Os justos

Vemos pouco e mal. No momento em que escrevo, passam-me despercebidas milhões e milhões de interações no mundo digital. Pessoas que trocam mensagens, textos que são lidos, fotografias que são colocadas, vídeos que são subidos ou escutados. Enquanto estou sentado num banco público na praça central de um qualquer lugarejo, de forma invisível, ocorre essa infinidade de inter-relações, ininterruptas, avassaladoras, caóticas, que escapam a qualquer tentativa de catalogação, controlo ou “racionalização”. Quero dizer com isto que existe esse mundo incrivelmente rico e complexo que, simplesmente escapa aos meus sentidos. Não posso dizer nada sobre ele com uma pretensão de absoluto porque ele é maior e mais misterioso do que a minha mente, escapando à minha pobre tentativa de o apreender.
Saindo deste mundo do digital: desconfio sempre das tentativas de pessoas para terem um discurso absolutista sobre o nosso mundo: “isto está cada vez pior”; “há cada vez mais pessoas egoístas” e por aí adiante. São tentativas totalitárias de encerrar a realidade. São profundamente injustas, parcelares e insensatas. Qual é a nossa margem de conhecimento sobre a miríade de relações interpessoais, gestos, atitudes, palavras e ações que ocorrem a cada segundo no nosso mundo? Nenhuma, numa palavra. Não sabemos nada de nada do que se passa entre os humanos a uma escala global. E, no entanto, como diz o poeta, temos a “arrogância sabática dos apocalípticos”. Aceitamos acriticamente a visão do mundo que nos é fornecida por notícias, sondagens e relatos vários. Fazemos juízos de valor sobre os jovens, os povos ricos, as gerações mais novas. Felizmente, a realidade é infinitamente mais misteriosa, plural, insondável e incontrolável do que aquilo que nos querem fazer crer.
É por essa razão que sou quase cético quando se trata de fazer juízos de valor sobre o mundo. O “mundo”, mas quem tem a palavra certa para dizer o que quer que seja sobre o mundo?
Prefiro acreditar em cenários menos catastrofistas. Prefiro acreditar que existem todos os dias incontáveis gestos de bem que passam sob o radar. Acredito nas pessoas que se entregam, que amam, que sofrem, que lutam por uma ideia de bem. E acredito porque, na batalha cósmica que sei que cada dia se trava entre o bem e o mal, existe uma força íntima e universal que empurra o coração humano para os caminhos do amor. Estou cansado dos discursos com pretensão de absoluto.

Com os olhos bem abertos no negrume da noite, oiço a música alada daqueles que salvam o mundo a cada instante.

Los justos
Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um xadrez silencioso.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
Jorge Luís Borges

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