A voz aos amigos (XXII)

António, Pedro e João

  1. Junho, porque é mês de celebrarmos os santos populares António, Pedro e João, é uma oportunidade para pensarmos na santidade, uma questão bastante interpelativa e nem sempre bem situada: uns acentuam demasiado os méritos humanos, tornando a santidade uma quase-recompensa divina; outros silenciam esses méritos a quase insignificantes, tornando a santidade um aleatório irromper divino – uns e outros parecem padecer da falta de equilíbrio que a relação Deus-Homem pressupõe. Mas não é esta a questão que quero abordar. Interessa-me, aqui, a popularidade da santidade.
    Creio que todos reconheceremos que a popularidade dos santos de Junho não se deve, certamente, apenas à intercessão que, tradicionalmente, lhes é atribuída. Todavia, também não poderá ser a mera dimensão festiva e de folia que caracterizam estes dias. Se fosse só isto, outras evocações e outros dias já teriam sido escolhidos.
    A popularidade dos santos, na minha opinião, tem uma raiz e um sentido bem mais profundo e mais fascinante. Ela deve-se ao facto de neles reconhecermos uma humanidade conseguida, plena. É esta possibilidade que eles atestam. E é isto que se torna, para todos nós, motivo de festa.
    Mas, ao festejá-los, não podemos deixar de nos sentirmos interpelados. Não somos, também nós, humanidade que quer atingir a sua maturidade e plenitude? Por isso, importa contemplá-los e aprender com eles o caminho. E uma das realidades com que nos deparamos, nestes santos populares, é a sua capacidade de servir, de servir a humanidade com Deus, por Deus.
  2. Assim sendo, o serviço é um coordenador fundamental para uma humanidade cheia. Neste sentido, é muito interessante notarmos que o serviço está presente na própria forma com que festejamos os santos populares. Eles são bem mais do que pretexto para convívio entre família e amigos. Permitam-me esta partilha.
    Recordo com saudade, e com alegria, a fogueira que o meu padrinho fazia, no meio do pátio, para assar os pimentos e as sardinhas que eram comidas nestes dias, acompanhadas pelo pão que ele tão bem amassava e cozia. Havia um enorme cuidado com o contexto e a mesa da confraternização. Um cuidado que desenvolvi com o meu pai e que se traduz na arte de bem servir. A boa comida e o bom vinho requerem preparação, dedicação, atenção ao outro que se convida.
    Com eles aprendi que festejar os santos populares implica servir e ter o coração feliz por o fazer. É uma lição preciosa: servir para comemorar e celebrar aqueles que serviram.
  3. Sempre que penso em “servir”, lembro-me de uma passagem do filme “A Vida é bela”, de Roberto Benigni, em que o tio de Guido lhe diz: “Olha para os girassóis, estão voltados para o céu mas se o vires demasiado vergados significa que estão mortos. Tu estás ao serviço mas não és escravo de ninguém. Servir é a arte suprema. Deus é o primeiro servidor.”
    Servir é, pois, um ato de humildade que imita Deus; é exercitar divinamente a nossa humanidade, libertando-nos do que nos escraviza para nos darmos ao outro. Servir é assumir o outro para realizarmos plenamente a nossa humanidade, como o girassol se realiza seguindo o sol. Só servindo seremos humanidade conseguida, como os santos.
  4. Esta popularidade dos santos, assente no serviço que realizaram, e que nós exercitamos quando assumimos o outro com quem convivemos, leva-me, também, a pensar naquilo que sou enquanto professora, nas fragilidades e limites que me acompanham, de uma disciplina tão singular como a de Educação Moral e Religiosa Católica. Apresentar e educar para o factor religioso da humanidade é um serviço interpelador no mundo atual. Mais ainda quando o bom resultado deste serviço consiste em homens e mulheres que servem.
    Mas se a popularidade dos santos se deve, acima de tudo, ao facto de serem humanidade plena, e isto significa que serviram, então não devemos ter medo de continuar a servir, educando para servir. É esta especificidade da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica que me fascina e que deve fascinar os nossos alunos. Eles têm o direito de se sentirem atraídos por esta disciplina, como nós nos sentimos pelos santos que, na sua popularidade, a todos interpelam.

Orson Welles escrevia: se todo o santo tem passado, todo o pecador tem um futuro…
Acrescento: que seja o da santidade, caminhando no serviço…

Daniela Rodrigues

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