A voz aos amigos (XXIV)

“As alegrias quotidianas permanentes são, para mim, tão importantes como os dias de júbilo, que passam fugazes.”

Hans Kung

Final do dia, o habitual trânsito – devagar, devagarinho e parado – da VCI, o som suave do Kind of Blue a separar o ambiente de dentro e fora do carro como se do Mar Vermelho se tratasse. À cadência dos minutos passados – tão lenta quanto o movimento dos carros que me envolvem – sinto que o cansaço do dia intenso vai dando lugar à tranquilidade, serenando a cabeça, depois o corpo e, finalmente, sossegando a alma. Este é, a par com muitos outros ao longo de cada dia, um momento de puro prazer, de pura felicidade.
Há não muito tempo desesperava, mais ou menos àquela hora, mais ou menos naquele lugar, mais ou menos com aquele trânsito. Ansiava por chegar ao destino, por chegar a casa, para poder, enfim, descansar de um dia igualmente extenuante. E aquela quotidiana viagem era terra de ninguém – que sempre foi, para mim, algo parecido com a ideia de inferno – nem carne nem peixe, nem trabalho nem descanso, mas apenas tempo perdido algures entre um e outro, deixando-me na boca, todos os dias, o amarguíssimo sabor a vida desperdiçada.
O que mudou? Não o trânsito, não o cansaço, não o desejo de chegar a casa. Nem sequer a música, que antes me irritava solenemente e agora sinto como um bálsamo refrescante e retemperador. Eu mudei. Eu. Ou melhor: foi meu olhar que mudou, e com ele a devida adequação às circunstâncias. Em vez de ansiar com todas as forças por chegar a casa, em vez de me abandonar a mim próprio naquele tempo de ninguém, em vez de me desesperar, decidi aproveitá-lo. Em vez de me revoltar, de dar largas ao desespero, decidi apropriar-me da situação, fazendo-a minha, aproveitando-a para viver nela o tempo que, afinal, nunca conseguia viver quando chegava a casa. Porque a verdade é que não me recordo de algum dia ter chegado a casa e ter conseguido ouvir o Kind of Blue, pelo menos não com a envolvência que este álbum sempre justifica. Porque, na verdade, estava a trocar aquele tempo que me era dado a viver, dentro do carro, pelo desejo sonhado – nunca efetivado – da felicidade que antecipava sentir uma vez chegado a casa. E a verdade, verdadinha, é que desperdiçava a viagem em nome de um ideal de destino.
Hoje, com menor dificuldade, vou saboreando tudo o que me é dado a viver. Vou conseguindo esta lucidez de aproveitar os pequenos momentos para ser feliz. Como quem pega num quadrado de chocolate e lhe dá o tempo necessário para que se derreta na boca. Suavemente. Docemente. Sem sofreguidão nem antecipação. E posso assegurar que, quando revisito o meu dia, confirmo com genuína alegria que são cada vez menos aqueles que sinto ter desperdiçado.

Zé Pinho

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