Fozeiros

Sou do Porto. Nasci no Porto, vivi a maior parte da minha vida no Porto. Na cidade Invicta existe uma zona, ribeirinha, chamada “Foz”. Penso que a origem do nome se deve ao facto de a Foz confinar com a foz do rio Douro. A Foz divide-se, tacitamente, em Foz e “Foz velha”. Esta fica mais a sul e morre bem junto ao rio. É composta de casas antigas, ruas estreitas e, sobretudo dos habitantes, os “antigos”. Já lá vamos.
Os meus avós vivam na Foz e eu passei uma parte considerável da minha infância em casa deles. Sendo nós oito irmãos, a minha mãe tinha de “despachar” alguns para casa dos seus pais. E lá íamos nós, os mais novos passar boas temporadas em casa dessas duas pessoas, simples, genuínas, vindas do mundo rural há tempos para “ganhar a vida” no Porto.
No outro dia, estive umas duas horas numa das praias da Foz. O tempo estava anormalmente quente e abafado para aquilo que é habitual por estas paragens. Fui sozinho e não levei nem música, nem livro, decidido a ver e observar os banhistas.
De repente, recuei trinta e cinco a quarenta anos no tempo. O tempo em que vínhamos com a minha avó para a praia. As pessoas que encontrei desta vez na praia eram o mesmo tipo de pessoas que iam à praia nesses idos da minha infância. São (e eram) as pessoas que vivem na Foz e correspondem à categoria (criada por mim) dos “antigos”. São pessoas de segunda terceira ou quarta geração nascida na Foz. Não são ricas, não são cosmopolitas, não têm uma espécie de sotaque afetado na forma como falam. Não são viajadas. Não têm o culto do corpo, nem uma preocupação excessiva com a sua roupa ou aparência. São as pessoas que viviam perto da casa dos meus avós e com quem a minha avó se dava e que eu conhecia. Todas as amigas da minha avó tinham a terminação do nome em -inha: Candidinha; Emilinha, Laurinha e por aí fora.
Essas pessoas eram pessoas banais, diria o leitor e é verdade. Mas, quando estava na praia e, de repente, viajei no tempo, percebi como a alma dos “Antigos” ainda estava viva, apesar de todas as transformações que a Foz foi sofrendo.
Essa alma, e era aqui que queria chegar, conecta-me com alguma coisa na natureza humana que me redime, regenera e reconcilia. Não sei se o paciente leitor faz ou fez esta experiência: conhecer pessoas que são como um manto sem costura, uma peça inteira, forte e sadia. São pessoas amigas da família, perfeitamente reconciliadas com os imprevistos, pessoas que aceitam o sofrimento como parte integrante da vida. Pessoas que têm sempre a porta da casa sempre aberta e um prato a mais na mesa, senão fisicamente, pelo menos, intencionalmente. Ali não há duplicidade, mentira ou engano. Não vivem a representar um número. Amam a família e os filhos e os netos e, à noite, deitam a cabeça na almofada sabendo que não ficou nada por viver do dia que finda.
É feliz a pessoa que conhece ou se cruzou ou “bebeu” de pessoas assim. Sabe que ali está um porto seguro e que palavra dada é uma palavra honrada. Eu vivi no meio de muita gente assim: é verdade que não eram santos ou santas, mas a alma não tinha vincos ou refolhos. Eram seres humanos inteiros.
E nós precisamos de pessoas assim. Hoje já não sabemos onde lançar a âncora, onde encontrar verdade, segurança, carácter. Sopram demasiados ventos, sussurram-nos demasiadas palavras aos ouvidos, estamos desnorteados.
E, de repente, numa praia da Foz, ouço as conversas, o tom de voz, o “querer-bem-a-ti-sem-to-dizer”, o que vai ser hoje o almoço, o avô que leva a neta a molhar os pés, as comadres que falam ininterruptamente. Por entre o nevoeiro, brilha a natureza humana simples, íntegra, inconsútil.

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