se eu me movo. Estamos aqui edificados uns para os outros, uma irreparável relação”.
Enfim, o nosso padre chegará àquele que parece ser o caminho mais terreno e divino, ao mesmo tempo e, nas suas derradeiras horas, dirá: “Muitas, muitas coisas me escapam. Por outro lado, não procuro atingi-las.” “Posso perguntar porquê?” “Não sei se te é mais fácil dar-te conta até que ponto é inútil compreender. Compreender no sentido de conhecer…” “E então o que é que é realmente útil?” “Descobri que é útil amar. Mas foi-me pedido tanto até chegar a esta descoberta.”
Arderá nas tuas mãos como fogo este romance e o confronto com um homem que tantos, pelo mundo fora, acreditaram existir numa aldeia perdida nas montanhas a quem escreveram cartas porque lhes tinha lido o coração como um livro aberto!

O livro está traduzido em português: Carlo Coccioli, O céu e a terra (Editora Ulisseia, 1973)

III

Uma série e um filme. A série (1.º episódio): “A very british scandal” retrata as aventuras e desventuras da Duquesa de Argyll e apresenta-a como uma mulher maldosa, vingativa, insaciável nos seus apetites. O filme: “Jane Eyre” segue a vida dura de uma precetora, Jane, desde o quase abandono familiar ao seu envolvimento com um rico proprietário.

Ambos os programas me entretiveram. Continuarei a ver a série. Ao meu espírito, contudo, veio o pensamento sobre estas duas mulheres. Uma, ardilosa, “social climber”, implacável. A outra, lutadora, “com espinha”, que não vergou diante das dificuldades da vida, antes se erigiu a partir delas.

Fazem-me falta mais séries ou filmes (que os há, sei-o) que, sem serem “cheesy”, nos mostrem personagens especiais, raras, lutadoras, com carácter e me ajudem a viver com um pouco mais de beleza e força. A vida já não é fácil. A arte deve ter como função elevar o espírito, dar-nos luz, força e orientação para o caminho. Tenho pena que uma porção apreciável daquilo que é oferecido não cumpra esse desiderato.

II

Ao acabar o livro sobre o eremitismo, tornei-me amigo de vários deles, particularmente dos eremitas japoneses que, ao longo dos séculos, povoaram montanhas e planícies, mergulhados na natureza. Ao ler o relato de um deles, consigo vê-lo na sua pequena cabana com a janela aberta para a beleza luxuriante de árvores e plantas. Tem os olhos fechados, nessa tarde em que nada nem ninguém está próximo. Numa calma e paz de outro mundo, de que ao menos uma vez na vida nos abeirámos, o eremita ouve a chuva tombar. Não há pressa; o seu pensamento é calmo como um lago. Totalmente serenado vive plenamente.

Nesta noite em que escrevo estas linhas, sei que espalhados pelo mundo, aí estão eles, as sentinelas do mundo a vir, os que vigiam sobre o seu coração e o coração do universo. Sei, também, que quando os dias pesarem ou o lixo, que volta sempre como a maré cheia, tomar conta do meu coração, posso simplesmente fechar os olhos, sentar-me no chão, junto de Ryokan ou Basho e, com eles ouvir a chuva batendo as folhas, limpando, lavando, abrindo a porta para a plenitude.

I

Agora que o ano está a terminar, atravessa o meu espírito, ainda que distante, o sofrimento do mundo. Não falo do mais visível ou mediático. Falo da solidão: de querer ter amigos, estar na flor da vida e não haver ninguém. Estar simplesmente sozinho. Falo de quem cuida de uma pessoa de família, anos a fio, esses seres maiores do que o que de mais nobre existe na terra. Falo de quem vê uma, duas, três pessoas da sua própria família a definharem para a doença incurável. Falo destoutra que me dizia sofrer desde os seus dezoito anos.

Enquanto isso, a minha casa está quente. Nada me falta: afeto, amor, serenidade, beleza, alimento, calor. Não me sinto culpado e, sim, sou abençoado. Apenas não consigo viver “como se…” a dor do mundo não existisse. Não quero que me baste o “eu e a minha circunstância”. Trago, de novo, à minha memória, quem dera ao coração, o grito de santa teresa de ávila: “Não durmais porque não há paz sobre a terra.”

Talvez seja esse o meu voto para dois mi e vinte e dois: viver de olhos bem abertos, aliviar esta e aquela dor, alargar sempre mais a fronteira do coração, alargar a roda. Talvez seja exatamente esse o melhor programa para dois mil e vinte e dois: alargar a roda. De olhos abertos e mãos generosas.