Nove pensamentos

1. Quando registo no papel o passar da beleza num gesto quotidiano, resgato a vida ao esquecimento.

2. Amo o silêncio da casa, como me sentisse acalentado ou a regressar ao seio da minha mãe. Até nisso sou rico pois não há preço para essa sensação de proteção e calor.

3. Indispensável começar o dia com os costumeiros ritos matinais, um antídoto contra a voracidade e a entropia. É a procura quotidiana do centro, feita a partir da periferia de tudo.

4. Não é fácil descrever o efeito daquela gargalhada franca e livre sobre a minha alma. Como se pode captar esse fugaz momento de vibração consonante? Tenho a certeza de que aí nunca e nunca entrará a morte.

5. É um trabalho nunca acabado e sempre recomeçado: afastar a areia e descobrir o oiro do dia.

6. Penso sempre e de novo no verso de António Ramos Rosa: “Somos mais que órfãos de um útero materno”. Será essa a condição humana universal, a de sermos exilados tateando um regresso a uma pátria? Haverá sequer quem tenha nas suas raízes mais fundas o coração sossegado?

7. Falo com pardalitos de treze anos. Fico espantado com a sabedoria e a beleza que mora na alma de tantos deles.

8. Por vezes, entrevejo o que será viver em liberdade: um abismo para o qual não estou preparado.

9. Não pensei comover-me assim no vasto e monótono reino do quotidiano.

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