A Caminho de Santiago (VI)

Nessa noite, o Senhor apareceu a Salomão em sonhos e disse-lhe: «Pede-me o que quiseres! Que queres que te dê?»

1 Reis, 3, 7

Segundo uma tradução, Salomão respondeu: “Dá-me um coração que escuta”. A tradução mais comum reza: “Dá-me a sabedoria”, mas… pedir a Deus um ‘coração que escuta’ é profundamente comovente.
Não sei porquê, esta manhã, quando percorria a última etapa, esta frase veio-me ao espírito. Acontece-me algumas vezes alguma coisa emergir do meu “underworld” de forma anónima e só mais tarde processar o que ela significa.
Ouço com os ouvidos, distingo os sons, reajo a estímulos sonoros, escuto a música, o som do vento nas árvores, os pés que caminham na terra batida, mas… o que será escutar com o coração?
Entro num outro andamento vivencial. Deixo para trás o aparelho auditivo, os inputs e outputs que estar vivo traz consigo e abeiro-me de um umbral. Talvez não queiras vir comigo, se esse for o caso, volta para trás.
Dá-me um coração que escuta”, pediu Salomão. Há uma música alada, silenciosa, esquiva, livre como a brisa, serena como o mar calmo, fiel como a madrugada. E se tu, leitor, chegaste até aqui, continua um pouco mais. É que a criança que há em ti, se por sorte vive ainda, escuta essa música. Só essa criança conhece o caminho de regresso a casa. E a casa é esse coração que escuta. Sempre que na tua vida há uma vibração inexprimível com a beleza, a bondade, o amor, o serviço, a alegria, a serenidade (ainda que tão precária e fugidia) – sempre que a criança em ti foi atravessada por essa vibração, essa música alada, ainda que momentaneamente, completou-se a viagem de regresso a casa.
E eu, ao regressar desta caminhada, trago no coração essa música. Não sou caso único: a vida está cheia de visitas atrevidas: o sorriso de um filho, uma gargalhada inesperada, o vento, a companhia à mesa quando a refeição se prolonga sem fim, o gato nas pernas, a transpiração feliz depois de uma corrida. Onde estamos nós, onde estás tu quando a música longínqua te chega aos ouvidos?
É verdade que temos de fazer contas, carregar os sacos das compras, esperar que o sinal fique verde, reclamar do preço da gasolina e do gasóleo. Só que no dia em que não formos vibração ou criança ou lugar da música, alguma coisa morrerá em nós.
Esta manhã, ao tomar um “café solo”, antes do último assalto à praça do Obradoiro, relia as mensagens que uma enfermeira recolheu e publicou do seu trabalho com pacientes terminais, o que eles mais se arrependiam de ter feito ou de não ter feito: não disse, não valorizei, tive medo de, devia ter dedicado mais tempo a… Fiquei mais uma vez a pensar nisso. Alguns quilómetros adiante , uma placa (como outras que vi) de alguém que chorava a sua amiga, morta durante o caminho. Caramba!


Enquanto via pela última vez as torres da Catedral, já na viagem de regresso, escutava cá dentro as gaitas de foles, da Irlanda antiga até à Galiza de hoje, a chamarem por mim.

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