A caminho de Santiago (II)

“Olhos na luz.”

São longos os dias do caminho, desde o nascer do dia até ao deitar.

Ao princípio do dia, li esta frase acima: “olhos na luz”. Ter os olhos virados para a luz, o que quer que essa palavra possa significar para cada um. O curioso, e isto é o caminho de Santiago, é que acabei a jantar ao ar livre junto da escola primária “Virgem da luz”.

Depois do pequeno almoço madrugador em Sarria, foram cerca de vinte e dois quilómetros até Porto Marín. O tempo esteve sempre fresco, o que é uma bênção para os peregrinos. Tão fresco que não tirei o “jersey” (como se diz por cá) durante toda a caminhada. Este percurso do caminho francês é extremamente belo: paisagem natural, muito cuidada, harmoniosa, com um muro de pedra maravilhoso que me acompanhou ao longo de todo o percurso. Por vezes era o vento nas árvores, outras um céu alto com multiformes nuvens, animais pastando aqui e ali, sempre a beleza por companheira.

Ao contrário do que acontecera no caminho português quase sempre deserto, há muitos peregrinos no caminho, sobretudo gente mais nova. O início da etapa foi mais movimentado e até ruidoso o que me desagradou um pouco; contudo, a pouco e pouco, os grupos foram-se espaçando e pude saborear uns bons pedaços em silêncio. Ao chegar a Porto Marín passa-se uma ponte muito alta e relativamente estreita – para mim que tenho muitas vertigens, foi um sacrifício muito grande, o pior momento do dia. Quem tem vertigens sabe como são irracionais e assustadoras.

São poucas as oportunidades de viver uma experiência  em que alguma coisa que não a mera coabitação física une as pessoas. No caminho, há lampejos disso mesmo. Todas as pessoas por quem passei e que passaram por mim iam para um mesmo destino. É verdade que as motivações podem ser as mais diversas desde a espiritual ao lazer. Ainda assim, há um mínimo comum: o amor ao caminho, a disponibilidade para sofrer, a atração pela beleza. E é belo fazer essa experiência de um povo a caminho de um santuário. Pensei nos milhares e milhares de peregrinos que, desde a Idade Média, sem Quechuas nem cremes nem gel nas sapatilhas, mas armados de uma fé inquebrantável, percorriam a Europa para se prostrarem aos pés do Santo.

E ao ver todas esta pessoas e eu a caminho com elas, saboreei essa alegria de perceber que algo une os humanos. No dia a dia parece que não vemos isso mas quando nos mobilizamos por uma causa, quando na época dos incêndios, há uns anos, pessoas davam água na auto estrada a desconhecidos, tudo isso mostra, ainda que brevemente, que há mais que nos une do que simplesmente a nossa sociedade híper-individualista nos quer fazer crer. Abençoado caminho.

O final do dia terminou com a participação na eucaristia aqui em Porto Marín. Não contava ver tanta gente e gente nova, de repente unida no louvor e na prece. Presidiu um bispo da Argentina, talvez ele mesmo caminheiro. Para quem é crente sabe que nestes momentos tomamos consciência que o povo de Deus está espalhado pelos quatro cantos do mundo e, quando se reúne numa igreja é a mesma fé que professamos. Bonito.

Não sei se o meu dedo grande do pé amanhã me vai dar que fazer ou a contractura na coxa. Vou tentar dar um passo de cada vez, tanto mais que amanhã serão trinta quilómetros  – a etapa mais longa mas não necessariamente a mais difícil.

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