O regresso a casa

Esta manhã refletia sobre duas emoções presentes no ser humano: a culpa e o medo. Serão duas características da generalidade dos seres humanos? Será que a nossa condição humana, ainda antes daquilo que a educação e a vida em sociedade lavram em nós, será que, dizia, estas emoções estão em nós presentes, conaturais à nossa passagem pela terra?

Quando nascemos, diz quem sabe, o primeiro trauma que sofremos é a da partida do ventre da nossa mãe para este mundo vasto e hostil. O bebé deve sentir-se profundamente perdido, depois de nove meses inacreditavelmente maravilhosos, protegido, alimentado, amado.

Se pudéssemos isolar laboratorialmente a nossa condição humana daquilo que o meio nos traz, ainda assim, o medo e a culpa estariam lá? Que se passa no mais profundo do coração humano? Não consigo deixar de pensar nisto. Acho que somos, por natureza, desamparados. Esse será um dos traços da nossa condição primigénia. Por mais que tenhamos sido amados, felizes, e tenhamos vivido num ambiente familiar acolhedor e estável, creio que há sempre um desassossego ou um desamparo primordiais.

A partir daí, a vida da homem sobre a terra é uma luta consciente, mas sobretudo inconsciente para sossegar o seu coração inquieto, assustado, receoso. Fundamentalmente, o que procuramos é um abrigo contra a tempestade. Vamos à procura dele quando dizemos: “não vou sofrer mais, vou tornar o meu coração de pedra; sou forte e poderosos, nada me poderá derrubar; se não criar problemas nem fizer ouvir a minha voz, tal será suficiente para me deixarem em paz; se adquiri este nível de bens materiais ou de rendimentos, não precisarei de mais nada”. E por aí adiante…

Por essa razão gosto tanto da metáfora do regresso a casa como a condição humana por excelência. A casa como símbolo do calor, da segurança, da paz, do diálogo com aqueles que amamos, do lugar, do repouso que gostaríamos fosse definitivo. É como se tivéssemos sido atirados lá para fora em algum momento; como se estivéssemos longe, errantes, desviados da rota e viver mais não fosse o movimento de, às cegas, procurarmos o caminho de regresso a alguma espécie de pátria ou casa ou jardim sagrado ou ao centro de tudo.

Também por essa razão, ressoou em mim a imagem acima. Por vezes, receio estar a ser peregrino nos meus pensamentos, talvez mesmo um pouco extraterrestre e fico mais confortado quando me sinto compreendido por algo que leio ou vejo, neste caso  esta imagem.

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