O moinho à beira do rio

Estou a terminar a leitura do livro “O moinho e o rio” da autoria de George Elliot. O autor era, afinal, uma autora, uma vez que escrevia sob pseudónimo. É um livro de quase quinhentas páginas, escrito no século XIX e cuja narrativa também se passa nesse século.

Embora não perceba muito de teoria da literatura, sei que o início do século XX trouxe consigo mudanças na forma de entender o romance. Uma das tendências foi o modernismo. A estrutura formal dos romances que eram escritos até então obedecia ao formato “tradicional” com uma narrativa desenvolvida e explicada, a delimitação clara dos pensamentos, emoções e ações de cada um dos personagens. Confirmo isso mesmo, ao ler este livro: não deixo de notar que essa construção parece um pouco artificial, uma vez que na vida, sobretudo o mundo dos pensamentos e das emoções acaba por ser mais complexo e tumultuoso.

James Joyce é o exemplo acabado do romance moderno e a obra “Ulisses” um bom exemplo disso mesmo. Frequentemente não sabemos quem está a pensar ou dizer algo, saltamos de cenas e espaços sem clareza e eu fico aturdido com este derrubar de barreiras físicas e psicológicas que me deixaram baralhado e me fizerem abandonar o livro.

Neste romance que estou a ler, aprecio particularmente a análise profunda e fina da alma humana, os seus sentimentos e emoções, que povoam o coração das diferentes personagens. Este é, para mim, um dos aspetos mais fascinantes da boa literatura. Eles conhecem profundamente a alma do ser humano (e de certeza muito bem a sua) e, mediante os diferentes acontecimentos da narrativa, vão dando notícia do que se passa no interior do ser humano.

Este facto, confirma aquilo que observo em mim e nas pessoas à minha volta. Há uma infinidade de sentimentos ou emoções, mais duradouros ou passageiros, que habitam a alma humana. Somos seres extraordinariamente complexos e ricos na vivência do nosso mundo emocional.  Essa complexidade explica muitas das atitudes que posso observar em mim ou nos outros. Há coisa que vejo nos outros, nomeadamente comportamentos, que devem ser entendidos a esta luz. O nosso discurso pode ser racional e objetivo, mas depois o “coração tem razões que a razão desconhece”. E o coração do homem é verdadeiramente um abismo. Mergulhar nele é simultaneamente uma aventura apaixonante e assustadora. Há tantos recantos, habitações, lugares e espaços por explorar e conhecer!

É feliz a pessoa que faz essa viagem de descoberta e convívio consigo mesma, ainda que, momentaneamente possa não gostar do que encontra. É infeliz a pessoa que vive alheia àquilo que a habita, procurando refúgio e distração no que está fora de si. Adoro a frase de Rilke que diz: “Caminhar dentro de si durante horas e não encontrar ninguém, é a isto que é preciso chegar”. Não entendo esta frase como uma espécie de solipsismo, isto é, como a vontade de se afastar do convívio humano. Ao invés, penso que a frase é o exemplo acabado da pessoa que habita o seu interior: conhece os seus pensamentos, sabe de onde e quando brotam as suas emoções, compraz-se nas suas memórias e encontra conforto nelas. É um mundo quase ilimitado, belo, luxuriante e assustador ao mesmo tempo.

Que se pode ganhar com isso? O mesmo que ganho em habitar a minha própria casa, conhecendo os seus espaços e recantos. É verdade que que a corrente forte do mar nos empurra para o exterior e para a dispersão, mas podemos sempre empreender a viagem para dentro.

Agradeço a esta escritora e a tantos outros por me ajudarem nesse caminho de compreender a complexidade e a beleza da alma humana.

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