A voz aos amigos (XXXVI)

O Padre na Literatura (XI)

“Debaixo de algum céu” – Nuno Camarneiro

Prémio Leya 2012, este “Debaixo de qualquer céu”, de Nuno Camarneiro, é o primeiro romance sobre o qual me debrucei, escrito originalmente em língua portuguesa e no qual aparece a figura de um padre.
Uma história são pessoas num lugar, por algum tempo” (p. 12). Este é um livro de histórias de pessoas, contadas em 7 dias, do dia de Natal ao do Ano Novo (os dias da criação), que vivem no mesmo prédio, mas que não conhecem suficientemente os dramas a gerar-se no apartamento ao lado. Mas, nem todos!
No terceiro esquerdo mora um jovem padre, Daniel. Na missa de Natal, evangelho do prólogo de S. João, “um padre tão novo e um mistério tão grande para explicar”. Pela porta entreaberta do seu apartamento, Daniel diz a Manuela, vizinha do segundo andar: “O escuro serve-nos para esconder o que não queremos ver, esperamos o dia e depois lavamo-nos com água e luz na esperança de alguma coisa nova. Mas não somos diurnos como queremos ser, Manuela, fundeamos a noite, e do pescoço para baixo somos só mistério.” A vizinha, mulher casada, mãe de um casal, tinha tomado a iniciativa de voltar ao apartamento do padre para reaver, pelo menos, o tabuleiro deixado com as sobras do assado do dia anterior, partilhado com ele, altura em que se envolveram sexualmente.
Daniel está doente de fé. Na noite, acende a luz para continuar a escrever palavras para dar a outros certezas que não tem; quer rezar e não se lembra de uma “oração daquele lugar” que seja; e faltam-lhe os sons “que falam a Deus como se fosse Ele a falar consigo, como um assobio”.
Atormenta-o o sacramento da confissão: “uma mulher conta um segredo a um homem à espera de que Deus a ouça e lhe perdoe […] coisa que se decide entre o pecador e o inventor do pecado”. Ao padre cabe-lhe ouvir, calar e viver com o horror dentro de si, sem castigo nem perdão. E Daniel não desiste: “Mas eu sou homem também, de pecados por todas as partes que se fundem com os alheios e, quando sonho, quando dispo os paramentos, quando vivo como os outros, acho-me incapaz de distinguir o mal que fiz do mal que escutei ou imaginei ou compreendi.” E usa uma analogia: “O lixo sai de casa e repousa no aterro onde é tratado e transformado, ninguém se preocupa com os contentores ou os carros de recolha ou os homens que o transportam. Mas é esse lixo residual, esse que se agarra às paredes e às mãos, a diferença entre o que produzimos e o que tratamos, é esse lixo que corrói os metais e a carne.
O padre Daniel sente-se envolvido emocionalmente com Beatriz, do terceiro direito, a mulher que perdeu a razão de viver, e que lhe pediu ajuda na confissão, e está pronto para deixar o seu Deus, de perder-se com ela, no seu abismo. Mas Beatriz quer ir ao fundo sozinha atrás de quem já antes partira.
Figura-ponte é Marco Moço, o velho lobo do mar, que juntou Daniel e David, do rés-do-chão, à volta duma boa caldeirada, o sacerdote do sagrado e o sacerdote do profano. Para Marco, “as religiões seriam perfeitas se pudessem dispensar os deuses, se os homens se despissem na rua sem precisarem de olhar para cima, rindo orgulhosos por serem donos da loucura e de palavras raras”. Em vez, Daniel, sempre a braços com as palavras certas para as suas homilias, escrevera num livro de poesia, oferecido precisamente a Beatriz: “as palavras são difíceis, mas são o que temos”.
Romance sobre gente como nós, que estamos perdidos, que nos deixamos embalar pela rotina, em dias todos iguais, a não ser que um relâmpago provoque um apagão e nos faça um autêntico “reset”. Paramos quando pressentimos algo no ar carregado de eletricidade, no prenúncio duma morte anunciada ou dum desastre que aconteceu mesmo ao nosso lado, no regresso para casa, e que nos faz lembrar que só se vive uma vez!

Humberto Martins

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