As verdades sagradas

Cada época tem as suas verdades sagradas. Gera-se um consenso à volta delas e os polícias do pensamento garantem que essas verdades permanecem imunes à crítica. As pessoas que tentam colocar em causa essas verdades sagradas são ostracizadas e expulsas. Não é tarefa fácil ganhar distância e ter um olhar crítico, pessoal e intransferível sobre as verdades sagradas e, olhando para outros tempos, comparar, analisar e julgar.
Gosto de pensar que sempre houve pessoas, em diferentes tempos e latitudes, que não tiveram receio de questionar as verdades sagradas, opondo-se a elas. Certamente que pagaram um preço alto, mas mantiveram-se fiéis às suas crenças.
Essas verdades sagradas dizem respeito ao que cada época entende que é a felicidade; qual deve ser a relação entre os seres humanos; o que esperar depois da passagem sobre a terra; qual a escala de valores que deve reger a nossa conduta pessoal e coletiva.
Não é fácil, repito, criar distância, analisar e desenvolver um espírito crítico. Preocupa-me o funcionamento do grande grupo e o funcionamento dos emissores das verdades sagradas. De um lado, o grupo que aceita tudo sem discutir; do outro as ventoinhas gigantes que sopram sobre nós, diária e infatigavelmente, os ditames do pensamento único.
A pessoa que quer pensar por si, construir a sua escala de valores, pensar por si mesma deverá fazer aquilo que, num outro contexto, disse S. João da Cruz: “De noite saí, sem ser notada/ estando a casa ainda sossegada”. Deve fazer um percurso solitário, ainda que atento e dialogante, procurando a verdade, a sua verdade. Tem de suportar com paciência os ditames do pensamento único, a máquina debitadora das verdades sagradas, o “ar do tempo”. É esse o preço para ser livre, único, sujeito do seu pensamento e das suas ações. Ele não quererá vender o seu pensamento por um prato de lentilhas, mas seguirá, rosto levantado, procurando a verdade consonante com o seu ser.

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