Um exercício

Vejo cinco casas. Uma delas recebe luz da parede lateral. Na parte da frente da imagem uma árvore de pequeno porte, praticamente despida. Por cima da casa mais iluminada, uma outra árvore cheia de folhas que também recebe luz do mesmo lado que a casa. Duas das casas possuem chaminé.


A imagem é noturna. Não se topa qualquer humano. Tudo parece calmo, silencioso, ordenado. As linhas geométricas das casas dão essa sensação de ordem e previsibilidade.


Certamente tratar-se-á de uma aldeia. Viverá lá alguém? Pela imagem, não há nada que indique a existência de vida, rotinas, sinais de que algo possa bulir.
Reparo no jogo do claro e do escuro: apenas a parede da casa e a copa altaneira da árvore recebem uma luz que vem da direita. Que luz poderá ser esta? Natural ou artificial?


Que terá pretendido o autor deste desenho? Descrever a calma da vida no campo? (E porque será no campo?) Será uma cena irrealista, geométrica, fria e sem vida? Ou antes um apontar para um centro de luz, de calor, gerador de vida e que escapa ao olhar do observador?


Quando vi esta imagem atraiu-me a depuração das linhas, a geometria, a ordem, a previsibilidade. A composição dos objetos pareceu-me quase intuitivamente apontar para um tempo e um lugar não históricos. Não será propriamente idílico ou arquetípico, mas ainda assim algo de irreal que aponta para um lugar fora do tempo e isso agrada-me: como se houvesse, flutuando, um ponto que me acompanha e me chama sempre para fora das vicissitudes e contingências do dia, em direção a um lugar que é sempre um não-lugar, não-lugar esse que é anterior à história, à consciência, à moral. Algo semelhante ao ventre onde um bebé é apenas proteção, calor e amor.

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