VI

1. Achei curiosa a expressão usada por S. Bento: “Pax perniciosa”. A paz perniciosa. Não sei se entendi corretamente, mas associei essa paz perniciosa aos momentos em que sinto que todas as variáveis à minha volta estão sob o meu controlo: casa e filhos, trabalho. Como se dissesse a mim mesmo: agora estou em segurança, agora está tudo bem. É uma paz perniciosa porque é mentirosa: é uma mentira que o ego me faz. Que sei do que me pode acontecer no momento seguinte? Tudo é incerto e imprevisível. É mentirosa porque quer abrandar ou fazer cessar o combate que sempre tenho de travar.

2. O meu pai gostava de citar a frase, que atribuía a Santa Teresinha do Menino Jesus: “A vida é uma má noite numa má pousada.” O “ar do tempo” reage a esta frase e às implicações que traz. Os meus contemporâneos vociferam contra tal ideia deprimente: a vida é para ser vivida, colhendo, saboreando tudo o que tem de belo para dar. O nosso mundo e o nosso tempo estão cheios de coisas maravilhosas. Temos de viver ao máximo!
Talvez estas ideias estejam erradas; no entanto, observo que muita gente é infeliz; o mercado dos fármacos antidepressivos é grande e gera receitas avultadas. Há muito gente a recorrer a terapias com o fim de sair do seu estado de depressão e sofrimento.
É perigoso hoje dizer que estamos neste mundo de passagem, constatando como é breve a vida “sob o sol”.
O contemporâneo usará, ainda, um argumento religioso, afirmando que foi Deus quem criou este mundo grande e belo para que dele desfrutássemos. É um argumento verdadeiro. Inclusivamente, na nossa caminhada para Deus, usamos a beleza da criação como expressão da beleza do Criador e como caminho para nos aproximarmos dele, ou antes, para nos deixarmos aproximar por ele. Tudo isso está muito certo.
Os nossos contemporâneos também dirão que a espiritualidade cristã desprezou durante demasiado tempo a realidade e beleza deste mundo, procurando refúgio na outra vida e, pior, deixando de se comprometer com este mundo e, inclusivamente, de lutar pela justiça.
“Não sejas deprimente”, dizem, quando introduzimos uma nuvem negra no otimismo militante.
A primeira das quatro nobres verdades do Budismo, diz-nos que a vida é sofrimento. O caminho da espiritualidade desta religião consiste no processo de nos livrarmos desse sofrimento. Aqui temos uma visão “pessimista” da vida humana (e não “contaminada” por qualquer traço do cristianismo). Pergunto por que razão os budistas consideram que uma vida sem reflexão, sem um caminho novo é sofrimento. Não serão os budistas, também eles, pessimistas? O que os leva a este caminho?
A vida é bela, mas incerta, difícil, imprevisível. E trágica.

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