Bom dia!

Nas caminhadas madrugadoras, vou-me cruzando com outras pessoas que também caminham ou correm. Com o passar dos dias e das semanas, passamos a ser pessoas que já se conhecem, às vezes passando uns pelos outros quase no mesmo sítio. Há sempre a senhora loura que, pelas minhas contas, deve correr aí umas duas horas todos os dias. Enquanto caminho, lá vem ela, saudando com um sonoro “bom dia”, enquanto mantém os auscultadores nos ouvidos. Às vezes, quando vou mais absorto, até fico assustado com a saudação matinal.

Mais abaixo, na avenida, um senhor careca, baixinho, que corre a uma velocidade estonteante. Saúda-me sempre com uma pequena inclinação da cabeça, um sorriso nos lábios e um sonoro “bom dia”. E, lá vai ele, na sua velocidade de foguete, esta figura tão simpática quanto pitoresca.

Já perto do mar, um ciclista que vem na minha direção: resistimos sequer a olharmo-nos nos olhos, mas ao fim de tantos dias aí vai um “bom dia” de parte a parte. Com os dois pescadores que está lá adiante nas rochas já não há hipótese possível de saudação matinal. Contudo, com a senhora que teimo em achar que é da Lituânia, já no parque e ao som do chilreio louco da passarada, trocamos nova saudação.

Perto de regressar a casa, umas figuras interessantes: duas senhoras com a suas mochilinhas nas costas, cada qual na sua trotinete, capacete e óculos bem grandes. Parecem duas personagens de um meme ou tiradas de uma banda desenhada japonesa. Ultimamente até um breve aceno com a mão já trocamos.

Gosto desta troca de rituais matinais. Há uma leve cumplicidade que nos identifica e nos distingue fugazmente do resto do mundo: aqueles que se levantam cedo e vão praticar exercício. Como se, no ser humano, houve este impulso gregário de pertença.

Para mim, há um pouco mais que isto: há um vislumbre, ainda que tão frágil, de pertencermos a uma mesma família, a família humana. Bem vejo dentro de mim como construo muros que me separam das pessoas a quem não me interessa aproximar, como estou habitualmente a julgar e separar os “de dentro” e os “de fora”. Este travão contínuo (em parte necessário) acaba por ter um custo que é viver murado.

Por isso, são verdadeiramente sábias e nossas mestres as crianças: todas as pessoas são amigas, todas podem ser saudadas. Elas vivem na praça, eu no forte.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s