O meu interior é uma atenção voltada para fora

Há alguns dias, fiz uma pequena experiência. Ao realizar a atividade corriqueira e habitual de estar na cozinha “a lidar”, procurei estar atento aos diferentes sons que são produzidos pela minha atividade: a gaveta que abre e fecha, colocar um avental, a torneira a abrir, o som dos meus passos andando de cá para lá, descascar uma cenoura. De repente, e apenas num vislumbre fugaz, apercebi-me daquilo que tantos o têm vindo a dizer há tanto tempo: há uma riqueza quase inesgotável fora de mim.
Esta manhã sucedeu-me algo semelhante na minha caminhada pelo parque da cidade (escrevo a partir do Porto). Tornei os meus sentidos mais aguçados e “bebi” uma abundância quase inesgotável. Cada microcosmo, uma planta, um tronco de árvore, os milhares cambiantes da luz, tudo reclama uma atenção indivisa que raramente tenho. Recordei-me de um escritor francês que aprecio muito, Christian Bobin, que diz que evita viajar porque aquilo que tem à sua volta no lugar onde vive ainda não foi totalmente explorado.
A experiência da meditação tem-me despertado para uma realidade dolorosa: a minha mente vive, numa base diária, alienada. Construí ao longo dos anos um modo de viver em que apenas parcialmente estou presente ao presente. Sou um alienado profissional (e dedicado à causa!). O meu default é travar diálogos imaginários, antecipar situações, remoer em coisas de ontem ou de há anos. Nunca como agora tive uma consciência tão aguda do quão malandra, enganadora e, no limite, assassina, pode ser a nossa mente.
Tomar consciência dessa força quase irreprimível deixa-me desconsolado. Pior… o caminho de regresso ao presente é lento, incerto e difícil. Observo as crianças e constato que elas são o único grupo de humanos totalmente no ‘aqui e agora’. O que nos havia de acontecer a nós adultos… os alienados profissionais sempre com um pé no passado e outro no futuro…
Ainda assim, é possível fazer a viagem de regresso. Entendo o progresso humano, seja na dimensão humana ou espiritual a partir desta palavra: regresso: regressar ao presente, regressar à nossa humanidade, regressar a casa, ao lar, ao ventre. Talvez ter a consciência desta alienação seja o primeiro passo para regressar. Há tantos momentos de “pequena plenitude” no mais banal dos dias…
Termino com duas citações:

Passamos pelas coisas sem as ver, 
gastos, como animais envelhecidos: 
se alguém chama por nós não respondemos, 
se alguém nos pede amor não estremecemos, 
como frutos de sombra sem sabor, 
vamos caindo ao chão, apodrecidos.


Eugénio de Andrade
O universo está cheio de coisas mágicas pacientemente à espera que os nossos sentidos fiquem apurados. 
(Atribuída a W. B. Yeats mas penso que não será dele)

PS: O título do texto é de um verso de Sophia de Mello Breyner

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