The girl was never there

Robert Smith, vocalista da banda The Cure

Uma voz chama. Vem dentre as árvores na floresta. É uma rapariga quem chama do escuro. Ele, é atraído porque a voz da rapariga chama pelo seu nome. Começa a correr em direção às árvores. Já no meio da floresta, percebe que a voz não é real, nem a rapariga é real. Só que já é tarde demais: foi engolido pela floresta, está sozinho, perdido no meio da escuridão.
(Ouço esta música desde a minha adolescência e não me canso de a ouvir. A versão ao vivo é, para mim, bem mais poderosa que a de estúdio.)
A interpretação mais evidente é a da ilusão do amor que chama, mas se desfaz em nada, deixando a pessoa não apenas desiludida, mas perdida. Essa desilusão é recorrente, tornando decididamente impossível o amor.
Uma vez que estamos no domínio da poesia, tento aqui uma outra interpretação, a minha.
A letra gira à volta da ilusão que nos prende com os seus ternos braços, nos chama com encantos, mas no final nos deixa sós e perdidos. Sophia de Mello Breyner disse-o com acutilância: “Sempre me deixaste à beira de uma fome”. Quererá Robert Smith (vocalista e letrista da banda) falar apenas e só de uma rapariga que me chama de dentro de uma floresta escura para no fim descobrir que ela não está lá e fiquei perdido? Repare o estimado leitor que um dos últimos versos é extremamente amargo: estou sempre a “correr em direção ao nada”.
Entendo a letra da música de uma forma metafórica: a voz que promete, vai de encontro a um desejo insatisfeito; troco o conhecido pelo desconhecido, mas, no fim, acabo perdido, só, num universo sem princípio, fim, norte ou direção.
Sem querer moralizar, parece-me que isto acontece um pouco com cada um de nós: há vozes que nos seduzem, que nos prometem a felicidade, o paraíso-já-aqui; há e houve sistemas políticos que quiseram criar o homem novo e a sociedade perfeita. Há sempre a nossa sede e a água que não sacia. Vejo gente seduzida por tantas vozes e brilhos e sons e miragens, procurando, à sua maneira, a pátria, o regresso a casa.
A letra desta música é profunda e genial. A fotografia deste post afastará alguns leitores e menos ainda se darão ao trabalho de ouvir a música e apreender a sua letra (ver no final). Mas, para mim, encontro no vasto jardim da cultura contemporânea vozes e acenos da condição humana perplexa e de coração sobressaltado. E é disto mesmo que a música trata.
Portanto, se o estimado leitor chegou a esta linhas, tire um pouco de tempo, ouça a música, saboreie a letra. Deixo-o, a título de motete, com duas linhas do poeta Ruy Belo:

“Florescem quando passa contraditórios clarins
cantando cada um sua ideia diversa
nenhuma o levará à pátria que procura”

E a letra da música:
Aproxima-te e vê
Vê em direção das árvores
Encontra a rapariga enquanto podes
Aproxima-te e vê
Vê no escuro
Basta seguir os teus olhos
Basta seguir os teus olhos

Ouço a sua voz
Chamar o meu nome
O som é profundo
No escuro
Ouço a sua voz
E começo a correr
Para as árvores
Para as árvores
Para as árvores

De repente, paro
Mas eu sei que é demasiado tarde
Estou perdido numa floresta
Sozinho
A rapariga nunca esteve lá
É sempre a mesma coisa
Estou a correr para o nada
Uma e outra vez e outra vez e outra vez

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