advento

“Que difícil é ser o alvo desta atenção divina.”

António Ramos Rosa

Que pode ainda ser dito sobre o advento que não tenha sido repetido? “Nada há de novo debaixo do sol”; blindamo-nos, então, nessa espécie de linguajar piedoso que nos consola e sossega – e aí vamos, “paramentados com ideias de circunstância” como disse Ruy Belo, ao encontro do Rei.
Somos demasiadamente grandes para entrarmos pelo advento e, por ele, no estábulo do bem aventurado. Aquilo que as nossas mãos desassossegadas querem tocar é por demais incandescente. Não suportamos este mistério tremendo. Creio que sem esta constatação inicial nada poderemos tatear desta procissão de textos e símbolos, personagens e histórias que vão desfilando diante de nós nestes dias primeiros. Queremos domesticar o fogo, mas o fogo não pode ser domesticado. Há uma humildade primordial sem a qual a nossa boa vontade se torna apenas ornamental, decorativa, na realidade, incapaz.
É grande o mistério, mas a nossa grandeza, essa inflamação irremediável do ego, reduz ao tamanho do olhar a paisagem infinita.
O salmo diz que a ovelha anda extraviada e errante: põe na sua boca esta oração, das mais pungentes da Bíblia: “ando perdida, procura o teu servo”. Eis a constatação desarmante da incapacidade em encontrar a senda para o regresso ao calor! Que venha, então, o bom pastor encaminhar e guiar a ovelha perdida. Será este o ponto de partida para que o olhar possa arregalar-se de espanto ou seremos daqueles que Iavé verbera, através de Isaías, nós os amigos do templo, do rito, da rúbrica?
Quem sabe a nossa oração pudesse ser simplesmente: “Se rasgasses os céus e descesses!” Se conseguíssemos estendê-la como um manto por sobre a alma de cada ser vivo que habita este mundo… É um grito por mim, por ti, por qualquer passante com quem nos cruzamos, tão distante do advento como o oriente do ocidente.
Cur Deus homo? Porque Deus se fez homem? Que a pergunta nos atormente, nos moa até doer. Que a palavra ponha a nu a nossa indigência e, assim, nos decidamos a entrar no cortejo dos pobres rumo ao lugar onde menino dorme confiado, ele, a medicina para as nossas dores, o colírio para os nossos olhos. E que a luz se estenda como relâmpago fulminante a todo o ser que vive e respira neste mundo.

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