Em louvor do “Banco dos Livros”

Toda a gente sabe o que é: um aluno que precise de livros vai buscar gratuitamente livros usados. Se quiser, pode deixar os livros escolares de que já não precisa. É uma fórmula simples.
No final do ano letivo passado e no início deste, fui algumas vezes a um “Banco de livros” que fica bem perto de minha casa. Destaco dois pensamentos que este projeto me suscita:
a) A lógica da gratuidade. Devem existir poucas áreas da nossa vida e, consequentemente, do nosso espaço mental, onde a lógica do preço e do lucro não esteja presente. Observo os meus pensamentos, não sendo eu ganancioso, e lá vejo como os meus juízos e critérios tem subjacentes esta coisa de “tudo ter um preço”, até nas relações humanas: “Do ut des” – dou para que me dês. “Não há almoços grátis” diz-se por aí em tom sábio.
E eis que, de repente, oferecem-se, sem contrapartida, os livros que o meu filho precisa: na prática oferecem-me centenas de euros. Que estranho… das primeiras vezes sentia-me meio usurpador: é isto? Chego aqui, peço livros e vou-me embora? Não me pedem livros de volta? De haver aqui “marosca” … E não é que não havia nenhuma? Pura gratuidade, nos livros e nos voluntários… Que beleza… pensei que há poucos exemplos visíveis de gratuidade e que este é maravilhoso. Alguma coisa da bondade do ser humano acordou em mim.
2) o segundo pensamento: o Estado não tem de ser a “vaca leiteira” para tudo e para nada. Quando uma, várias pessoas querem, podem mobilizar-se, organizar-se e dar origem a formas de associativismo, de projetos para se atingirem fins em comum.
Chama-se a isto o “princípio da subsidiariedade”: aquilo que pode ser decidido e executado a um nível mais próximo não o deve ser num nível mais alto ou distante. São as pessoas, as famílias, as associações, grupos e movimentos quem melhor sabe. O Estado, em Portugal, gosta desta dependência da sociedade em relação a si. Não somos muito ativos, a começar por mim, a organizarmo-nos em “pequenos batalhões”, como disse um pensador, para tratarmos do que é do interesse local e particular. Cai um ramo e lá vem o Estado.

O “Banco dos livros” assim como o “Banco alimentar contra a fome” são bons exemplos, entre outros, de como a sociedade civil se pode organizar. No passado sempre foi assim. Esta ideia moderna de organizar, planificar, sanitarizar tudo, por parte do Estado, tira energias e vitalidade à sociedade.
Obrigado, “Banco dos livros” e seus voluntários!

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