Queria o incêndio

Os dias de férias vão-se seguindo uns aos outros, tranquilamente. Consigo não me lembrar e menos ainda preocupar com o que virá. Vou deixando que os dias fluam, sem lamentar o tempo que vai passando, sem cuidados em relação ao futuro. Não preciso saber ou fazer muitas coisas, nem mexer-me muito daqui para ali. Quase que basta não ter horas, nem pressa, nem obedecer aos ditames de pessoas ou organizações. E esta calma pachorrenta, permite que o espírito se vá recompondo, a alma alimentando, a inteligência despertando. Que bom! Parece que nada falta, quando a mim e aos meus chega notícia que as coisas estão bem.

Estarão?

Inadvertidamente, ao acompanhar as notícias, deixo que passe por uma fresta do meu vidro duplo, um drama humano que se multiplica em milhares de micro-histórias. Numa delas, uma mãe diz que teve de fugir para uma cidade a fim de escapar à morte. Na cidade para onde foi viver, dorme na rua e não tem o que dar aos filhos para os alimentar. Falo do Afeganistão, com o abandono do país por parte dos Estados Unidos e do Reino Unido, com a fulgurante escala de violência que leva os Talibãs a controlar, neste momento, mais de sessenta por cento do território e a perspetiva de tomar Cabul em trinta, quarenta dias.

De repente, à porta do vidro à prova de bala com que blindo os meus dias, um rosto e uma história assomam. Que faço com isto se quiser ser radicalmente honesto? Digo ‘honesto’ porque é sempre possível fingir que esse rosto não existe. Ou, sabendo que existe, desferir dois ou três pensamentos piedosos antes do próximo copo de vinho branco. Como é a que realidade deste mundo, simultaneamente bela e terrível me fala ou me toca? Santa Teresa de Ávila escreveu: “Não durmais/ porque não há paz sobre a terra.” Ver o mundo como ele é, torna-se uma exigência de verdade.

Enquanto saboreio uma refeição ainda que simples, enquanto caminho sob as árvores ou aprecio e me distraio com esta série na Netflix, que faço a essa mãe que dorme na rua?

Não pode ser a má consciência a deslocar-me. Não quero estender a mão para não ter problemas de consciência ou porque a minha fé mo diz, ou algumas pessoas à minha volta. Tudo isso tem o seu valor e o seu lugar, mas é ainda extrínseco. O problema não consiste em realizar esta ou aquela ação, nem mesmo pertencer a esta organização de bem-fazer. Tudo isso é meritório, mas pode ser insuficiente.

O desafio é mais amplo e exigente: como é o rosto dessa mãe, que simboliza e resume todo o sofrimento, fala à forma como gasto o meu dinheiro, à minha alimentação, à minha relação com os outros, à informação que leio, aos meus valores e critérios sobre o que é importante ou desprezível? Esta é pergunta-revolução que não quero fazer. Contento-me com o conceito de “boa pessoa”, respeitado na comunidade, como se diz nos filmes americanos; por outras palavras contento-me em ser “a decent person”, definição estática, mas conveniente. Só que eu sei, a que distância o rosto dessa mãe se encontra do meu coração, ainda que lhe dispense dois pensamentos ou uma prece.

No evangelho de S. Lucas, depois de Maria saber que será a mãe de Jesus, vai visitar a sua prima Isabel. Dos lábios de Maria brota um hino conhecido por “Magnificat”. É uma proclamação que tem tanto de revolucionária quanto de domesticada. Ali, os “valores sociais” são subvertidos: os pobres, os famintos, os humildes são os que estão no topo da escala social. São despromovidos os ricos, os poderosos, os de barriga cheia. Caramba… que bomba é esta que vem visitar-me no sono morno de agosto?

Num texto do Antigo Testamento, uma visão: um campo cheio de ossos é visitado pelo sopro de Deus. A pouco e pouco, os ossos enchem-se carne, nervos, ligações, até que se tornam seres viventes. Que metáfora poderosa!

Este torpor de agosto é bem a metáfora para a sonolência existencial em que vivo, ainda que me creia desperto. Pese embora todas as narrativas de “sou o que decido ser”, “o céu é o limite”, e outros truísmos, prefiro sentar-me no degrau da porta de minha casa e convidar a Sabedoria. Quem sabe, ela me desperte para a beleza, para a compaixão, para o serviço. Talvez ela me ensine a simplicidade, a bondade inesgotável do coração, a alegria da disponibilidade. Falar-lhe-ei dos meus fantasmas que habitam as profundezas, do coração de pedra, dos ossos ressequidos. Ela dir-me-á que a chama brilha no escuro, essa chama que nunca se apagou. Quem sabe essa chama provoque um incêndio. E o vivente… seguirá cantando.

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