Utopia

A palavra utopia é de origem grega e significa, literalmente, “não lugar”, lugar nenhum. Foi cunhada Tomás Moro, no livro que escreveu precisamente com o mesmo nome.

Antes e depois dele, e em contextos diversos como  o político, religioso, cultural, tem sido apresentada esta ideia de um futuro lugar ou sociedade em clara rutura com o tempo presente e na qual uma nova realidade emergiria. Houve várias tentativas ao longo da história de criar esse novo lugar e que surge não de uma evolução, mas de uma radical transfiguração do tempo presente.

Enquanto lia um texto sobre este conceito de utopia tive dois pensamentos.

Em primeiro lugar, perguntei-me de que forma os meus contemporâneos pensam, ou não, que se processa o evoluir da História. Talvez, antes disso, possamos perguntar se temos consciência que existe um movimento ou direção em relação a algum ponto último. Poderíamos dizer que associamos a evolução ao desenvolvimento tecnológico ou científico. Assim, todos acreditamos que estamos cada vez melhor e que, com o passar do tempo, os problemas que nos afligem irão sendo resolvidos. Estamos aqui a assumir que a história tem um direção e que nessa direção passamos de um menos para um mais. Penso que a crença iluminista e positivista subscrevem esta visão: a razão humana é, por si mesma, capaz do progresso.

Também há quem possa defender que a história apenas se repete ciclicamente: o que foi, voltará a ser e a humanidade não conseguirá quebrar essa repetição. É uma visão tentadora, tanto mais que olhamos para a natureza humana com os seus erros e hábitos e parece-nos que os mesmos movimentos e mecanismos de pensamento do ser humano se repetem desde sempre.

Pode, ainda, haver quem pense que caminhamos entre avanços e recuos: progresso e atraso, evolução e barbárie, apogeu e decadência. Em que ponto estaremos nós hoje? Estamos a evoluir ou em processo de queda livre? Será possível que essa dualidade se aplique de forma diversa conforme os diferentes domínios da vida?

Em todas estas situações, para quem pense nelas, existir não é apenas uma soma desconexa e justaposta de dias e de acontecimentos: há um fio condutor que liga a existência e lhe dá algum sentido de orientação.

Em segundo lugar, o conceito de utopia remete-nos para a ideia do fim: para onde caminhamos? Se perguntarmos ao poder político para que fim último tendem as suas medidas, ele dirá que para a sociedade de bem estar, de justiça, prosperidade e segurança. São fins nobres ainda que longínquos. Teremos nós como sociedade algum norte orientador e polarizador? Teremos nós alguma visão de um “para onde” dirigir os nossos passos? Ou basta-nos o desígnio individual que move cada uma das nossas vidas  particularmente consideradas?

O crítico e ensaísta George Steiner tem uma frase, cujo sentido não estou certo de que se aplique ao que acabei de escrever, mas que não hesito em forçar: “We have no more beginnings“: teremos nós esgotado as histórias que possam dar sentido e direção aos nossos passos, quer como cidadãos individualmente considerados quer como povo, como sociedade? Deveremos fazer um “downsizing” das nossas expectativas e fazer como se diz “comamos e bebamos que amanhã morreremos”?

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