Grande e pequeno

“Aquele que for o mais pequeno entre vós esse é que será o maior”.
Tive de me sentar quando ouvi a frase. Como quem não quer a coisa e com a insistência dos seus companheiros, ele lançou a bomba. Já tinha dito várias outras, também difíceis, mas esta era por demais. Não era apenas difícil de digerir, mas um bomba de fragmentação, como um aspersor dizimando tudo à sua volta.
Fiquei ainda um pedaço em silêncio a cismar… O meu primeiro pensamento foi de me censurar por insistir em abrir quotidianamente essa verdadeira caixa de Pandora, o livro. E, logo hoje, esta pérola. Ser o primeiro… ser o último. Ser grande… ser pequeno… Irra!
Não havia nada a fazer, nada a edulcorar, nenhum compromisso possível. A sentença desceu como um raio e não havia apelo nem agravo. Que podia eu fazer? Espernear e bater com as mãos no chão? Lamentar-me e pontapear a parede? Bem sabia o que era a frase…
Eu andava, parcimoniosa e tenazmente, a construir a minha grandeza, descobrindo, formas subtis, acreditava eu, de ser o primeiro, pelos menos nas fantasias da minha imaginação e agora, vinha ele mandar-me para o fim da fila.
No cinema da vida que se desenrolava diante de mim estava tão habituado a ver tantos e tantas com a sua corrida diversa mas todos almejando a mesma meta: ser grande, ser o primeiro, ser rei, dominar…
E quando olhei para trás para o passado, para a história dos homens lá estava a verdade irrefutável, eterna, incontornável: ser grande, ser o primeiro, ser rei, dominar…
Como se atrevia esse “sujeitinho” (como me habituara a ouvir nas novelas brasileiras) virar tudo do avesso? Porque não introduziu na sentença algum advérbio consolador como “preferentemente”, “desejavelmente” ou então “sempre que possível”? Era tão mais fácil…
E agora que faço? Vou por aí, feito o louco narrado por Nietzsche, dizer a todos que está tudo errado, que vão todos a correr para o início da fila, mas deviam ir para o fim? E que faço a estes trejeitos meio inconscientes de gritar mentalmente ao mundo que sou Deus? Tudo demasiadamente complicado.
Definitivamente, esta sentença não cabe neste dia. Porque fui abrir o livro? Estava bem melhor no deve-haver deste dia cinzento de setembro, tão chão como o mais chão dos pensamentos. Já sei… não vou abrir nunca mais o livro das sentenças. Vou procurar a sabedoria que me é oferecida por milhares de vozes milhares de vezes: quero ser empurrado para cima, sob pena de ser ninguém. Não quero mais o livro, nem a ele, nem sentenças.
Ainda assim… talvez o despojar-me de “ofuscantes plumagens” me permita finalmente topar comigo mesmo. Talvez a criança sentada ali no muro, diante da minha sala, tenha alguma coisa que ensinar-me.

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