After life

Pessoas aos trambolhões. Assim posso descrever o fio que une as diferentes personagens da série “After life”. A linguagem é rude, aparece muitas vezes a f*** word. Há personagens estranhos como o carteiro ou o rapaz gordo que estagia no jornal local. Ainda mais estranho o psiquiatra e o seu estilo gingão e heterodoxo de ajudar o paciente. Anda por lá um prostituta e uma criança na escola a ver-se livre de bullies.

E, claro, a personagem principal Tony (Ricky Gervais) que faz o luto da morte da sua mulher e companheira de uma vida. Ao longo da primeira temporada acompanhamos os primeiros tempos depois da morte de Lisa, a vontade de deixar de viver, a irascibilidade dirigida a todos os que estão à sua volta.

É bem provável que apareça por baixo do episódio “linguagem obscena” e outro epítetos que alertam o telespectador para o que vai ver. Poder-se-iam adicionar gestos obscenos, divórcios, taras sexuais, bulimia, assédio sexual, a lista seria longa. Portanto, “do ponto de vista estrutural e estruturante”  (como ouvi recentemente a um comentador desportivo), esta seria uma série a evitar.

A verdade é que “After life” é uma série profundamente humana e ternurenta. Por baixo da linguagem e dos comportamentos “pouco ortodoxos” correm os personagens tateando alguma coisa que dê sentido, força, beleza e felicidade às suas vidas. De forma desajeita e tipicamente inglesa, eles lá vão tentando oferecer “a helping hand” a quem sentem que dela está precisado.

Por isso, há duas formas de olhar para a trama narrativa: se virmos por “fora”, diremos que é uma série amoral, obscena, disfuncional. Mas se conseguirmos vê-la a partir de “dentro”, temos um retrato daquilo que é a humanidade: pessoas desesperadamente procurando um sentido; pessoas que oferecem, entre encontrões e emoções contidas, uma boia de salvação.

Dando um salto fora para depois regressar: o Papa Francisco comparou a Igreja a uma hospital de campanha: no horror da guerra, ali se curam as feridas dos combatentes, algumas graves sérias e, no limite, ali se ajuda a morrer com dignidade. Porque não comparou o papa a Igreja a uma…Igreja? Penso que uma possível resposta é a de que Francisco tem a aguda perceção que, à semelhança dos personagens da série, também nós somos pessoas feridas que tateamos algum caminho, lugar ou regaço  onde o amor possa curar o nosso coração ferido. E isto é o fundamental. As “pessoas da Igreja” devem ser os médicos e enfermeiros prontos a oferecer alívio para os feridos pela existência caídos e cambaleantes.

O Papa mais não faz que aquilo que Jesus fez: encontrar as pessoas pelos caminhos e salvá-las, isto é, restituí-las à vida. Também encontrou crianças, pessoas a fazer o seu luto, prostitutas, gente de moral duvidosa, com estilos de vida capazes de arrepiar um crente piedoso. Ele não via as pessoas de “fora”, mas por “dentro”. Só ele sabia o quão extraviadas, sofredoras e sobrecarregadas estavam. E as suas palavras e os seus gestos dirigiam-se sempre para a cura da ferida aberta dos que encontrava.

Gosto do pensamento: “Ubi caritas et amor Deus ibi est”: onde há amor e caridade Deus aí está. Onde houver, nesta terra, um gesto de salvação, um gesto que restitui alguém à vida, Deus está presente e atuante. Encontrei muitos desses gestos em “After life.

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