O que a vida me ensinou (II)

Este ensinamento é relativamente recente, mas tem ocupado os meus pensamentos. A experiência de ser criança é bela e comovente, mas, ao mesmo tempo, altamente arriscada. Nessa fase do nosso desenvolvimento, as nossas necessidades de afeto, de proteção, de escuta, de amor são avassaladoras. Mesmo que o ambiente familiar e o contexto envolvente tenham sido positivos e afetuosos, creio que haverá sempre alguma coisa que no mundo interior da criança sai magoado. Não falo sequer das experiências de infância dolorosas ou mesmo traumáticas, onde essa dor cresce de forma bem ais dolorosa.
Diria que são as limitações próprias da vida e da contingência do existir. Um pouco como a primeira experiência traumática que consiste em sair do calor e da proteção do ventre da mãe e passar para um meio ambiente mais doloroso e hostil.
Com o crescimento, outras encontrões, feridas e marcas farão o seu percurso. Paralelamente, aprendemos a jogar o jogo que a sociedade nos propõe como o “programa da felicidade” montado na construção do ego, na procura do sucesso, do poder, da afirmação social.
Tudo somado, tenho aprendido naquilo que vejo em mim e nas pessoas à minha volta que existe esse desassossego e cambalear da alma humana. Procuramos parecer bonitos e asseados, sensatos, bem comportados e ajustados, mas a realidade do nosso “deep down” clama por outra medicina.
É por isso que, à medida que os anos vão passando, tenho aprendido a ser mais prudente no meu julgamento daquilo que as pessoas transmitem, no que dizem, na sua linguagem corporal, na sua aparência em suma. Por vezes acreditei ter-me desiludido com a pessoa A ou B (da mesma forma e com a mesma naturalidade com que C e D naturalmente se desiludiram comigo) mas essa desilusão assentou na crença errónea de que conhecia a pessoa. E isso é errado: há um turbilhão tão intenso e inconfessado nas nossas emoções e sentimentos sempre tão profundos; existem tantas marcas de sofrimentos, ressentimento, medo, solidão, agressividade – tudo isso a reclamar uma prudência e cautela como atitudes primordiais na abordagem a outro ser humano.

advento

“Que difícil é ser o alvo desta atenção divina.”

António Ramos Rosa

Que pode ainda ser dito sobre o advento que não tenha sido repetido? “Nada há de novo debaixo do sol”; blindamo-nos, então, nessa espécie de linguajar piedoso que nos consola e sossega – e aí vamos, “paramentados com ideias de circunstância” como disse Ruy Belo, ao encontro do Rei.
Somos demasiadamente grandes para entrarmos pelo advento e, por ele, no estábulo do bem aventurado. Aquilo que as nossas mãos desassossegadas querem tocar é por demais incandescente. Não suportamos este mistério tremendo. Creio que sem esta constatação inicial nada poderemos tatear desta procissão de textos e símbolos, personagens e histórias que vão desfilando diante de nós nestes dias primeiros. Queremos domesticar o fogo, mas o fogo não pode ser domesticado. Há uma humildade primordial sem a qual a nossa boa vontade se torna apenas ornamental, decorativa, na realidade, incapaz.
É grande o mistério, mas a nossa grandeza, essa inflamação irremediável do ego, reduz ao tamanho do olhar a paisagem infinita.
O salmo diz que a ovelha anda extraviada e errante: põe na sua boca esta oração, das mais pungentes da Bíblia: “ando perdida, procura o teu servo”. Eis a constatação desarmante da incapacidade em encontrar a senda para o regresso ao calor! Que venha, então, o bom pastor encaminhar e guiar a ovelha perdida. Será este o ponto de partida para que o olhar possa arregalar-se de espanto ou seremos daqueles que Iavé verbera, através de Isaías, nós os amigos do templo, do rito, da rúbrica?
Quem sabe a nossa oração pudesse ser simplesmente: “Se rasgasses os céus e descesses!” Se conseguíssemos estendê-la como um manto por sobre a alma de cada ser vivo que habita este mundo… É um grito por mim, por ti, por qualquer passante com quem nos cruzamos, tão distante do advento como o oriente do ocidente.
Cur Deus homo? Porque Deus se fez homem? Que a pergunta nos atormente, nos moa até doer. Que a palavra ponha a nu a nossa indigência e, assim, nos decidamos a entrar no cortejo dos pobres rumo ao lugar onde menino dorme confiado, ele, a medicina para as nossas dores, o colírio para os nossos olhos. E que a luz se estenda como relâmpago fulminante a todo o ser que vive e respira neste mundo.

O regresso a casa

Esta manhã refletia sobre duas emoções presentes no ser humano: a culpa e o medo. Serão duas características da generalidade dos seres humanos? Será que a nossa condição humana, ainda antes daquilo que a educação e a vida em sociedade lavram em nós, será que, dizia, estas emoções estão em nós presentes, conaturais à nossa passagem pela terra?

Quando nascemos, diz quem sabe, o primeiro trauma que sofremos é a da partida do ventre da nossa mãe para este mundo vasto e hostil. O bebé deve sentir-se profundamente perdido, depois de nove meses inacreditavelmente maravilhosos, protegido, alimentado, amado.

Se pudéssemos isolar laboratorialmente a nossa condição humana daquilo que o meio nos traz, ainda assim, o medo e a culpa estariam lá? Que se passa no mais profundo do coração humano? Não consigo deixar de pensar nisto. Acho que somos, por natureza, desamparados. Esse será um dos traços da nossa condição primigénia. Por mais que tenhamos sido amados, felizes, e tenhamos vivido num ambiente familiar acolhedor e estável, creio que há sempre um desassossego ou um desamparo primordiais.

A partir daí, a vida da homem sobre a terra é uma luta consciente, mas sobretudo inconsciente para sossegar o seu coração inquieto, assustado, receoso. Fundamentalmente, o que procuramos é um abrigo contra a tempestade. Vamos à procura dele quando dizemos: “não vou sofrer mais, vou tornar o meu coração de pedra; sou forte e poderosos, nada me poderá derrubar; se não criar problemas nem fizer ouvir a minha voz, tal será suficiente para me deixarem em paz; se adquiri este nível de bens materiais ou de rendimentos, não precisarei de mais nada”. E por aí adiante…

Por essa razão gosto tanto da metáfora do regresso a casa como a condição humana por excelência. A casa como símbolo do calor, da segurança, da paz, do diálogo com aqueles que amamos, do lugar, do repouso que gostaríamos fosse definitivo. É como se tivéssemos sido atirados lá para fora em algum momento; como se estivéssemos longe, errantes, desviados da rota e viver mais não fosse o movimento de, às cegas, procurarmos o caminho de regresso a alguma espécie de pátria ou casa ou jardim sagrado ou ao centro de tudo.

Também por essa razão, ressoou em mim a imagem acima. Por vezes, receio estar a ser peregrino nos meus pensamentos, talvez mesmo um pouco extraterrestre e fico mais confortado quando me sinto compreendido por algo que leio ou vejo, neste caso  esta imagem.

Direitos, pessoas e rios

Para aqueles que estão familiarizados com o mundo do Direito, o conceito de personalidade jurídica é central para compreendermos a importância de todo e qualquer ser humano que vem a este mundo: todo o ser humanos que nasce, adquire imediatamente personalidade jurídica, isto é, a aptidão para ser titular de direitos e obrigações. A ordem jurídica limita-se a reconhecer esse direito, não o atribuindo já que a pessoa é o fundamento e o fim da ordem jurídica.
Já houve épocas na História nas quais a alguns seres humanos como os escravos era atribuída a categoria de “coisa”, negando-lhes a sua dignidade primordial. “Ao longo da história, vários grupos humanos diferentes mantiveram práticas eugénicas. Gregos, Celtas e diversos grupos de indígenas sul-americanos eliminavam crianças nascidas com defeitos físicos”, afirma a Wikipedia.
A consagração na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nas Constituições dos diferentes países do reconhecimento da personalidade jurídica como condição essencial a cada ser humano é um passo de gigante para a dignidade que cada ser humano que vem a este mundo deve ter.
E por essa razão que fiquei um pouco desconcertado ao ler algumas notícias que dão conta que esse conceito fundamental para a dignidade do ser humano, está a ser alargado a outras realidades. A Revista “Foreign Policy” tem um artigo com o título: “Nature Is Becoming a Person”; por outro lado, há algum tempo, a Nova Zelândia concedeu proteção jurídica a um rio, equiparando-o legalmente a um pessoa. Parece que há um movimento de proteção acrescida à natureza que passa por conceder equiparação de direitos com os humanos.
Não sei se estas medidas se poderão relacionar com uma outra tendência na ciência, segunda a qual não existe, fundamentalmente, uma diferença entre os seres humanos e outras espécies, estando aqueles reduzidos, no limite, a serem considerados uma soma de átomos e moléculas e, portanto, os humanos são apenas uma combinação de reações químicas, excluindo-se qualquer visão de livre-arbítrio do ser humano. Se este é entendido assim, se a “antiga” distinção entre animais racionais e irracionais parece ficar obsoleta, se não há nenhuma disrupção na passagem do humano para o não humano, então, é mais fácil sustentar o alargamento do conceito de personalidade jurídica também a outros seres vivos.
Tenho dificuldade em acompanhar esta passada. Sob o ponto de vista religioso é fácil desmontar a falácia, centrando o debate no facto de os humanos sermos os únicos criados à imagem e semelhança de Deus, dotas de razão e de alma. Esta distinção abrupta com outros seres vivos facilita a construção de argumentos que valorizem a personalidade jurídica como uma atribuição exclusivamente humana. E em termos estritamente seculares, o que dizer?
Para complicar um pouco as coisas, lia recentemente um parágrafo de um documento escrito pelo papa Francisco (Encíclica “Laudato Si”), onde o papa apresentava o maravilhoso exemplo de S. Francisco de Assis na sua relação com a natureza. Cito o número 11: “Tal como acontece a uma pessoa quando se enamora por outra, a reação de Francisco, sempre que olhava o sol, a lua ou os minúsculos animais, era cantar, envolvendo no seu louvor todas as outras criaturas. Entrava em comunicação com toda a criação, chegando mesmo a pregar às flores « convidando-as a louvar o Senhor, como se gozassem do dom da razão ». A sua reação ultrapassava de longe uma mera avaliação intelectual ou um cálculo económico, porque, para ele, qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por laços de carinho. Por isso, sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe.»
Não tenho a infantilidade de querer ganhar aqui uma causa (que nem sequer é minha ou a defendo) de Francisco para o parlamento da nova Zelândia, citando-o como testemunha desta relação de fraternidade com a natureza. S. Francisco sabia bem que uma flor não é um ser humano. Ainda assim, mesmo um argumento (para mim) errado tem o condão de despertar-me do “sono dogmático” e de me pôr a pensar.
Reconheço que há povos para quem a natureza é profundamente sagrada, viva e relacional. Aqui pelo ocidente “coisificamos” tudo e somos um conjunto de desencantados e devoradores de tudo o que nos rodeia. É preciso um novo olhar sobre a natureza, na linha daquilo que S. Francisco tinha, mas… onde está a fronteira?

A voz aos amigos (XXXIII)

O Padre na Literatura (IX)

De Bruce Marshall (1899-1987), um escritor escocês muito profícuo, convertido ao catolicismo, este “The World, the Flesh and Father Smith” de 1944, nem é sequer um dos seus romances mais representativos. Pressente-se na sua escrita que é um convertido que escreve, sem deixar de ser suficientemente irónico e satírico ao jeito de Chesterton.

Este romance possivelmente foi escrito ao longo da II Guerra Mundial e a cronologia do mesmo estende-se por trinta anos até à guerra, com o protagonista – o Pe. Smith – a abarcar duas gerações de paroquianos. Ele é um padre católico muito humano, pároco dum bairro pobre urbano. Este livro é também uma reflexão sobre a guerra e a ingenuidade ideológica dos nacionalismos exacerbados que conduziram a Europa a duas guerras em tão curto espaço de tempo. Elvira, uma das jovens que ele tinha batizado, agora atriz de cinema, dirá ao Pe. Smith, nas vésperas da II Guerra Mundial: “diga-me, padre, há algo que não vai bem neste país, não é verdade?” O próprio Marshall, aliás como o Pe. Smith, estiveram na Frente. Marshall sairia daí incapacitado.

Smith, este pastor com “cheiro das ovelhas”, lida com as fraquezas humanas, as inconsistências da fé e os limites da hierarquia eclesiástica com um humor contagioso e despretensioso. A sua vida decorre entre a alegria e a tragédia, o desânimo e a esperança, o drama e a rotina, as misérias humanas e a graça divina. Ao longo deste longo percurso, constatamos o passar dos anos pelo Pe. Smith. Vemos também as crianças que batizara tornarem-se adultas. É um relato simpático da presença da figura do sacerdote nas mais diversas teias sociais; a presença dum homem que conhece como poucos as profundidades da alma humana. E é também um relato da fraternidade sacerdotal.

Os capítulos são breves, os caracteres são claramente delineados, e a narrativa é temperada com observações astuciosas e sagacidade frequente. A escrita é acessível, envolvente, bem ritmada e por vezes estranhamente poética.

O catolicismo próximo das classes pobres, onde os seus costumes são vistos com desconfiança pelas outras confissões cristãs; a tensão entre a modernidade e um catolicismo conservador (veja-se a deliciosa cena da ida de três padres, pela primeira vez, a um cinema mudo), no contraste entre a “verdade” da Igreja e a solicitação da vida vivida com prazer (veja-se o divertido diálogo entre o Pe. Smith e uma romancista feminista) vão-nos passando pelas mãos de forma leve e divertida.

Com o passar do tempo, filmes chegam e partem, no cinema do outro lado da rua, bem como escritores, livros, anúncios publicitários e as evoluções técnicas “que nem sequer dão tempo aos homens de se tornarem sábios”, pensa o Pe. Smith.

Ao visitar Elvira Sarno, a jovem atriz, no hotel em que se hospedara, “acostumado a contemplar o pecado e a trivialidade só a partir do púlpito e do confessionário, o cónego [Smith] ficou aterrorizado de os encontrar ao seu mesmo nível, e, para não se ver obrigado a inspecioná-lo demasiado, dirigiu-se à vitrine dos livros…

Entretanto o jovem Scott, também batizado por Smith, tornou-se padre e um grande pregador, com pensamento arejado, adotando uma linguagem acessível a todos, pondo em prática as recomendação do bispo diocesano que aconselhava, no seu leito de morte, para que os sacerdotes “escrevessem os seus sermões palavra por palavra” e que era “muito mais eficaz dizer ‘Igreja’ em vez de ‘a nossa Santa Madre Igreja’, ‘misericórdia’ em vez de ‘infinita misericórdia’, porque os adjetivos se podem petrificar tanto como os substantivos”! Não são só devaneios de um moribundo!

Uma boa leitura!

O que a vida me ensinou (I)

A vida ensinou-me que tudo passa. Apesar da minha mente tratar cada micro acontecimento de forma amplificada, fazendo-me crer que ele durará para sempre, quando olho para trás, consigo perceber como tudo passou: foi extremamente importante, depois importante, depois mais distante e, por fim, quase esquecido. Não há qualquer acontecimento, por mais significativo, maravilhoso ou profundamente doloroso que seja, o qual tenha resistido à passagem e à erosão do tempo. Tenho aprendido como a mente se esforça por me enganar a este respeito: se pudesse olhar de cima para a forma como reajo e reagi no passado aos pequenos e grandes problemas da minha vida, falta e faltou sempre a capacidade de ver em perspetiva aquilo que me está a suceder. Luto com esse problema como se ele fosse permanente, sem me aperceber que também ele “irá à sua vida”. Tenho aprendido a não me envolver emocionalmente para além daquilo que é necessário. Se quiser alargar este raciocínio e pensar na dimensão dos meus problemas à luz da vida futura, então ficam definitivamente reduzidos a pó. Porque será tão difícil ter uma visão mais distante, proporcionada e relativizada daquilo que me sucede? Será que é pelo facto de estar demasiadamente embrulhado nos acontecimentos de cada dia? Ou, talvez, por me faltar a noção de perspetiva que só a idade ou a sabedoria podem trazer? Vivo com o céu sobre a minha cabeça, a beleza da sua cor azul, o brilho das estrelas. Olhar ou contemplar a sua grandeza poderia ser uma metáfora e um motor de compreensão e vivência da minha vida?

Com certeza que há pessoas que conseguem ver a vida em perspetiva, em escala, em proporção. Podemos perguntar qual a métrica para relativizar os acontecimentos: “vai passar”, é uma; “que importância é que isto tem?”, será outra.

Existe habitualmente, na minha vida o movimento inconsciente, mas real de desenvolver como centro de interesse primário a chamada “espuma dos dias”, os pequenos nadas quotidianos. É verdade que é no dia-a-dia que se joga a nossa vida e é neles que encontro sabor e alegria e sentido. O problema é a elevação do micro à categoria do todo. Isto é: creio que a sabedoria passa por colocar tudo em perspetiva e essa mudança ocorre quando o olhar da alma se modifica. Uma amiga de tempos idos dizia que “é preciso subir ao campanário” para ver a partir dali.

E quanto essa subida, cada uma encontrará na sua vida a forma de o fazer.

… em que o autor cogita sobre isto e aquilo

O tempo é finito, leio. Porque não temos consciência disso? Penso que é pela mesma razão pela qual vivemos de forma néscia, insensata. Passo a explicar: vivemos mergulhados nas contingências do momento presente, não acumulamos experiências relativamente a acontecimentos passados, não “aprendemos a lição”. O barco vai avançando em direção ao ocaso, mas os seus tripulantes continuam distraídos e absorvidos com as minudências que se vão passando a bordo.

Não temos consciência de como o nosso tempo é finito. Não aprendemos que a vida é frágil incerta e caprichosa. Não aproveitamos os nosso dias para nos aprimorarmos pessoalmente, para crescermos como seres humanos. Ao invés, focamo-nos em mais este “scroll”, mais esta novidade – coisas que têm o seu lugar, mas não podem ter o lugar. Às vezes, parece-me que a própria vida se ri de nós porque teimamos, de forma insensata, a não aprender com a passagem do tempo. Está escondido a nossos próprios olhos o ciclo vicioso das nossas vidas, sem que queiramos em algum momento sair do labirinto.

Desejo profundamente adquirir a sabedoria. Quando esta manhã repetia em voz alta as palavras de fogo de Santa Teresa: “Que nada te perturbe/ Que nada te surpreenda/ tudo passa/ Deus não muda/ a paciência tudo alcança”, refletia o que significaria para mim se elas me estivessem “entranhadas”. Tomo por exemplo o verso: “tudo passa”. A pregnância desta palavra é quase vertiginosa. Posso ter a convicção racional que ela é verdadeira, mas não tenho a apreensão visceral de como ela é verdadeira. Todo  o ser humano sábio vive a partir daí. Tomo como exemplo o dia que se abre diante de mim:  o aborrecimento ou o contratempo que virá, há-de passar. Devo lidar com ele, não a partir da sua macro valorização, mas como um ponto na minha existência que rapidamente será engolido na sua insignificância, como uma cidade que fica cada vez mais para trás.

Pergunto-me porque será que nós humanos não adquirimos a sabedoria, fruto da experiência. Pelo menos, porque será difícil que as verdades mais importantes sobre a vida, e que estão preservadas pelas grandes tradições religiosas e filosóficas da humanidade, por que razão, dizia, somos, como diz o salmo “como o jumento que não se deixa domar”?

Eu não peço mais nada para a minha vida, senão a capacidade de aprender com o passar dos meus dias. Extrair os ensinamentos que os acontecimentos e o passar inexorável dos dias me vão trazendo. “Tudo passa”: incorporar esta verdade indesmentível no âmago da minha forma de entender a vida, não seria uma forma de libertação? Em abono da verdade, também pode ser um processo de profunda angústia quando o pedaço de madeira a que me procuro agarrar, afinal nada é. De todos os modos é uma frase verdadeira e, por isso, digna de ser assimilada pelas fímbrias mais ocultas da minha alma.

E agora, toca a acudir aos desafios deste dia.

Manhã milagrosa?

Mão amiga fez-me notícia do livro: “Manhãs milagrosas”. Quem me conhece, sabe que sou madrugador, não por opção, mas porque o meu ‘pavio do sono’ é curto. A pouco e pouco fui aprendendo que ficar na cama acordado não me trazia grande benefício. Introduzi a prática do exercício físico e, mais recentemente, a meditação. Hoje, é para mim impensável que o dia possa começar apressado e se reduza a sair da cama, fazer a higiene, comer à pressa e sair para as tarefas do dia. Os rituais são-me muito caros: com eles entro mais confiante e alegre em cada dia.
Nesse sentido, o livro que indiquei acima, poderia ser, para mim, uma boa ajuda para dar mais forma e consistência aos meus rituais da manhã. As práticas que são propostas são interessantes e são um bom contributo para o “aprimoramento pessoal”, expressão que achei interessante: fazer exercício físico, ler, escrever, repetir afirmações positivas, visualizar, meditar – tudo práticas positivas e que tornam o início do dia, se não milagroso, pelo menos mais saboroso. Paralelamente, existe a possibilidade de o praticante se juntar à comunidade mundial de praticantes da manhã milagrosa: é engraçado ver tanta gente, de pontos diferentes do mundo, introduzindo práticas que os ajudam a melhorar como seres humanos.
Eu sei que a indústria da autoajuda movimenta muitos milhões e é, portanto, um negócio – e onde há um negócio há práticas para visar o lucro e fomentar o consumo.
Dito isto, tenho alguns pensamentos:
a) Se não forem estes gurus da autoajuda, que outras instâncias existem hoje que ajudem as pessoas a lutarem por serem melhores, por fixarem objetivos e lutarem por eles? A Filosofia e a Religião, de alguma forma e, sem os excessos de “o céu é o limite”, ofereciam esse trabalho de auto-superação, de conversão, de seguir um caminho de um “menos” para um “mais”, o que quer que estes sejam. No caso do cristianismo, existe a noção de “combate” – o trabalho que fazemos sobre nós próprios , precedidos e ajudados pela graça de Deus – que confere sentido, intensidade e direção aos nossos dias. Pergunto-me se hoje não estamos a perder isso de vista, tornando-nos “couch potatoes”, isto é adormecidos-no-sofá… Não virá a autoajuda suprir essa lacuna?
b) Considero falaciosa a ideia vendida de que podemos tornar-nos o que quisermos, se quisermos e quando quisermos: basta ter vontade e um plano. Considero essa antropologia perigosa. Como cristão, percebo o ser humano como dividido por forças contrárias: uma que nos puxa para o bem, outra para o mal; queremos uma coisa e fazemos outra; somos fundamentalmente “broken people”, como canta a banda 21 Pilots. Neste sentido, a consideração do ser humano como detentor de uma plasticidade absoluta é para mim uma heresia. A verdade, no entanto, é que muitas pessoas sentem que algo ou alguma coisa as ajuda a superarem-se a si mesmas: acordar mais cedo, emagrecer, praticar desporto, desenvolver um novo hobby, lutar por melhorar no seu trabalho. Muitas pessoas estão a agir, a mudar aspetos das suas vidas porque sabem que algumas coisas não estão bem e querem simplesmente ser melhores. É como se houvesse uma laicização do conceito de metanoia (conversão): abandonar uma direção e seguir por uma outra nova. Penso no que acontece na nossa prática sacramental, pastoral e espiritual: caricaturamos a Quaresma com práticas inertes, desdenhamos do coaching espiritual (o que antigamente chamávamos “direção espiritual”), enfim reduzimos a fé a uma gelatina. Entretanto, por esse mundo fora, muitas pessoas continuam à procura de sentido, direção, superação e são os gurus da AA que lideram o caminho. Por isso, tenho “mixed feelings”: considero que a ideia de oferecer um mapa de superação pessoal, estratégias para lutar e vencer é fundamentalmente uma boa ideia; no entanto, penso que esta ideia prometeica de chegar ao sol é perigosa.
d) O processo de ajudar alguém a ser melhor, o papel do pedagogo, é pessoal e delicado. A etimologia da ideia do “coach” é interessante porque é alguém que se senta ao teu lado e te ajuda na procura de direção para o teu caminho. É profundamente belo quando um ser humano ajuda outro, o toma pela mão rumo ao futuro. Por isso, e noto isso no livro acima, considero que a massificação dos processos de melhoria um empobrecimento. Este trabalho delicado é convertido em técnica para fazer isto ou aquilo em sete dias, em quinze ou num mês. Parece um fábrica com uma linha de montagem, onde o pobre iniciado entra para que receba todo o tipo de inputs que farão dele os cinco por cento dos afortunados deste planeta.
Planeio continuar com os hábitos da minha “Manhã milagrosa”: são positivos, validados e ajudam-me a crescer. Mas, conhecedor das minhas fragilidades, temperarei tudo isso com um grão de sal, pedindo ajuda ao cozinheiro para apurar a peça: só ele dá o sabor e a graça.

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Maioria e minoria

(a propósito de um artigo de Pedro Mexia no jornal “Expresso”)

No jornal “Expresso” do passado fim de semana, li e guardei um artigo de Pedro Mexia. Nele expressa o seu ponto de vista sobre o que é estar em minoria e em maioria. Ao ler o artigo percebo que o seu autor se situa na vida a partir do lugar da minoria.

Esse é sempre o lugar mais difícil: estar do lado oposto àquele em que a maioria das pessoas se situa. Há um força, uma pressão, invisível, forte, prepotente mesmo, que nos empurra para o lugar onde toda a gente está. De forma muitas vezes inconsciente, exercemos vigilância sobre tudo o que mexe e que pode ser uma ameaça ao ethos da maioria: mandamos uma piada, devolvemos um olhar, tomamos uma atitude relativamente aos “dissidentes” que fazem parte da minoria.

Gosto muito daqueles que têm a coragem de estar do lado da minoria. Essas pessoas são raras, mas são corajosas. Não receiam abandonar o grande grupo onde todos se assemelham e fazem um caminho pessoal de afirmação daquilo que para si é importante na vida, sem o receio de desagradar à maioria.

No artigo que citei acima, o autor não receia estar do lado da minoria na forma contida, pessimista mesmo, como entende a vida. Não partilha o frenesim insano, esta obrigação tácita de viver e transpirar uma felicidade fabricada e artificial:

“Sou tragicamente minoritário na crença de que o sentimento trágico da vida faz muita falta.”

Já neste blogue tenho escrito que desconfio da visão carnavalesca da vida, que grassa como epidemia. É curiosa e provocadora a constatação de Pedro Mexia que o sentimento trágico faz falta à vida. Esta orgia de felicidade não respeita nem faz justiça a tantos dos nossos contemporâneos que lutam por sobreviver e manter a cabeça à tona. Tão pouco é realista face à imprevisibilidade da vida que nos leva por onde não queremos nem pensamos.

“Prefiro a melancolia à farsa, a subtileza à proclamação, os epílogos verdadeiros aos finais felizes, e não creio que esteja em maioria.”

Preferir a melancolia à farsa: assumir que os nossos dias são também nimbados por emoções que dizem pouco a uma alegria e uma felicidade que são postiças, fabricadas para se pertencer ao cortejo alegórico.

Vivemos numa sociedade em que berramos, de formas mais subtis ou primárias, o grande grito: estou aqui! Que interessante a preferência pela subtileza, essa forma quase enganadora de dizermos o que pensamos  sem levantar a voz, sugerindo apenas.

Ah… o  caminho menos percorrido de que falava o poeta Robert Frost… É, sem dúvida, um caminho silencioso, como se diante das festividades da cidade com a população toda na rua, aquela pessoa se decidisse silenciosamente regressar a sua casa, ao seu mundo, ao seu espaço, ao seu lugar, à sua respiração.

Ela não mudará o que quer que seja, mas a verdade que procura para a sua vida, a consonância consigo mesmo é alimento suficiente para que siga por esse caminho silencioso, repleto de árvores e frescura e luz.

MAIORIA MINORIA
Toda a gente prefere as maiorias, mas alguns orgulham-se de estar em minoria. A minha experiência é que estar em maioria ou minoria é uma contabilidade que anima ou assusta, mas não esclarece. Como exercício, comecei então a anotar num caderno as minhas concordâncias e dissensões, ou algumas delas.
Socialmente, sou um burguês, como a maioria das pessoas que conheço, mas não me dou ao trabalho de fingir que não sou, como uma minoria dos burgueses que conheço. Sou da maioria católica, maioria muito vaga, sociológica, e de uma minoria que julga que o catolicismo é uma metafísica e não uma intendência. Não me sinto especialmente patriota, mas sinto-me sem dúvida português. Ideologicamente, sou uma minoria sem expressão em certos meios que frequento e uma larga maioria noutros dos quais fujo. Sou da antiga maioria, agora em colapso, que abomina os extremos. Em eleições, já acompanhei 60% e 0,6% dos eleitores. Integro maiorias alargadas no desprezo por determinadas figuras contemporâneas, mas não me reconheço nos heróis mediáticos mais celebrados, oportunistas uns, outros fundamentalistas. Defendo conceções que a maioria considera um defeito, como o conservadorismo e o pessimismo. Não me lembro de ter sido alguma vez atraído para uma posição maioritária porque me sentia desconfortável em minoria, mas lembro-me de me sentir desconfortável.
Sou tragicamente minoritário na crença de que o sentimento trágico da vida faz muita falta. Tenho um catálogo minoritário, e estranho, de categorias humanas que abomino, como os cátaros e os filisteus. Sou da minoria que considera a auto-estima uma auto-ilusão. Sou de uma maioria sexual e de uma minoria emocional. Como a maioria das pessoas, identifico-me com a época em que vivo, mas, como uma minoria, nem sempre. Não partilho de muitos gostos maioritários, estéticos ou outros, mas estou sempre a descobrir imensas minorias. Prefiro a melancolia à farsa, a subtileza à proclamação, os epílogos verdadeiros aos finais felizes, e não creio que esteja em maioria. Estando a mais de meio da vida, sou maioritário junto das gerações mais velhas e minoritário junto das mais novas em dezenas de assuntos, o mais importante dos quais é a privacidade. Não sou ludita, mas não tenho nenhum deslumbramento pela tecnologia. Não suporto novilínguas, nem as mercantis nem as ativistas. Sou da pequena minoria que não acha que em matéria de ortografia “tanto faz”.
Estar em maioria reforça o ego e enfraquece a lucidez. Estar em minoria traz uma certa distinção e uma certa solidão. Mas se as maiorias ou as minorias nos ajudam com as preferências, não nos ajudam com as certezas. Estou com a maioria no apreço por uma certa ideia de decência comum, mas vejo-me minoritário em matérias como a deontologia dos ex-amigos ou a vingança. Tendo para uma tonalidade elegíaca e sei que há uma minoria que se reconhece nisso.
Simpatizo com línguas minoritárias, facções minoritárias, nações derrotadas, heresias, votos de vencido. Como a maioria, aprecio a coragem e a empatia; como a minoria, valorizo a delicadeza e a gratidão. Penso mais ou menos como a maioria dos homens quanto às mulheres e quase sempre o oposto da maioria das mulheres quanto aos homens. Por vezes, faço parte de maiorias que me prejudicam.
Uma das frases que mais me impressionou até hoje diz: “Na luta entre ti e o mundo, apoia o mundo.”

Utopia

A palavra utopia é de origem grega e significa, literalmente, “não lugar”, lugar nenhum. Foi cunhada Tomás Moro, no livro que escreveu precisamente com o mesmo nome.

Antes e depois dele, e em contextos diversos como  o político, religioso, cultural, tem sido apresentada esta ideia de um futuro lugar ou sociedade em clara rutura com o tempo presente e na qual uma nova realidade emergiria. Houve várias tentativas ao longo da história de criar esse novo lugar e que surge não de uma evolução, mas de uma radical transfiguração do tempo presente.

Enquanto lia um texto sobre este conceito de utopia tive dois pensamentos.

Em primeiro lugar, perguntei-me de que forma os meus contemporâneos pensam, ou não, que se processa o evoluir da História. Talvez, antes disso, possamos perguntar se temos consciência que existe um movimento ou direção em relação a algum ponto último. Poderíamos dizer que associamos a evolução ao desenvolvimento tecnológico ou científico. Assim, todos acreditamos que estamos cada vez melhor e que, com o passar do tempo, os problemas que nos afligem irão sendo resolvidos. Estamos aqui a assumir que a história tem um direção e que nessa direção passamos de um menos para um mais. Penso que a crença iluminista e positivista subscrevem esta visão: a razão humana é, por si mesma, capaz do progresso.

Também há quem possa defender que a história apenas se repete ciclicamente: o que foi, voltará a ser e a humanidade não conseguirá quebrar essa repetição. É uma visão tentadora, tanto mais que olhamos para a natureza humana com os seus erros e hábitos e parece-nos que os mesmos movimentos e mecanismos de pensamento do ser humano se repetem desde sempre.

Pode, ainda, haver quem pense que caminhamos entre avanços e recuos: progresso e atraso, evolução e barbárie, apogeu e decadência. Em que ponto estaremos nós hoje? Estamos a evoluir ou em processo de queda livre? Será possível que essa dualidade se aplique de forma diversa conforme os diferentes domínios da vida?

Em todas estas situações, para quem pense nelas, existir não é apenas uma soma desconexa e justaposta de dias e de acontecimentos: há um fio condutor que liga a existência e lhe dá algum sentido de orientação.

Em segundo lugar, o conceito de utopia remete-nos para a ideia do fim: para onde caminhamos? Se perguntarmos ao poder político para que fim último tendem as suas medidas, ele dirá que para a sociedade de bem estar, de justiça, prosperidade e segurança. São fins nobres ainda que longínquos. Teremos nós como sociedade algum norte orientador e polarizador? Teremos nós alguma visão de um “para onde” dirigir os nossos passos? Ou basta-nos o desígnio individual que move cada uma das nossas vidas  particularmente consideradas?

O crítico e ensaísta George Steiner tem uma frase, cujo sentido não estou certo de que se aplique ao que acabei de escrever, mas que não hesito em forçar: “We have no more beginnings“: teremos nós esgotado as histórias que possam dar sentido e direção aos nossos passos, quer como cidadãos individualmente considerados quer como povo, como sociedade? Deveremos fazer um “downsizing” das nossas expectativas e fazer como se diz “comamos e bebamos que amanhã morreremos”?