A caminho de Santiago (V)

“Um sabor de lucidez aérea tomou conta de mim.

Já nada me falta, vibro à beira do Incompreendido.”

António Ramos Rosa

Há fios invisíveis que unem os peregrinos. Não se falam, não se conhecem; ainda assim, há um território onde todos colocamos os nossos pés: a nossa humanidade comum. E ela expressa-se através de múltiplos e discretos gestos: a delicadeza do agradecimento quando abrimos caminho para que os ciclistas passem; um olhar ou um sorriso oferecidos; quando ultrapassamos ou somos ultrapassados por alguém, quase sempre dizemos “buen camino!”, uma espécie de deferência e cuidado com o outro. Observo as dezenas de caminheiros que apontam para Santiago: jovens namorados ou casais; um pai com o seu filho (saberão eles o quão felizes estão?); uma mãe inglesa com a sua filhota – esta saltita de felicidade, alheia a cálculos, distâncias ou cansaços. Grupos de paróquia ou alguma associação, educados e corteses. Acima de tudo uma menina maravilhosa que esperou a minha passagem, olhou para mim com um olhar do outro mundo, rasgou um sorriso como só as crianças sabem ter e desejou “buen camino!”. E o adulto, que baixa tantas vezes os olhos, que se defende do real, muralhado e protegido, é lançado para o reino da bondade e da beleza e algo ali mesmo renasce. Sim, há fios invisíveis que ligam os peregrinos.

Como tinha dito no dia de ontem, a minha intenção era dividir a etapa de ontem em duas, fazendo hoje os segundos quinze quilómetros. Optei por acordar às cinco e meia e apanhar o “primeiro comboio” de peregrinos, longe do barulho e da agitação dos caminheiros mais jovens, ainda que seja característica dos espanhóis falarem para lá de qualquer assunto. E assim foi.

O dia começava a amanhecer e o nevoeiro e a solidão emprestavam uma aura  muito particular aos primeiros passos desta etapa. Felizmente, tinha dormido invulgarmente bem, para os meus habituais padrões de insónia,  por isso estava cheio de energia. Esses primeiros quinze quilómetros forma muito belos: o silêncio que reinava à minha volta, o nevoeiro e depois o sol, tudo parecia concorrer para uma mística que comunicava com regiões mais fundas em mim, geralmente fechadas e ignoradas. Nesse momento senti uma liberdade e felicidade muito grandes, como se tivesse forças e energia para caminhar até ao fim do mundo. E, na realidade, apenas estava a madrugar e a caminhar com uma mochila pesada às costas.  É mesmo assim: fazemos experiências comoventes, avassaladoras, pessoais e intransferíveis e, à superfície, parece que nada ocorre de diferente. Os outros perguntam: correu bem? e, no fundo, ficam satisfeitos quando dizemos: correu.

Quando cheguei aos quinze quilómetros, parecia que apenas tinha dado um passeio. E agora? Ficar ali até ao dia seguinte (eram perto de dez e meia da manhã)? A alternativa era meter mais vinte quilómetros nas pernas e cumprir hoje mesmo a etapa seguinte. Assim foi. No momento em que escrevo estas linhas já foram vencidos trinta e cinco quilómetros. Ao chegar, o banho quente, a pizza e a garrafa de água fresca, a cama fofa, tudo são prazeres e sabores inacreditavelmente gozosos. Não deixo de pensar, quando regressar, como o excesso de conforto e proteção tomarão o seu lugar na minha existência quotidiana. Esta coisa de me dirigir para uma aldeia ou vila sem saber onde vou dormir deixará de ter lugar e a vida previsível e murada voltará a acontecer. Não que me desagrade, porque por temperamento, sou avesso a surpresas e mudanças que não controlo. Por isso, penso que a minha vida, talvez a vida nas nossas cidades, num país tranquilo e pacífico, acabe por ser segura, o que é maravilhoso, mas não deixa que a porta para o imprevisto se abra. O conceito de “providência de Deus” mirra à porta do castelo.

Amanhã, será a última etapa, os derradeiros vinte quilómetros, as derradeiras quatro horas de caminho, previsivelmente com a chuva por companhia. Pretendo chegar antes do meio dia a fim de poder participar na missa do peregrino. Quando escrever, ao fim, do dia, já o farei no conforto da minha casa. Terá mudado alguma coisa em mim?

(Como o sinal de rede é melhor no lugar onde estou, partilho algumas fotos mais, sobretudo da primeira parte do caminho.)

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