A voz aos amigos (XX)

A figura do padre na literatura (II)

A pouco mais de oitenta anos da primeira publicação de “Poder e Glória” de Graham Greene, recordamos o protagonista deste romance: um sacerdote em fuga à perseguição anticatólica que ensanguentou o México entre os anos 20 e 30, mas em fuga também de si mesmo. Um santo e pecador, um mártir e um homem com medo da morte, com uma filha, resultado da fraqueza num momento de solidão; um alcoólico com uma fé débil e que ri desajeitadamente e não se arrepende de todas as coisas más que já fez. Seria o último a escolheres como teu pároco… o problema é que ele é o único que eles têm! É educado, sabe inglês, aprendido num seminário, nos EUA. Filho de um lojista, tornou-se padre não por causa de uma vocação, mas por causa da vida confortável que os padres gozavam. Como último sacerdote no México conhecido das autoridades, ele não fugiu nem renunciou ao sacerdócio casando-se. Em vez disso, permanece, em estado permanente de fuga, um padre irreconhecível, camponês entre camponeses…
Greene pretende dar uma imagem diferente de padre; talvez uma que não seja retocada por ferramentas que artificializam e que “desumanizam” através de hagiografias devotas, como a de Juan, narrada por uma mãe aos seus três filhos durante o romance. E retoma-se aqui, de forma original, a velha questão medieval do “ex opera operato”: um sacramento é eficaz por si só, ou é dependente da idoneidade moral daquele que o ministra?
Greene não está a dizer que os padres não podem ser santos; ele escreveu uma história de um “whisky priest” que desconstrói a piedade do género. Mais importante ainda, as falhas morais do padre dão à história uma densidade dramática. O padre é desafiado não só pela necessidade de permanecer vivo para que a Igreja possa permanecer viva, mas também pela perceção de que o seu mau exemplo ensina tanto como os seus sermões.
Um padre cheio de dúvidas – não sobre Deus, pois essas são dúvidas de um debate condenado ao empate técnico, digno de filósofos – mas que há um Deus que ele não compreende; que é um pecador e que, provavelmente, está destinado ao inferno. Mas as suas dúvidas têm a ver com o ser padre neste contexto bem concreto; ele que está aterrorizado com a morte, mas também cansado de fugir. É impelido pelo seu próprio sentido de propósito, mas também empurrado pelos movimentos da polícia. Dirige-se para o martírio, mas teme que a sua morte traga troça à Igreja. Que complexidade!
A vida em fuga mudou-o de um pastor pietista e comodista, que gostava de contar piadas irreverentes e de ter a sua mão beijada com reverência, para uma experiência constante da culpa e das febres e das cáries nos dentes e que sente que é um fardo para aqueles que está destinado a servir, por isso, continuamente expulso como escória das aldeias que tanto precisam dele. Será quando é atirado para a prisão por posse de bebidas alcoólicas que, pela primeira vez, se “se confundiu com os pecadores” (“Homem! Você nunca esteve numa prisão?!” dirá o tenente com espanto sem o reconhecer). É ali que admite publicamente, e sem medo das consequências, que é um padre, naquela cadeia parecida com o mundo: sobrelotada de luxúria e crime e de amor infeliz e que cheirava a céu misturado com dejetos num balde; e é aqui que ele encontra a paz e assume que se cansou de fugir. Descobre que é um padre e será sempre um padre, faça o que fizer, aconteça o que acontecer. E, como no evangelho de Marcos, também há Judas, um galo que canta e um “jovem envolto num lençol” que apontará uma abertura de esperança num céu que parecia se ter fechado!

Pe. Humberto Martins

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