Em câmara lenta

Os gestos dela são sempre rápidos. Sabe o que tem a fazer, as tarefas para o dia. O importante é chegar ao ponto em que pode dizer a si mesma que, para aquele momento tudo está feito. E essa é a sensação mais gratificante: a de, ainda que por momentos, ter a ilusão que ao realizar todas as tarefas que tem previstas para essa manhã ou tarde (não sei) uma sentimento de ordem, de domínio, de pacificação emerge no seu espírito.

Não importa se não há qualquer prazer nas tarefas que tem de realizar. Elas nada valem por si mesmas. É ao ponto final do trabalho que quer chegar. Estar nesse pequeno oásis onde, fugazmente, experimenta a chegada à terra prometida do dever cumprido e a um paraíso original.

Observo-a e observo-me. Quantos dos meus gestos são dignos? Quantos deles são pausados, solenes, conscientes, presentes? Andarei, também eu, rebolando pelos dias como um feixe de palha disperso numa tarde de vento?

Por isso me recordei de uma história sobre a artista Lourdes Castro e o seu marido. Quando viam que as solicitações e o trabalho eram avassaladores (aquela sensação angustiante de perder o pé e cair), eles criavam uma performance artificial. Começavam a caminhar pela casa lentamente, como se estivessem em câmara lenta, realizando as tarefas de forma demorada.

Esta história vem-me muitas vezes ao pensamento. E, o mais curioso, é que por vezes tento pô-la em prática. Quando entro na cozinha, a minha vontade é despachar tudo o que tenho a fazer, arrumar, cozinhar, para o mais rapidamente possível ir ao que me interessa.  O que acontece a esse momento? Ele é um interlúdio e um estorvo ao meu roteiro, como um parêntesis.

Tragicamente, o problema é que os parêntesis são demasiados e tornam tudo isto numa equação de difícil resolução. Sou um pouco como ela, sempre à procura do oitavo dia, o dia do repouso, sempre esquivo, sempre em fuga O mais engraçado, é que quando entro neste jogo de tocar nas coisas com calma e lentidão exageradas, quando estou absolutamente na lua entre os tachos, os gestos que solenemente pontifico tornam-se rituais. E estes rituais comunicam comigo.  Então, uma serenidade desce sobre mim: o caos do mundo interior trasmuda-se em reino de bem-aventurança.

Platitudes – VIII

1. Li que, na antiga tradição monástica oriental, o “noviço”, isto é aquele que estava num período de discernimento e prova relativamente à sua vocação, era chamado à presença do seu Padre Mestre (o formador), no final de cada dia.
Era o momento em que o noviço falava sobre as suas vivências interiores e exteriores, verbalizando o que sentia, dando forma e tom a todo um mundo de pensamentos, emoções, sentimentos e ações que tinham percorrido o seu dia. A esta terapêutica chamavam “tirar o veneno do pescoço da cobra”.

Penso que a necessidade permanece atual. Deveríamos, ao final de cada dia, ter um tempo e um interlocutor a quem pudéssemos confiar tudo o que fomos vivendo. Vamos sempre acumulando um peso que precisa de ser alijado. Há muitas forma: uma série, uma música, o cuidado do jardim, uma corrida. Penso, contudo, que nada bate a palavra que dizemos e que é acolhida, compreendida e guardada pela alma gémea. Quando somos compreendidos, que benção… Alguma coisa é sanada, a carga repartida, o coração recomeça a viver.

2. O Cristianismo é uma religião da paz. Acreditamos que Jesus deu a sua vida para que os inimigos se tornassem amigos; para que, de todos os povos da terra se formasse uma só família humana. Não creio que haja dúvidas em relação a isso.
A um nível mais próximo e pessoal, quando duas pessoas estão desavindas, rapidamente se diz que devem dialogar e tentar uma aproximação. Também isto é verdade. De todos os modos, a pergunta que faço é: a que preço? Onde está a linha divisória entre a procura da paz e a “paz podre”? O que separa a procura da unidade do unanimismo?

Jesus foi seguramente aquele que mais procurou a paz, quem se atreveria a negá-lo? Mas a paz e a união que ele procurou não podem ser desligadas da procura da justiça e da verdade. A sua forma de ser e de estar, levou a sua família a dizer que ele “estava fora de si”. Que deveria ele ter feito nesse momento? Deveria ter cedido, a bem da paz e da harmonia familiar e tomado uma postura mais “branda” e cordata a fim de “não levantar ondas”? Porque quis ele provocar o poder religioso do seu tempo? Não teria sido mais fácil uma postura mais dócil e “politicamente correcta”, onde pudesse ter lavrado algumas críticas mas sempre a partir de “dentro do sistema”? Porque disse ele que tinha vindo trazer a espada em vez da paz? É apenas uma metáfora?

Creio que a rapidez com que a prática cristã procura silenciar as dissensões que surgem tem de ser devidamente escrutinada. Confundimos demasiadas vezes a construção da paz com a conformidade face ao “status quo”. Se duas pessoas têm duas formas de entender um problema concreto ou a própria vida que são diferentes e irreconciliáveis, que devem fazer? Nas cartas de Paulo ou no livro dos Atos dos Apóstolos (não me lembro) vemos que Paulo e um seu colaborador (Silas?) seguem cada um para seu lado, uma vez que têm visões diferentes sobre o minstério e não chegam a um entendimento.

O esforço deve ser sempre feito no sentido da concórdia e da unidade. Contudo, essa unidade plena e total é escatológica e só se verificará no final dos tempos. A união e a paz têm de ter por base a verdade e a justiça e não a paz podre para que tudo fique na mesma.

A voz aos amigos (XXXVIII)

A figura do padre na literatura (XII)

Em 1953 surge o romance “Manhã submersa” de Vergílio Ferreira. Curioso que o romance estava a ter pouca receção até que se chega a Abril de 74 e, com ele, o fim da ditadura. Não há isso de “acasos” na história…

António dos Santos, o Borralho, foi obrigado, pela miséria e pela orfandade, a receber o apoio financeiro duma Senhora rica – numa forma manipuladora de fazer as contas com a divindade – para entrar no antigo seminário menor do Fundão – o Casarão. O texto (a tessitura) é a narração do doloroso processo de desvinculação de um futuro forçado (a ação desenrolar-se-ia pelos anos 30). A cena final representa essa libertação redentora: António torna-se inapto para o ministério sacerdotal.

De certa forma é um romance autobiográfico em que se tenta sobrepor o narrador, com o seu mundo individual (omnipresente e omnisciente), ao “Sistema Total” e autorreplicativo (Michel Foucault) que representa o Seminário e este, por sinédoque, o Estado Novo. É uma luta desigual em que parece que o sistema sempre vence.

Assim, as figuras dos padres aparecem como o descarte – vítimas e novamente protagonistas replicadores – dum sistema social altamente castrador e, no qual, quase ninguém se salva.

Um órfão, a quem lhe é proposta uma nova figura paternal (o reitor), precisa de “matar” essa figura. Curioso que, quando Lauro António nos anos 80 adaptou o romance para filme, Vergílio Ferreira interpretará a personagem do reitor do seminário, figura dominante desse universo fechado com o qual o autor parece, dessa forma, querer acertar contas.

Padres funestos, violentos e temíveis: o professor de latim “de olhares curtos como bicadas”, promotor da competição inter pares e o clima generalizado de suspeita; o professor de português de maus fígados. “Rememoro o humor frisado e agressivo do padre Lino, a vasta sombra do padre Tomás nos corredores, a feminilidade nervosa do padre Fialho, o grosso Raposo, o padre Martins de pau, o melancólico Pita, o Silveira, o Canelas, o Reitor”.

O reitor não tem nome. É intencional, porque é uma figura-tipo, imago da figura temível do pai edipiano.

Só o padre Alves se salva. Com a sua “fronte de gigante” era um “bom varão que me tratava por filho”. Mostrava-se “verdadeiro e humano” e envolvia-o uma lenda de “coragem e de glória”. Iluminava o seu rosto um “olhar silencioso e compassivo”. Lança-se a hipótese que se tratasse do padre Joaquim Alves Brás, que fora diretor espiritual e fundador da Obra de santa Zita. O reconhecimento geral das suas virtudes faz com que decorra presentemente o processo da sua beatificação.

“Manhã submersa” pode ser o resultado extremo dum sistema social fechado, autorreferencial. Um sistema só se torna saudável quando há membranas que permitem a permuta e a transferência com outros sistemas. De contrário o sistema fica doente e, com ele, as pessoas que o retroalimentam. O clericalismo precisa dum sistema maior – nacional – em que o sistema religioso copia o autoritarismo civil com quem desenvolve um sistema simbiótico. O Papa Francisco não se cansa de o combater.

Humberto Martins

Platitudes – VII

1. Os dias começam a ficar maiores e a temperatura mais amena. Depois de ter tido COVID, retomei as minhas caminhadas madrugadoras. Uma e outra vez saboreio esta hora matutina ainda que escura. No regresso do caminho olho o céu, esperando o momento em que verei a primeira luz da manhã pela primeira vez.

Desde o momento em que os dias começaram a ficar mais pequenos, a noite foi progressivamente envolvendo todo o tempo em que caminho. Entro no seio da noite e  dele saio ainda no escuro. Será uma festa a manhã em que puder vislumbrar a primeira luz ténue que anunciará a manhã.

São duros os ciclos da natureza, mas, diz quem sabe, necessários. A chegada do outono, com os dias inapelavelmente mirrados; a mudança da hora, essa machadada na luz. Depois vem o Inverno com um sol de meio dia triste e vencido.

Que venha então a primavera! As manhãs já mais luminosas, belas e perfumadas: parece que dentro de nós um força puxa para uma vida pujante e irreprimivelmente doce.

2. Ainda e sempre a “pequena plenitude”: um estado de estremecimento com os acontecimentos do quotidiano que, num repente, ganham brilho e beleza inauditos. Aparentemente, tudo segue o seu curso, mas o olhar capta o oiro do dia.

3. Os místicos alertam para a forma como a nossa mente funciona de forma dual: gosto/ não gosto, bom/ mau, digno/indigno, amigo/ inimigo. Talvez a liberdade interior aconteça quando percebemos a realidade como una.

4. Tenho medo de um dia olhar para trás e ver que não vivi “to the full”. De novo, à minha memória este verso de António Ramos Rosa: “Será que posso ser o que nuca fui/ e que pensei que nunca poderia ser?” Angustia-me descobrir um dia que vivi apenas em conformidade, timorato e cauteloso. Pode a minha vida (e, quem sabe, a tua) receber ainda um sobressalto de plenitude, de transbordamento interior, como se houvesse uma inundação de dentro para fora? O que será uma vida sobreabundante?

5. O meu pai era pessimista e saudosista. Cresci com o seu discurso negativo relativamente a Portugal e aos portugueses. Creio que não deixei de ter uma visão parecida ao longo dos tempos. Se comparo Portugal aos países de maior desenvolvimento, cultura ou talento, não posso deixar de pensar que somos apenas medianos. Poderíamos ser um grande país? Terá havido algum momento no nosso passado em que ombreámos com as grandes potências europeias? Quando foi que começámos a divergir face “à Europa”? Somos um caso perdido? Acho que somos de facto bons na mediania. Há mudanças de mentalidade, nos nossos hábitos de pensar, de agir, de trabalhar, que estão muito enraizados e são difíceis de extirpar. Como se pode operar essa mudança? Com elites que o sejam verdadeiramente e com um consenso alargado e fino relativamente ao papel e importância da educação.

É um pouco isto…

A voz aos amigos (XXXVII)

O maior presente

Existe um livro, cheio de boas notícias, que tem lá esta frase: “Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.”. (Mt 6, 33) Só poderemos algo no agora. Os nossos “poderes mágicos” só funcionam no instante presente. Até quem tenta acertar num futuro melhor, só pode prepará-lo dentro de um agora.

Um excesso de remorsos por aquilo que foi mal feito no passado e um excesso de ansiedade pelos monstros que nos podem aguardar escondidos no futuro, são as receitas infalíveis para boicotar o sabor e os efeitos do presente. Uma cura só pode ocorrer num presente, num momento. E a cura para a vida pertence àqueles que têm fé na vida.

Esta parábola oriental vai no mesmo sentido:

Um simples homem, na Índia, percorria altas montanhas por estreita vereda quando se deparou com um tigre que, esfaimado, lhe barrou o caminho. Correu sem destino, sem saber para onde o fazia, aproximando-se de precipício mortal. Sem alternativa, viu as raízes de uma videira expostas. Pendeu-se numa com a mão direita e noutra com a esquerda. Mesmo por cima de sua cabeça, sem o alcançar, o tigre impaciente movia-se em círculos. Logo em baixo, no fundo da ravina, outro tigre aguardava a queda da apetecida presa. Continuou firmemente preso às raízes. Mas para seu espanto e desvario, dois ratos, um branco e outro preto roíam com vigor, um a raiz direita e o outro a esquerda. No desespero de morte iminente os seus olhos quedaram-se num morango esplendoroso e resplandecente que pendia à sua esquerda. Amparando-se com a mão direita, colheu-o, levou-o à boca e exclamou: – Que delícia, saboroso…

Paulo Farinha

Skaters na Casa da Música

Quando por lá passo, ali estão eles, em grupos rolando de cá para lá, conversando, apanhando sol, desfrutando do bom piso liso que o espaço fronteiro ao edifício lhes proporciona. Uma ou outra subida / descida tornam ainda mais apetecível o lugar para estas deambulações sobre rodas.
Passo por eles e penso: a que distância estão estes membros-da-tribo de-skaters da mensagem do evangelho, ou pior, da “mensagem da Igreja” (o que quer que ela contenha)? A que distância da linguagem, da simbólica, dos ritos, do discurso, de todas e qualquer mediações estarão eles? Estes jovens estão a anos-luz da Igreja e esta talvez ainda mais distante deles. Que teria a Igreja para lhes oferecer de que eles tenham sede?
E como seria a presença de Jesus junto deles? Que “abordagem pastoral” praticaria? Subiria para um desses skates? Faria perguntas? Moralizaria?
Não sei se nós, dentro da Igreja temos a cabal consciência da profundidade em que caiu o nosso discurso “autorreferencial” de que fala o Papa. Isto é, teremos a noção de como são ultra periféricas pessoas e grupos que até estão relativamente perto de nós, geograficamente falando? E quando nos tentamos aproximar, fazemo-lo a partir de onde? Meia dúzia de “pensamentos-pensados” ainda que bem intencionados?
Talvez seja melhor deixá-los rolar… Quem sabe encontrem laços de pertença comum, de comunhão, de entreajuda que escasseiam em não poucas das nossas comunidades.

Série: Dexter

Uma das séries que mais gostei foi “Dexter”. Dexter Morgan trabalha na polícia e tem acesso a informação privilegiada relativa os criminosos sob investigação. Em criança ficou marcado ao ver a sua mãe ser assassinada. Essa experiência fez crescer nele o que chama o seu “dark passenger”, uma força irreprimível e poderosa para matar. Tendo consciência do que se estava a desenvolver no filho, o seu pai iniciou-o num “código”. Com a aprendizagem desse código, Dexter aprenderá a canalizar a necessidade de matar segundo as regras desse mesmo código: pessoas que comprovadamente cometem crimes graves e que envolvem a vida, a saúde e a felicidade de outras pessoas.
Esta série levanta questões interessantes.
1 – Dark passenger”. O protagonista tem dentro de si uma força irreprimível para fazer o mal. Não a temos nós também, ainda que em grau soft? A diferença será de essência ou de grau? Onde está a linha vermelha entre a sanidade e a patologia? Os comportamentos perturbadores e violentos que são socialmente reprováveis são catalogados e isso descansa-nos: ‘eles são doentes nós somos sãos’. No entanto, o dark passenger é bem mais insidioso do que podemos julgar.
2 – Justiça. Não sei o que pensa o estimado leitor, mas a perspetiva de alguém ser uma espécie de “vigilanti” agrada-me e só os “pensamentos conformes à moral e aos bons costumes” abafam este desejo de que “ao menos haja quem limpe o sebo a esses criminosos já que a polícia não faz nada”. Percebo pouco da moral vitoriana, mas intuo que o grande problema era o verniz colocado sobre o vulcão das pulsões inconscientes e subterrâneas. Esta série obriga, de forma honesta, a perceber que, debaixo dos raciocínios lógicos, racionais e até religiosos, há um outro piso onde a violência, o ressentimento, o medo, a culpa, a agressividade, moram. Ninguém é apenas racional. Cuidado com o leão escondido!
3 – O bem e o mal são lugares inamovíveis? Fazer justiça pelas próprias mãos é errado até onde? Há alguma justiça neste justiceiro que mata apenas quem tem a certeza que é criminoso, (aspeto que nunca é beliscado ao longo de todas as temporadas)? Há alguma compreensão para Dexter por ter visto a mãe ser assassinada à sua frente num banho de sangue?
Enfim… perguntas difíceis para respostas difíceis. Certeza nos princípios, mas a vida não é a branco e preto e, muitas vezes, temos de avançar às apalpadelas. Desconfia de quem tem demasiadas certezas, ó leitor.

A voz aos amigos (XXXVI)

O Padre na Literatura (XI)

“Debaixo de algum céu” – Nuno Camarneiro

Prémio Leya 2012, este “Debaixo de qualquer céu”, de Nuno Camarneiro, é o primeiro romance sobre o qual me debrucei, escrito originalmente em língua portuguesa e no qual aparece a figura de um padre.
Uma história são pessoas num lugar, por algum tempo” (p. 12). Este é um livro de histórias de pessoas, contadas em 7 dias, do dia de Natal ao do Ano Novo (os dias da criação), que vivem no mesmo prédio, mas que não conhecem suficientemente os dramas a gerar-se no apartamento ao lado. Mas, nem todos!
No terceiro esquerdo mora um jovem padre, Daniel. Na missa de Natal, evangelho do prólogo de S. João, “um padre tão novo e um mistério tão grande para explicar”. Pela porta entreaberta do seu apartamento, Daniel diz a Manuela, vizinha do segundo andar: “O escuro serve-nos para esconder o que não queremos ver, esperamos o dia e depois lavamo-nos com água e luz na esperança de alguma coisa nova. Mas não somos diurnos como queremos ser, Manuela, fundeamos a noite, e do pescoço para baixo somos só mistério.” A vizinha, mulher casada, mãe de um casal, tinha tomado a iniciativa de voltar ao apartamento do padre para reaver, pelo menos, o tabuleiro deixado com as sobras do assado do dia anterior, partilhado com ele, altura em que se envolveram sexualmente.
Daniel está doente de fé. Na noite, acende a luz para continuar a escrever palavras para dar a outros certezas que não tem; quer rezar e não se lembra de uma “oração daquele lugar” que seja; e faltam-lhe os sons “que falam a Deus como se fosse Ele a falar consigo, como um assobio”.
Atormenta-o o sacramento da confissão: “uma mulher conta um segredo a um homem à espera de que Deus a ouça e lhe perdoe […] coisa que se decide entre o pecador e o inventor do pecado”. Ao padre cabe-lhe ouvir, calar e viver com o horror dentro de si, sem castigo nem perdão. E Daniel não desiste: “Mas eu sou homem também, de pecados por todas as partes que se fundem com os alheios e, quando sonho, quando dispo os paramentos, quando vivo como os outros, acho-me incapaz de distinguir o mal que fiz do mal que escutei ou imaginei ou compreendi.” E usa uma analogia: “O lixo sai de casa e repousa no aterro onde é tratado e transformado, ninguém se preocupa com os contentores ou os carros de recolha ou os homens que o transportam. Mas é esse lixo residual, esse que se agarra às paredes e às mãos, a diferença entre o que produzimos e o que tratamos, é esse lixo que corrói os metais e a carne.
O padre Daniel sente-se envolvido emocionalmente com Beatriz, do terceiro direito, a mulher que perdeu a razão de viver, e que lhe pediu ajuda na confissão, e está pronto para deixar o seu Deus, de perder-se com ela, no seu abismo. Mas Beatriz quer ir ao fundo sozinha atrás de quem já antes partira.
Figura-ponte é Marco Moço, o velho lobo do mar, que juntou Daniel e David, do rés-do-chão, à volta duma boa caldeirada, o sacerdote do sagrado e o sacerdote do profano. Para Marco, “as religiões seriam perfeitas se pudessem dispensar os deuses, se os homens se despissem na rua sem precisarem de olhar para cima, rindo orgulhosos por serem donos da loucura e de palavras raras”. Em vez, Daniel, sempre a braços com as palavras certas para as suas homilias, escrevera num livro de poesia, oferecido precisamente a Beatriz: “as palavras são difíceis, mas são o que temos”.
Romance sobre gente como nós, que estamos perdidos, que nos deixamos embalar pela rotina, em dias todos iguais, a não ser que um relâmpago provoque um apagão e nos faça um autêntico “reset”. Paramos quando pressentimos algo no ar carregado de eletricidade, no prenúncio duma morte anunciada ou dum desastre que aconteceu mesmo ao nosso lado, no regresso para casa, e que nos faz lembrar que só se vive uma vez!

Humberto Martins

VI

1. Achei curiosa a expressão usada por S. Bento: “Pax perniciosa”. A paz perniciosa. Não sei se entendi corretamente, mas associei essa paz perniciosa aos momentos em que sinto que todas as variáveis à minha volta estão sob o meu controlo: casa e filhos, trabalho. Como se dissesse a mim mesmo: agora estou em segurança, agora está tudo bem. É uma paz perniciosa porque é mentirosa: é uma mentira que o ego me faz. Que sei do que me pode acontecer no momento seguinte? Tudo é incerto e imprevisível. É mentirosa porque quer abrandar ou fazer cessar o combate que sempre tenho de travar.

2. O meu pai gostava de citar a frase, que atribuía a Santa Teresinha do Menino Jesus: “A vida é uma má noite numa má pousada.” O “ar do tempo” reage a esta frase e às implicações que traz. Os meus contemporâneos vociferam contra tal ideia deprimente: a vida é para ser vivida, colhendo, saboreando tudo o que tem de belo para dar. O nosso mundo e o nosso tempo estão cheios de coisas maravilhosas. Temos de viver ao máximo!
Talvez estas ideias estejam erradas; no entanto, observo que muita gente é infeliz; o mercado dos fármacos antidepressivos é grande e gera receitas avultadas. Há muito gente a recorrer a terapias com o fim de sair do seu estado de depressão e sofrimento.
É perigoso hoje dizer que estamos neste mundo de passagem, constatando como é breve a vida “sob o sol”.
O contemporâneo usará, ainda, um argumento religioso, afirmando que foi Deus quem criou este mundo grande e belo para que dele desfrutássemos. É um argumento verdadeiro. Inclusivamente, na nossa caminhada para Deus, usamos a beleza da criação como expressão da beleza do Criador e como caminho para nos aproximarmos dele, ou antes, para nos deixarmos aproximar por ele. Tudo isso está muito certo.
Os nossos contemporâneos também dirão que a espiritualidade cristã desprezou durante demasiado tempo a realidade e beleza deste mundo, procurando refúgio na outra vida e, pior, deixando de se comprometer com este mundo e, inclusivamente, de lutar pela justiça.
“Não sejas deprimente”, dizem, quando introduzimos uma nuvem negra no otimismo militante.
A primeira das quatro nobres verdades do Budismo, diz-nos que a vida é sofrimento. O caminho da espiritualidade desta religião consiste no processo de nos livrarmos desse sofrimento. Aqui temos uma visão “pessimista” da vida humana (e não “contaminada” por qualquer traço do cristianismo). Pergunto por que razão os budistas consideram que uma vida sem reflexão, sem um caminho novo é sofrimento. Não serão os budistas, também eles, pessimistas? O que os leva a este caminho?
A vida é bela, mas incerta, difícil, imprevisível. E trágica.

V

O problema com o piso -1

O texto que transcrevo abaixo confirma na perfeição aquilo que penso e sobre o qual tenho escrito neste blogue: somos seres desassossegados. O medo, a ansiedade, a culpa, são verdadeiros existenciais da nossa condição humana. Lavram-nos por dentro, operam a um nível muito mais difuso e pervasivo do que podemos supor. Com certeza que somos funcionais: cuidamos da família, trabalhamos, divertimo-nos, realizamos as operações básicas quotidianas. No entanto, somos roídos por dentro. A experiência da prática da meditação mostra-me à saciedade como, no dia a dia, a mente humana se encarrega de obliterar este desassossego existencial. No silêncio repetido diariamente, faço a experiência de perceber como corre em mim esse rio subterrâneo de medo, ansiedade, desassossego. E, repito, com certeza que sou funcional. A verdadeira pergunta, no entanto, é: que preço estou disposto a pagar para ser implacavelmente livre e profundamente feliz? Dante e Vergílio desceram ao inferno antes de subir ao céu.

O medo está na superfície da consciência e existe uma força inconsciente mais profunda que é a ansiedade. A ansiedade não é específica, é vaga, é sentida como uma espécie de medo geral de algo novo ou potencialmente ameaçador. A ansiedade tende a isolar-nos e a impedir-nos de arriscar algo novo. É vaga, mas tem um nível baixo – ou alto – e um estado de funcionamento constante. (…) E ainda mais profundo do que a ansiedade é o que podemos chamar de pavor. Esse pavor é um sentimento de que o nosso destino está condenado, que haverá um resultado terrível e cataclísmico no final da história. (…) Assim, cada uma destas forças negativas do inconsciente, coletivamente chamadas “medo”, afetam o corpo. Elas são controladas pela amígdala, aquela parte muito primitiva do nosso cérebro que emite hormonas de stress como o cortisol que nos preparou quando éramos caçadores-coletores com um ritmo cardíaco mais rápido e aumentando a nossa pressão sanguínea e fazendo-nos piscar muito os olhos. Estes foram os preparativos para o corpo lutar ou fugir. É uma reação muito primitiva perante a vida. O problema surge quando estas respostas não se relacionam com a realidade, quando se tornam permanentes. É como se a máquina ficasse presa e se repetisse numa nota negativa. Se estiver neste estado de medo, então pode sentar-se com um amigo ou terapeuta e eles podem ajudá-lo a ver e compreender que tudo isto não está relacionado com a realidade. Tudo isto se deve a acontecimentos passados na sua vida. E isso pode ser o início de um processo de libertação. Mas a libertação tem de surgir num nível mais profundo.

Laurence Freeman

https://mailchi.mp/wccm/daily-wisdom-393126?e=5fa31a93c3