Pedir o incêndio

“É preciso pedir o incêndio”, disse-me, com o olhar meio perdido no chão que fitava, mas com o tom de voz de quem viu coisas. Como não poucas vezes sucedia com ela, eu estava consciente que algo de grave e fundo fora lançado para fora da alma. Queria perguntar, pedir uma explicação, mas sabia que nada adiantaria. Explicar equivaleria a deixar que o cérebro se apoderasse de uma verdade fugidia e atrevida, que a domesticasse com prós e contras, que a manietasse.


Então era preciso pedir o incêndio… que vem essa palavra fazer a este dia, a esta tarde cinzenta e preguiçosa? O mundo não está sossegado, bem sei (Yeats: “While the world is full of troubles/ And anxious in its sleep”) mas lá tenho, e tantos como eu, encontrado formas – herdadas umas, cozinhadas, outras – de aniquilar esse ruído ensurdecer do clamor inaudível do sofrimento humano. “Paramentado com ideias de circunstância” (Ruy Belo) lá vou sobrevivendo no meio do caos, murado pelo pensamento, defendido infantilmente pelo pensamento, pelas razões, pela lógica. Mas, eis que que o choque de realidade sempre entra por uma qualquer fresta e rebenta com tudo, com a frágil e ilusória armadura contra os dias e a dor.


“Pedir o incêndio…” Outro poeta, Daniel Faria, pediu a propagação do amor no “coração paralítico”. Ele sabia do frio que assola os corações humanos, apesar de tanto esbracejar a caminho do bem. Sim, era preciso pedir o acendimento do grande fogo, as chamas avassaladoras que tudo consomem à sua passagem. O espetáculo tremendo e fascinante da luz, do calor, da transmissão de tudo com tudo, lavrando, destruindo e purificando à sua passagem. Sim, era urgente trazer a este dia, a mim e a esse e àquele, a cor, a energia inesgotável da beleza, a corrente assustadora da lava incandescente, tudo ardendo, tudo renovando, tudo renascendo.


Espantado, ouvi a voz do profeta no coração da cidade alheada: “Oh, se rasgasses o céu e descesses!”

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