Platitudes XIV

  1. O Salmo manda-me “Cantar um cântico novo”. A Palavra de Deus, oferecida em cada dia é o maior inimigo dos pensamentos, os obsessivos, o orgulho, aqueles que oferecem uma mundivisão determinada pela minha educação e pela ditames do mundo. Portanto, hoje, a palavra, manda-me cantar um cântico novo. Não apenas me manda cantar, mas manda-me cantar algo novo.
    Se alguém me aparecesse aqui a dizer para eu cantar acharia bem estranho. Diria:
    Que razões tenho eu para cantar?
    Como posso cantar se tenho esta e aquela preocupação?
    Como posso cantar se me sinto indigno, se sinto em mim vastas regiões lunares de desconfiança, de ressentimento, de medo, de indignidade?
    Ainda assim, devo cantar. Canto, não porque as circunstâncias tenham de ser favoráveis; ou porque sinta alguma coisa; ou que me considere digno. Canto porque me fundo na Palavra, porque o anjo que mandou José levantar-se a meio da noite e a partir com o menino para o Egito, mo ordena. E eu apenas tenho de obedecer.
    Levanto-me no meio da noite para te louvar”. É esta a vocação do buscador.
  2. A ler “The old ways”, de Robert Macfarlane: quando nos sedentarizamos estaremos a perder algo que apenas o contacto prolongado com a natureza pode dar? Será a vida rotineira e sem novidade a evitar? Estará o ser humano feito para o nomadismo e as caminhadas prolongadas e vigorosas?
  3. É fácil estar contente e sentir-me protegido nesta tarde, aqui na sala, com silêncio e a lareira. É fácil ocultar que este mundo é profundamente problemático. Mas que posso fazer? Não creio que a má consciência seja a solução. Muito menos dizer que enquanto houver sofrimento no mundo não poderei desfrutar de nada. Por outro lado, murar-me também não é justo nem verdadeiro. Como posso estar alerta? Qual o posicionamentos justo diante do sofrimento? Recentemente, soube de um filho de pessoa amiga dependente da droga. Que grande será a dor dessa mãe. Este facto fala, tem uma linguagem e um desafio. Ao saber dele o que me diz? Está a deslocar-me do lugar existencial onde me encontro, da mesma forma que um livro ou um filme me põem a pensar. O encontro com o sofrimento, próprio ou alheio, implica sempre o “regresso por outro caminho”, como os magos, depois de ter visto o Salvador.

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