Pensamentos pensantes e pensamentos pensados

Quando estava a fazer o curso de Teologia, tive uma cadeira chamada Antropologia Filosófica. Reconheci mérito e valor ao professor que me parecia sério, competente e envolvido naquilo que ensinava.
Numa das aulas, ele utilizou as duas expressões que servem de título a este texto. Isto aconteceu há já muitos anos, mas nunca mais esqueci o que penso que ele queria dizer. É curioso como, no processo de ensino e de aprendizagem, há professores ou assuntos ou intuições que recebemos e que nunca mais nos abandonam.
Não sei se serei fiel àquilo que o professor quereria dizer.
Ambas as expressões dizem respeito àquilo que se passa na nossa cabeça, nos nossos pensamentos. Li uma vez que, pela nossa mente passariam, por dia cerca de setenta mil pensamentos por dia. Uma outra vez, ouvi que desses, mais de noventa por cento são ou inúteis ou perniciosos. Não é este o tema destas linhas mas os números apresentados já dariam muito que pensar.
Os pensamentos pensados correspondem aos pensamentos que formamos na nossa cabeça, mas que têm a sua origem no mundo exterior. São pensamentos que recebemos e dos quais nos apropriamos. Podem corresponder a ideias interessantes e profundas ou, simplesmente, àquilo que o filósofo pré-socrático Parménides chama de “doxa”: opiniões que pululam por aí, que aceitamos acriticamente com verdades.
Já os pensamentos pensantes brotam da nossa reflexão, são gerados pela nossa atenção e labor interiores, manifestando a nossa visão sobre a realidade. São mais difíceis de produzir porque nos obrigam a esforço de reflexão interior e a tomar posição pessoal sobre um assunto.
Não poucas vezes me recordo desta distinção relativamente ao discurso religioso: quanto dele não corresponde a um “chorrilho” de ideias e chavões que proferimos acriticamente, sem crivo nem luta, estando nós “paramentados com ideias de circunstância”, (como diria o poeta Ruy Belo)? Não estaremos um pouco cansados da rotativa infinita de ideias feitas? Não serão os meios de comunicação social uma ventoinha gigante que nos atira à cara um discurso pré-fabricado que ingurgitamos e reproduzimos?
Precisamos de vozes novas, da originalidade e da riqueza de cada um, de um antídoto contra a “loucura da normalidade.”

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