As palavras, sempre as palavras

“Robustece o coração e continua a caminhar.”

(Ben Sirac 2, 2)

Já tiveste com toda a certeza um momento em que soçobraste. Ali voavam acima e rente à tua alma, palavras que te atingiram como balas. O mundo fechou-se, uma noite desceu tão rápida como um pinheiro cortado tombando no chão. E ali estavas tu, inerte e à mercê, enquanto o carnaval macabro desfilava diante da tua alma. Recordaste a criança que em tempo foste, essa que sempre te acompanhou nas tuas dias e vindas, enquanto, disseste-o, lutavas “para ser alguém”. E lá foste cinzelando, golpe após golpe, o teu percurso, a tua verdade, a superação os teus limites.
No fundo sabias que, quando menos o pensasses, o vale das sombras cairia sobre ti. A criança apenas queria regressar a casa, ao calor do lar, do colo, a segurança firme diante de todos os medos.
Sem o saberes, o teu coração em desalinho, desconjuntado queria a palavra que alevanta.
A tua avó tinha dito que o mundo era habitado por palavras invisíveis, palavras que flutuavam nos ares, percorriam os espaços, reinavam no mundo. Todas brotavam da mesma fonte, jorravam incessantemente. Na altura, achaste estranho que, enquanto subias a rua terrosa molhada pela chuva, pudesses ser envolvido pelas palavras invisíveis, melhor, que alguma entrada que não descortinavas, te desse acesso a um outro mundo, bem dentro do mundo que era o teu.
O que não sabias, é que essa era a terra da verdade. Como insetos agitados dentro de um frasco, ansiosos por sair, o teu espírito procurava o caminho da liberdade. E ela, estranhamente, estava bem defronte de ti. Não precisavas mudar as tuas idas e vindas, procurar um guru, ler o último livro, encontrar o primeiro pensamento chegado.
Exatamente onde estavas, ao teu dispor, permanentemente, a porta estava ao alcance da mão. Se a abrisses, as palavras da redenção viriam ao teu encontro como as borboletas na mais preciosa das manhãs primaveris. Palavras de consolação, mas palavras cortantes como espada afiada: em rigor, as palavras do reino da verdade.
Bem sabias que a tua vida tinha estado tingida de sombra, breve como o vapor. Os teus olhos viam, as tuas mãos tocavam, falavas e cantavas, construías a tua segurança, esse calor tão amigo e tão fugaz, mas sabias que as palavras aéreas não habitavam os teus dias com som, luz, cor. Era sempre e só preciso abrir a porta: a terra da verdade onde as palavras, a palavra, te traziam de volta ao primeiro dia, o dia da plena comunhão.
Murmuraste: “Envolve-me com o teu amor” e as palavras, silenciosamente, fizeram o resto.

A voz aos amigos (XXVIII)

Quem me conhece um pouco mais que apenas circunstancialmente sabe como me são caros os recomeços. Por um lado, sempre foram por mim tidos como oportunidades, como refazeres ou, mais importante ainda, como reseres, deitando fora tudo o que em mim se vai acumulando de detestável e desprezível, permitindo-me – ilusoriamente, claro – sentir-me um outro que não eu. Nesta perspetiva, o recomeço é prenhe de desejo de ressurreição, de Pessach, pleno de juras de melhoria e de projetos sonhados que me permitam, finalmente, transformar no Homem Novo que sempre anseio ser. À medida que a vida foi acontecendo fui percebendo que a esta minha Páscoa se sucedia, invariavelmente, não a vida nova da ressurreição, mas a condenação ao deserto dos velhos hábitos. Que afinal eram vãs as minhas promessas e que eu continuava a ser eu, apenas com mais algum tempo em cima. E, ao ritmo de sempre, marcava nova data no calendário, esta sim, agora é que vai ser definitiva, verdadeiramente transformadora de mim, conferindo interminável vida a este ciclo.
Se estes eram os recomeços que me eram caros, no sentido de queridos, agora permanecem caros, mas num outro sentido, o do custo da perda. Porque agora, nestes recomeços, me faltam presenças, falta-me gente. Faltam alguns companheiros de trabalho, que escolheram outros projetos, outras vidas. E faltam alguns dos miúdos com quem partilhei entregas e orações e cantorias e até dores e alegrias. Uns e outros vivem nesta altura a alegria da sua própria Pessach, com aquela mistura tremendamente viciante de expectativa, risco e ansiedade, devidamente potenciados pela enorme quantidade de adrenalina que faz os sonhos voar, e nós com eles. Uns e outros são gente que parte, que deixo de ver nos corredores, que deixo de cumprimentar naquela quotidiana quase indiferença porque sei que amanhã o poderei fazer novamente. Uns e outros são olhos que deixo de ver, são vozes com quem deixo de trocar gracejos e piadas de gosto duvidoso, são pessoas com quem deixo de aprender, todos os dias, a maravilha do complemento direto da diferença.
O que separa ambos os recomeços? O umbigo. O meu umbigo. Na verdade, os meus recomeços de mim são desilusões. Irredutíveis e inevitáveis desilusões provenientes do pisar o chão das minhas expectativas. Tão inevitáveis quanto a minha persistente dificuldade em perceber que eu não sou um jogo de computador, que não posso fazer um reset de mim próprio, como se hoje eu não tivesse nada a ver com quem era ontem. Porque a ideia não é recomeçar, mas transformar. Transformar evolutivamente quem eu sou em quem eu gostaria de ser. Sem cortes drásticos. Sem ruturas impiedosas. Sem ignorar aquelas partes detestáveis e desprezíveis de mim – que continuam cá por dentro – mas, pelo contrário, reconhecendo-as, valorizando-as, para que as possa transformar e a mim próprio com elas.
Os recomeços dos outros, dos que me habitam cá por dentro, são fonte de alegria. Porque, apesar da separação, é bom, muito bom, vê-los voar, testemunhar o seu crescimento enquanto pessoas de cabeça erguida, acompanhando à distância – e a distância hoje encurta-se de tantas maneiras! – os seus feitos e fracassos, rejubilando com uns e sofrendo com outros, sabendo que no final o que importa é que a bússola funcione em condições por forma a manter o rumo definido.
São-me caros, os recomeços. Sempre. São perdas e ganhos. São realidades transformadas e transformadoras. São oportunidades. São inevitáveis. São desejáveis. São, ao fim e ao cabo, o que nos faz despertar o desejo de crescer.
Recomecemos, pois.

Zé Pinho

Em louvor do “Banco dos Livros”

Toda a gente sabe o que é: um aluno que precise de livros vai buscar gratuitamente livros usados. Se quiser, pode deixar os livros escolares de que já não precisa. É uma fórmula simples.
No final do ano letivo passado e no início deste, fui algumas vezes a um “Banco de livros” que fica bem perto de minha casa. Destaco dois pensamentos que este projeto me suscita:
a) A lógica da gratuidade. Devem existir poucas áreas da nossa vida e, consequentemente, do nosso espaço mental, onde a lógica do preço e do lucro não esteja presente. Observo os meus pensamentos, não sendo eu ganancioso, e lá vejo como os meus juízos e critérios tem subjacentes esta coisa de “tudo ter um preço”, até nas relações humanas: “Do ut des” – dou para que me dês. “Não há almoços grátis” diz-se por aí em tom sábio.
E eis que, de repente, oferecem-se, sem contrapartida, os livros que o meu filho precisa: na prática oferecem-me centenas de euros. Que estranho… das primeiras vezes sentia-me meio usurpador: é isto? Chego aqui, peço livros e vou-me embora? Não me pedem livros de volta? De haver aqui “marosca” … E não é que não havia nenhuma? Pura gratuidade, nos livros e nos voluntários… Que beleza… pensei que há poucos exemplos visíveis de gratuidade e que este é maravilhoso. Alguma coisa da bondade do ser humano acordou em mim.
2) o segundo pensamento: o Estado não tem de ser a “vaca leiteira” para tudo e para nada. Quando uma, várias pessoas querem, podem mobilizar-se, organizar-se e dar origem a formas de associativismo, de projetos para se atingirem fins em comum.
Chama-se a isto o “princípio da subsidiariedade”: aquilo que pode ser decidido e executado a um nível mais próximo não o deve ser num nível mais alto ou distante. São as pessoas, as famílias, as associações, grupos e movimentos quem melhor sabe. O Estado, em Portugal, gosta desta dependência da sociedade em relação a si. Não somos muito ativos, a começar por mim, a organizarmo-nos em “pequenos batalhões”, como disse um pensador, para tratarmos do que é do interesse local e particular. Cai um ramo e lá vem o Estado.

O “Banco dos livros” assim como o “Banco alimentar contra a fome” são bons exemplos, entre outros, de como a sociedade civil se pode organizar. No passado sempre foi assim. Esta ideia moderna de organizar, planificar, sanitarizar tudo, por parte do Estado, tira energias e vitalidade à sociedade.
Obrigado, “Banco dos livros” e seus voluntários!

Navegar é preciso

Tenho procurado estabelecer objetivos para cada dia e, com algumas exceções vou conseguindo cumpri-los. É bem diferente estar sujeito às flutuações do humor e da vontade, de subjugar os apetites em proveito de um bem racionalmente percecionado como bom. É verdade que, no limite, ocasionalmente, deixo de lado objetivos e razões, mas, como regra, está bem assim.
Um desses objetivos passa por ler um livro por semana. É um objetivo difícil, sobretudo quando os dias estão cheios disto e daquilo, quando a mente anda ocupada e ler parece um luxo supérfluo. A verdade é que, quando algo se torna prioritário na nossa vida, lá damos uns encontrões aos nossos compromissos para que alguma coisa mais possa caber, como quem quer pôr mais um livro numa prateleira cheia. Em situações mais complicadas até viramos a nossa vida de pernas para o ar: visitas diárias e cuidado do pai ou mãe doentes, hemodiálise diária, fisioterapia, etc.
O caso do livro é bem mais prosaico e tranquilo. Há uma semana, defini como objetivo ler um livro numa semana, dividi as páginas pelos dias e hoje terminei. Como quero cumprir o objetivo, olho para o dia com uma lupa à procura de todos os interstícios onde possa ler; levo o livro comigo para onde vou; divido o dia em três partes e obrigo-me a ler x páginas em cada uma dessas partes. É artificial? É, mas comigo a espontaneidade faz poucos milagres e o curioso é que mesmo que não me apeteça ler, o apetite vem depois de forçar um pouco o início.
O livro que acabei de ler chama-se: Diário de um pároco de aldeia” do escritor francês Georges Bernanos, já comentado neste blogue pelo meu amigo padre Humberto Martins. Comprei-o há coisa de dez dias, em segunda mão, por dois euros e meio! É um livro arrebatador. Quando comecei, julguei que seriam notas adocicadas sobre um padre bondoso, ajudando os ignorantes aldeãos. Não. À medida que fui avançando, fiquei movido, tocado interiormente.
Encontrei reflexões profundas, provocadoras, desafiantes sobre a condição humana: o poder, a riqueza, a pobreza, os pobres, a miséria; a vida e a morte; as marcas que a educação e a infância imprimem no ser humano. Este jovem padre é uma alma apaixonada, mas simultaneamente atormentada entre a humildade da sua condição e a grandeza sublime da sua vocação. Pela boca de personagens com quem se cruza, desde um conde a um “motard” (daqueles tempos) saem reflexões intensas sobre a nossa condição humana.
E talvez seja isso mesmo: mais que um “livro cristão”, que o é, trata-se um retrato lúcido, cru e ternurento sobre a nossa passagem pela terra nas suas vicissitudes. Não me é fácil encontrar livros que sejam “uplifting” mas este puxou-me bem para cima.
E, agora, aqui vai outro que já comecei, não sei se para uma semana se para quinze dias porque é volumoso: “Historia de los métodos de meditación no dual”. A ver vamos, como diria o cego.

A voz aos amigos (XXVII)

A figura do padre na Literatura (6)

No final do seu romance com maior notoriedade – “Os santos vão para o inferno” – Gilbert Cesbron escreveu a data “Maio de 1951”. A pena deste escritor católico parisiense entra aqui pela problemática dos padres operários, lançando uma luz impiedosa sobre a miséria dos bairros da classe operária dos subúrbios de Paris do pós-guerra. Marcel, o bêbado que bate sistematicamente no filho; Ahmed, o magrebino, informador da polícia; Suzanne, a prostituta convertida; Henri, o camarada sindicalista… um mundo inteiro de exaustão, miséria e fracasso rodeia Pedro, o sucessor de Bernard, dos padres operários.
Com Pedro, os dramas e sofrimentos, os combates do bairro de Sagny, tornam-se nossos combates: ao tentar alojar e arranjar emprego, vamos também entrando nos dramas espirituais de homens que se questionam se a sua missão é simplesmente o assistencialismo. O evangelho feito vida por vezes em rota de colisão com uma igreja institucional. O pároco de Sagny representa essa Igreja institucional mais preocupada com a “preservação” do que com a ousadia ou as periferias. Pedro e Bernard não conseguem fugir à questão: será que tudo isto que fazemos é evangelização? Não será que tudo isto trai a vocação primeira que é sobretudo a de difundir a palavra de Jesus Cristo? Mas, também, não será que, sem esta incarnação do evangelho, não ficaria ele reduzido a uma ideia abstrata a um sentimento? Este é, portanto, um romance de fé e de dúvida, mas também se pode dizer que é um romance de compromisso: “não espero convencer ninguém… cada um se convence a si mesmo… já seria suficiente se abanasse alguns espíritos livres” diz Cesbron no prefácio.
Por isso, é também um romance de busca do que é a identidade, a especificidade de um carisma. O padre-operário, chamado pela miséria dos outros, sente-se impelido a ajudar, a desenrascar sem descanso. Porém a tentação, sempre à espreita, é ceder à organização, de construir “boas obras”, porque sabe que é preciso primeiramente salvar os corpos, caso contrário, não se pode sonhar sequer salvar almas (a dimensão sacerdotal). E, Pedro, depois de desenrascar pela enésima vez um tuberculoso moribundo, sempre em fuga dos hospitais, confessa: “devia ter pensado na sua confissão, mas só consegui pensar no hospital… fosse o pároco de Sagny, teria pensado primeiramente na confissão”. O padre-operário, encalhado entre este meio, no qual se “converteu” fazendo-o seu, e a Igreja tradicional “casa-se” com a causa operária a ponto de arriscar adoentar-se com ela e já não conseguir mais amar os outros. Mas os outros, apesar do seu afastamento, da sua injustiça, são, no entanto, também “os seus”, irmãos na fé e na Igreja, apesar de tudo.
E Pedro não se iliba de sofrer a contestação suprema: aquela de um camarada que o acusa de se passear somente pelo inferno de Sagny: “tu podes sair daqui quando o quiseres. Quando te cansares de nós, vestes-te de batina preta e partes para uma paróquia… Quando se sabe que podemos sair daqui isso muda tudo”. O novo arcebispo, ao chamar Pedro ao palácio episcopal vai-lhe pedir contas das suas “imprudências”: “quantos batismos, comunhões, casamentos, assistências à missa, quantas?” “Muito pouco, na verdade. Mas uma fraternidade…”, responde-lhe Pedro. E, agora, é-lhe pedido o supremo sacrifício, o da humildade… o “deslocado” será substituído por um padre que passe à fase da organização duma comunidade cristã que possa edificar, no concreto, esse ideal fraternal. E Pedro, parte, obedientemente!


Humberto Martins

“Para tudo há um tempo”

“Para tudo há um momento
e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu:
2tempo para nascer e tempo para morrer,
tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou,
3tempo para matar e tempo para curar,
tempo para destruir e tempo para edificar,
4tempo para chorar e tempo para rir,
tempo para se lamentar e tempo para dançar,
5tempo para atirar pedras e tempo para as ajuntar,
tempo para abraçar e tempo para evitar o abraço,
6tempo para procurar e tempo para perder,
tempo para guardar e tempo para atirar fora,
7tempo para rasgar e tempo para coser,
tempo para calar e tempo para falar,
8tempo para amar e tempo para odiar,
tempo para guerra e tempo para paz”

Eclesiastes 3, 1-9

Recordo-me das palavras de Séneca: “Toma cuidado contigo. Quando saímos de casa e depois regressamos, não somos exatamente os mesmos. Alguma coisa se perdeu nesse ‘comércio’ com o mundo. Há naturalmente ganho e riqueza naquilo que é dado viver ao longo de um dia, mas frequentemente chego a casa com o meu espírito dissipado. “Dissipado” significa que o espírito se espalhou, dispersou, interagiu em direções e centros de atenção díspares. Com tudo o que absorvemos ao longo de um dia, é natural que regressemos ao lar com o nosso espírito agitado e disseminado.
Deveríamos ter um ritual de entrada nesse final de dia. Às vezes bastam cinco ou dez minutos para desacelerar e encontrar o antídoto para a dissipação: o recolhimento. Recolher o que foi vivido, como a senhora que destranca as portadas de madeira e as fecha, assim como em seguida as janelas: começa um tempo novo, para dentro.
Um autor diz: “Entramos na noite como entramos num templo”. Infelizmente, perdemos a valorização dos ritmos e ritos diários. Acordamos, vamos trabalhar, regressamos do trabalho, fazemos a lida e aterramos no sofá ou na cama. Das muitas razões pelas quais frades e monges rezam várias vezes ao dia, é também para combaterem a compulsão pelo fazer, produzir e, rezando, marcar um outro tempo dentro do tempo. Para mim, o início e o fim do dia são momentos importantes, de intensidade distinta do resto da jornada. Não conseguiria estar bem se não tirasse tempo para me recolher, para recolher e para colher!
Não pense o paciente leitor que vivo num mosteiro: tenho filhos e família, trabalho, vou e venho e não me sobra muito tempo. Contudo, tomei medidas: cortei e semeei de modo a não viver engolido por um” tubo gigantesco que me suga” e onde a minha única saída é deixar-me ir, atordoado.
Sem querer “armar-me” em sábio, partilho duas palavras com que os gregos falam do tempo: o kairós e o chronos.
O chronos é o tempo chão, plano, habitual, monótono e repetitivo. São os nossos hábitos, rotinas, o nosso dia a dia, as horas do relógio. Aqui, parece que não há novidade, apenas o decurso linear e sem surpresa.
Já o kairós é a erupção no quotidiano de algo que modifica a nossa relação com os acontecimentos comuns e habituais de cada dia. Há uma intensidade nova, uma beleza e sentido. Parece que, nem que seja fugazmente, entramos numa dimensão outra e fecunda que nos ajuda a viver o chronos com mais vigor.
Há uma sabedoria no cristianismo, como certamente noutras tradições, em dividir o tempo: tempo comum e tempo de Advento ou de Quaresma ou de Páscoa; festas e solenidades litúrgicas e dias sem comemoração; dias da semana e domingo; no ritmo diário, o tempo para o trabalho e o tempo para a oração. No judaísmo, o Sabat é efetivamente devotado a Deus, cessando todas as atividades.
Não deixemos que sejam a pressão-para-fazer ou o ritmo vertiginoso da nossa sociedade a definirem o nosso ritmo pessoal. Tentemos, ainda que timidamente, um ato de insurreição criando rituais diários, semanais, mensais consonantes connosco mesmos, com o cosmos, com o Transcendente.

Adeus férias!

As férias estão a chegar ao fim. Em breve retomarei o trabalho, com o seu ritmo, o seu desgaste, mas também gratificação. Ocupa um lugar importante na minha vida, pela sua duração física, mas também pelo espaço emocional e interior: ter no centro do trabalho pessoas, a maior parte em formação, não pode deixar de me envolver em profundidade.
Recordo-me há muitos anos como queria “agarrar” o mês de Agosto; como me sentia tranquilo e seguro nos primeiros dias – um mês parecia uma eternidade! A pouco e pouco o tempo ia avançando e os dias escapando entre os dedos. Lá chegava o final do mês e o trabalho a chamar.
Nos tempos mais recentes, a forma de encarar e viver as férias mudou significativamente. Não fiz nenhum propósito particular, não houve nenhuma frase inspiradora ou livro arrebatador.
Quando chegam as férias vou vivendo cada dia, sem querer dominar o tempo. Não faço grandes contas aos dias que passaram ou aos que faltam ainda decorrer. É claro para mim que tudo passa nesta vida. É insensatez querer agarrar o que quer que seja. Naturalmente que o tempo de descanso e despreocupação (mas como temos sequer a certeza de que as férias serão despreocupadas?) me agrada, mas sei que as férias são boas porque trabalho.
Para além disso, faça o que fizer, vá para onde for durante o mês, é para mim absolutamente claro que é um mês de privilégio: tive tempo de descanso, pude fazer aquilo que queria, tive a família e amigos bem e em segurança. Penso nas pessoas que não podem ter férias, nas que têm, mas não podem sair do sítio onde vivem, naquelas que escolheram o que queriam, mas a quem algum percalço, problema ou mesmo drama tudo roubou num instante.
O tempo de férias é também altura para pensar no que passou e fazer propósitos de mudança ou crescimento. Para mim, é continuar a cuidar e regar uma das minhas frases preferidas: “hold on to the center”: definir o que é importante, melhor, decisivo na minha vida e lutar com unhas e dentes por isso. É um combate e, sem esse combate, a entropia se encarregará de levar este pedaço de madeira para terra de ninguém.

Thomas Keating e a cura pela contemplação

Acabei de reler o livro: “Invitation to love”, do monge trapista Thomas Keating. Considero-o um dos grandes autores espirituais do nosso tempo. Nesta obra, procura mostrar a importância e a necessidade de cada cristão desenvolver uma vida de contemplação (ou mais modernamente, de meditação). Não há aqui qualquer sombra de reflexão adocicada ou piedosa, mas um exercício profundo, documentado e sábio do que é a pessoa na sua “condição humana”, na sua necessidade de uma “terapia divina” como caminho para a cura interior do nosso ser mais profundo. De forma muito interessante, Keating recorre à Psicologia para aprofundar e alargar a sua reflexão bem como para tornar a linguagem mais acessível ao leitor, sem o vocabulário teológico, por vezes hermético e, muitas vezes, afastado da sua compreensão.
O autor começa por afirmar que mais ou menos aos sete anos está em vias de se formar em nós um “Programa emocional de felicidade”: o crescimento em nós de necessidades instintivas de sobrevivência/ segurança, afeição/ estima ou poder/ controlo os quais se convertem em centros de motivação à volta dos quais gravitam os nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos. A partir daí, toda a nossa vida será construída em obediência a esse programa a que toda a tradição religiosa, mística, oriental e ocidental chama o “falso eu” ou o “ego”. Este “falso eu” é forte e prepotente e opera sob o radar da nossa consciência. Somos “vítimas” de emoções inconscientes que moldam aquilo que entendemos por felicidade e condicionam, sem o sabermos, a forma como estamos na vida. O que é, então, essa mudança? Não é seguramente uma mudança moral, tantas vezes caricaturada dos nossos comportamentos, mas querer procurar a nossa felicidade noutro lugar.
Thomas Keating afirma que podemos reconhecer os nosso programas emocionais de felicidade pelas emoções aflitivas que são espoletadas em nós e que são, resumidamente: raiva, tristeza, medo, orgulho ganância, inveja, luxúria e apatia. Afirma, de forma cortante, que existe algo de seriamente errado como a nossa escala inconsciente de valores. Afirma: “A resolução consciente para mudarmos os nossos valores e comportamento não é suficiente para alterar o sistema inconsciente de valores do falso eu e o comportamento que engendra. Apenas a purificação passiva da oração contemplativa podem operar esta cura profunda”.
Muitos de nós transformamos a moral cristã num voluntarismo estéril. Usando uma metáfora proposta pelo autor, nós apenas conseguimos com o nosso esforço cuidar um pouco deste e daquele ramo da árvore que somos nós, mas há uma cura, limpeza e regeneração das raízes e da seiva, as quais não podem proceder de nós. Posso tentar controlar a raiva que tenho em mim, mas não consigo curar o impulso primeiro dessa mesma raiva.
É sério o caminho proposto e duro o diagnóstico. Como tenho escrito neste blogue, vivemos de expedientes “delico-doces” sobre quem somos, mas se olharmos com verdade para nós e para o que se passa à nossa volta, “disfuncionalidade” é uma palavra consonante com a realidade.
Ah não sejas pessimista” dirá o leitor. Não se trata de ser pessimista, mas realista. Só depois do diagnóstico feito, teremos a calibragem certa para conhecer a nossa sombra e a nossa luz.
Aquilo que alguns autores espirituais contemporâneos como Thomas Keating, Richard Rohr, John Main ou Roger de Taizé, propõem é reintroduzir a dimensão contemplativa na vida cristã como caminho de regresso à nossa condição humana, não mascarada pelo ego, mas sadia e apta a desenvolver todo o nosso potencial. S. Ireneu disse-o: “A glória de Deus é o homem vivo”. Mas, para isso, é preciso querer iniciar a longa viagem de regresso a casa, onde somos esperados, curados e alimentados. É um pouco isto…

A “força do destino”

As “moiras” gregas

Esta expressão traduz uma realidade subterrânea que me habita e, creio, habitará o estimado leitor.
A um nível mais à superfície (e não superficial), diria que todos somos seres dotados de razão e inteligência; fazemos escolhas e tomamos decisões pesando os prós e os contras de acordo com a nossa perceção, a informação que temos disponível, a cultura, a sociedade e o meio social em que nos inserimos. Por regra, desconfiamos de decisões impulsivas, precipitadas ou intempestivas.
Como filhos do Iluminismo e Positivismo que somos, olhamos para o mundo e encontramos nele ordem, regularidade nos seus ritmos e ciclos. Não acreditamos no pensamento mágico. Estamos confortavelmente apoiados na ciência que vai progressivamente explicando aquilo que, em tempos remotos, era atribuído ao Transcendente, a forças mágicas ou obscuras.
Considero-me uma pessoa deste tipo, tirando ou pondo alguma coisa. E, no entanto…
… alguma em coisa em mim, para cá ou para lá do aparato racional, está vinculada ou presa ao destino.
O destino, o “fatum” latino ou a “moira” grega, é simplesmente a crença que existe uma força cega e arbitrária, exterior a mim que me comanda e à qual não consigo escapar. É assim que na mitologia grega, Édipo não consegue fugir ao destino que escreveu que iria matar o pai e dormir com a sua mãe. Ele bem tenta fugir, mas o “destino estava traçado”. Saltando no tempo para o século XX, o filme: “Os agentes do destino” falam de um candidato destinado a ser presidente dos EUA e que luta contra o destino em nome de amor que descobre e vem altera os planos, traçados precisamente pelos “Agentes do Destino”.
Através de dois exemplos bem distantes no tempo, é para mim claro que este tema, de tão profundas consequências na liberdade e livre-arbítrio da pessoa, é demasiadamente sério e duradouro, para que não se possa refletir sobre ele.
Ainda assim, não quero nem tenho a pretensão de poder discorrer sobre o destino, muito menos trazer algo de novo à reflexão. Gostaria apenas de partilhar que, apesar de racionalmente ser claro como a água que não acredito no destino, tanto mais que, como cristão, Deus me criou livre – ainda assim, sei que sou atravessado por pensamentos ou impulsos que “prestam culto” às Moiras gregas. Noto isso quando instintivamente acho que o que irá suceder ocorrerá de forma previsível, repetindo o que já aconteceu; quando olho para a História, o desenvolvimento e progresso da humanidade e parece que existem forças cegas que escapam ao poder humano e divino e que sussurram que não existe direção ou orientação, mas apenas acasos erráticos e sem sentido.
Não sei se nós, portugueses, seremos um caso particular com o nosso “Fado”, mas conheço muitas pessoas que dizem “estava destinado” sobre um dado facto, normalmente uma tragédia.
O Iluminismo e o Positivismo trouxeram o grande império da razão, destronaram a fé e a superstição. A verdade, porém, é que a nível pessoal e no inconsciente coletivo perduram forças rebeldes, cegas, crenças irracionais que tornam bem mais problemático o papel da razão e abrem campo a outras realidades. O leitor tem alguma opinião sobre isto?

“O fio da navalha” e “Crime e castigo”

Durante estas férias de verão tenho estado a ler estes dois livros. O primeiro, em papel. O segundo, em formato digital. Neste caso, com a vantagem de ter podido baixar toda a coleção de livros de Dostoievski de forma gratuita. Que tempos afortunados, estes que vivemos!
Começo pelo “Fio da Navalha”, cujo autor é Somerset Maugham. O livro é narrado na primeira pessoa, sendo o seu autor interveniente na narrativa e gira à volta de uma família norte-americana que vive entre Chicago e Paris. No centro da narrativa está Larry Darrell. Socorro-me de uma breve sinopse retirada desse site benemérito chamado Wikipedia: “A vida do aviador Larry Darrell muda para sempre quando um amigo e colega de combate morre ao tentar salvá-lo. O inexorável mistério da morte leva-o a questionar o significado último da frágil condição humana e a embarcar numa obstinada e redentora odisseia espiritual.” Maugham descreve os seus encontros e desencontros com Larry, as longas conversas com ele. Narra, também, as relações que estabelece com os membros da família de Isabel, com quem Larry acaba por não casar, por força, precisamente, do seu questionamento sobre a existência que leva, que quer levar e pelo desencanto com o estilo de vida que o casamento suporá. Há muitos aspetos interessantes e diversos ângulos de análise. O percurso espiritual do protagonista lembra alguns personagens de livros de Herman Hesse. Pessoalmente, gosto sempre de ler sobre personagens ficcionais ou reais que mostraram desencanto com o modo de vida das pessoas que viam à sua volta.
Uma parte considerável dos diálogos passa-se em Paris e na Riviera. Nesta última, vive o autor do livro e contacta frequentemente com um tio de Isabel, a quintessência do chic, do luxo e da vida social. Embora não pertença a esse ciclo nem o cerne do livro sejam as deambulações artísticas do escritor, dá para perceber que ele se move com facilidade nesses meios. Fica-se a perceber o que eram, nos anos trinta, os círculos sociais mais aristocratas e finos. O autor descreve muito bem todo esse ambiente, desde o vestuário, aos restaurantes, salões, casas e receções. Confirmo a impressão que tenho sempre: círculos muito fechados e sofisticados. Ali estão as constantes da natureza humana: ver e ser visto; o dinheiro, o prestígio, o poder, o sucesso, a aparência por oposição ao genuíno.
É um mundo “visto de cima”, a partir dos vencedores, dos “ricos”, dos detentores do poder. Ao longo do livro, é gritante o contraste entre a procura existencial que Larry faz e este mundo da “upper class”. Ainda assim, é interessante como ele se move nesse mundo, presente mas ausente, sorridente mas distante.
No outro extremo da escala social, em “Crime e castigo” está o mundo onde Raskólnikov, um estudante revoltado e a viver miseravelmente, se desloca. Resumidamente, a obra relata os crimes cometidos pelo protagonista e todo o processo interior de culpa e expiação por que passará. Dostoievski descreve de forma crua o mundo desta “gentalha”: a miséria moral das personagens, a violência, as habitações exíguas, toscas e gastas, as roupas andrajosas do personagem principal. São descrições muito vívidas da miséria em que vivia uma parte da população russa no século XIX. Uma classe social a que ninguém deitava a mão, nem mesmo o Estado, entregue a si própria, indefesa e à mercê dos piores instintos do ser humano. O livro é um retrato muito duro de uma realidade que continua a existir, em relação à qual é difícil a um acomodado cidadão como eu aceder.
O paciente leitor já está a ver onde me levou a leitura que estou a fazer de ambos os livros: a vida, olhada de dois lugares diametralmente opostos: o glamour de uma receção para cem pessoas dada pelo tio de Isabel e o pequeno e sórdido quarto onde Raskólnikov arde em febre deitado num sofá velho, vestido com as suas roupas coçadas.
É forte, pervasiva e quase omnipresente uma das narrativas. A outra é pouco visitada. As duas chocalham na minha cabeça dividida entre a ignorância e a lucidez.