A voz aos amigos (XXIX)

A figura do padre na literatura (VII)

Nas famílias, para salvar o património, somos muitas vezes obrigados a concluir as uniões mais estranhas.” Podíamos resumir assim o romance de François Mauriac “Les Anges noirs” (Anjos Negros).  Estamos diante dos ingredientes típicos do escritor francês: o mundo da burguesia, a família, casamentos arranjados por conveniência, o património, a ganância, o amor, a traição e a morte.

No outono da sua vida, Gabriel, figura sombria mas com cara angelical, põe num caderno escolar as suas memórias e entrega a Alain Forcas, o jovem pároco da aldeia, o anjo bom e generoso, mas vestido de um negro que o torna um estranho aos demais. Estes dois homens têm aspetos em comum: fizeram o seminário menor, mas um tornou-se padre, outro seguiu um percurso bem diverso. Hoje, tantos anos passados, Gabriel sente-se irmanado a Forcas no desprezo dos demais – encontram-se, descobrem-se e entendem-se um ao outro.

Gabriel casara com uma mulher que não amava, por conveniência e dever de paternidade. Em vez disso, a bela Mathilde, a prima da mulher, que ele amava, contentou-se em casar com um homem mais velho, por questões de indissolubilidade de património. Da relação com Adila, a sua esposa, agora falecida, nasce Andrès que está prometido à jovem Catherine, filha de Mathilde. Mas Andrès tem uma amante, Tota, que é a irmã de Forcas, o abade!

Gabriel, já velho, mas ainda mantendo uma ligeira chama da juventude, sente que é altura de fazer contas à vida. Chantageado por uma mulher, provando assim do seu próprio veneno, encontra-se escondido na sua terra natal a tentar proteger o único ser que alguma vez amou: Andrès, seu filho.

Gabriel sente, desde logo, simpatia por este “anjo negro”, este jovem padre que é o motivo da chacota da aldeia, porque acolhera uma mulher em sua casa (no caso, a irmã). Do padre, Gabriel diz profeticamente: “Ele é o motivo de chacota da aldeia… Ridicularizado… um fraco… cobrimo-lo de etiquetas e ele cala-se… seria levado ao matadouro e não diria o mais pequeno ‘ai’. Os outros culpam-no por todos os atos ilícitos que eles próprios praticam em segredo e ele aceita carregá-los sobre si. Ele resiste ao impulso de gritar… um desperdício humano de que toda a gente goza…” Mas, “se há um homem no mundo a quem eu gostaria de me abrir, esse homem é você”, abre ele assim o caderno confiado a Forcas. Alain sente inicialmente um certo asco ao pegar naquelas páginas. No entanto, vence-o com a sua solicitude pastoral: “só se pode pensar num ser de cada vez. Há apenas um ser que existe para nós; e todos os outros fingimos acreditar que não existem”, pensa ele ao fazer resistência para adentrar-se no “mistério do mal” descrito naquele caderno.

Mauriac apresenta aqui o seu credo: aqueles que parecem devotar ao mal a sua vida, talvez sejam acolhidos antes de todos os outros no Reino e a profundidade da sua queda dá a medida exata da sua vocação reencontrada. E Alain foi tendo, lentamente, a sensação quase física desse parentesco de almas entre eles os dois, dessas misteriosas alianças em que todos nós estamos envolvidos pelo pecado e pela graça.

Curioso que no fim, Gabriel no seu leito de doente, acorda e encontra um sonolento Forcas a velar à sua cabeceira. Sentiu algo forte e estranho: podia ser ele esse jovem padre naquela poltrona, se se tivesse cumprido. Por sua vez, quando é a vez do padre despertar e o doente dorme, este tenta vencer a repulsa e observa aquela figura, o “desenho puro da testa, do nariz, da boca: nem o tempo nem o crime alteraram aquela cara indestrutível”. E Alain Forcas, que tinha tudo para ser um hipócrita, descobre que o valor duma pessoa não depende das suas ações, sejam boas ou más, mas da sua viagem interior em que, por vezes, uma faísca é suficiente para iluminar a escuridão humana!

Humberto Martins

One thought on “A voz aos amigos (XXIX)

  1. Concordo plenamente. Jesus chama-nos e através do Espírito Santo vai-nos chamando à razão e vai-nos trazendo à mente os momentos maus e os menos bons da nossa vida passada e aí temos um direito de escolha Jesus ou o caminho do mal.
    Quando oramos estamos mais alerta e durante o tempo de oração vem os ensinamentos e o arrependimento dos atos maus do passado.
    Se quisermos escolher o Amor de Jesus ainda cá na terra vamos tendo oportunidade de mudar muita coisa para melhor.
    Deste modo somos felizes cá na terra e as doenças vão passando ao lado, se o coração vai ficando limpo e nos alegrarmos com o bem dos outros, perdoamos e amamos sem críticas.

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