As palavras, sempre as palavras

“Robustece o coração e continua a caminhar.”

(Ben Sirac 2, 2)

Já tiveste com toda a certeza um momento em que soçobraste. Ali voavam acima e rente à tua alma, palavras que te atingiram como balas. O mundo fechou-se, uma noite desceu tão rápida como um pinheiro cortado tombando no chão. E ali estavas tu, inerte e à mercê, enquanto o carnaval macabro desfilava diante da tua alma. Recordaste a criança que em tempo foste, essa que sempre te acompanhou nas tuas dias e vindas, enquanto, disseste-o, lutavas “para ser alguém”. E lá foste cinzelando, golpe após golpe, o teu percurso, a tua verdade, a superação os teus limites.
No fundo sabias que, quando menos o pensasses, o vale das sombras cairia sobre ti. A criança apenas queria regressar a casa, ao calor do lar, do colo, a segurança firme diante de todos os medos.
Sem o saberes, o teu coração em desalinho, desconjuntado queria a palavra que alevanta.
A tua avó tinha dito que o mundo era habitado por palavras invisíveis, palavras que flutuavam nos ares, percorriam os espaços, reinavam no mundo. Todas brotavam da mesma fonte, jorravam incessantemente. Na altura, achaste estranho que, enquanto subias a rua terrosa molhada pela chuva, pudesses ser envolvido pelas palavras invisíveis, melhor, que alguma entrada que não descortinavas, te desse acesso a um outro mundo, bem dentro do mundo que era o teu.
O que não sabias, é que essa era a terra da verdade. Como insetos agitados dentro de um frasco, ansiosos por sair, o teu espírito procurava o caminho da liberdade. E ela, estranhamente, estava bem defronte de ti. Não precisavas mudar as tuas idas e vindas, procurar um guru, ler o último livro, encontrar o primeiro pensamento chegado.
Exatamente onde estavas, ao teu dispor, permanentemente, a porta estava ao alcance da mão. Se a abrisses, as palavras da redenção viriam ao teu encontro como as borboletas na mais preciosa das manhãs primaveris. Palavras de consolação, mas palavras cortantes como espada afiada: em rigor, as palavras do reino da verdade.
Bem sabias que a tua vida tinha estado tingida de sombra, breve como o vapor. Os teus olhos viam, as tuas mãos tocavam, falavas e cantavas, construías a tua segurança, esse calor tão amigo e tão fugaz, mas sabias que as palavras aéreas não habitavam os teus dias com som, luz, cor. Era sempre e só preciso abrir a porta: a terra da verdade onde as palavras, a palavra, te traziam de volta ao primeiro dia, o dia da plena comunhão.
Murmuraste: “Envolve-me com o teu amor” e as palavras, silenciosamente, fizeram o resto.

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