Thoureau e a desobediência

“Henry David Thoreau (12 de julho de 1817 – 6 de maio de 1862) foi um naturalista, ensaísta, poeta e filósofo americano. Um importante transcendentalista, é mais conhecido pelo seu livro Walden, uma reflexão sobre a vida simples num ambiente natural, e pelo seu ensaio “Civil Disobedience” (publicado originalmente como “Resistance to Civil Government”), um argumentário para a desobediência a um Estado injusto.” Quem o diz, é a mãe de todas as enciclopédias, pelo menos a julgar pela popularidade: a Wikipedia.

Não li nenhum livro deste autor, mas gosto de algumas citações que vou encontrando e leio, aqui e acolá, um ou outro artigo sobre este personagem extraordinário. Thoreau desconfiava da sociedade, do progresso e do Estado. Defendeu a desobediência civil e encarnou-a, a ponto de ter sido preso.

Penso na sua desconfiança relativamente à sociedade. Neste blogue já tenho escrito sobre este aspeto interessante das pessoas que não se sentem bem ou à vontade na nossa sociedade. Parto do princípio de que esse, não só é um direito que lhes assiste, como poderão ter motivos legítimos para essa dessatisfação. É errado o mito de termos de nos ajustar e aceitar acriticamente os modelos de vida, de felicidade, de prosperidade, de justiça, de bem que nos são propostos num dado espaço e tempo.

É certo que as razões dessa dessatisfação podem ser diferentes. Uma, poderão ser simplesmente os traços de personalidade ou de carácter, pessoas que preferem viver anónimas retiradas, relativamente isoladas. Outra, pessoas que querem voluntariamente viver uma experiência de solidão a fim de se encontrarem ou de se encontrarem com o Transcendente. Também há artistas que procuram o isolamento a fim de que as suas energias criativas possam brotar e a obra de arte veja a luz do dia.

Destaco, de modo particular, as pessoas que simplesmente não se identificam com a nossa sociedade. Não deve ser fácil trilhar esse caminho solitário, recolhido, silencioso. Não sei bem como articular o seguinte pensamento, mas tenho a impressão de que há uma força invisível que nos empurra para sermos e vivermos de forma semelhante e mimética. Exercemos, uns sobre os outros, uma vigilância inorgânica, mas atenta, a comportamentos que consideramos desajustados face à norma. E quando encontramos alguém que se veste, pensa, fala e vive de forma dissonante, soam as campainhas. Como se houvesse uma máxima invisível que diz: “Se queres pertencer, serás como nós. Vê, que estamos atentos”. A pulsão totalitária não é apenas política, ela é profundamente humana, pessoal e grupal.

Gostava de encontrar algumas dessas pessoas e escutá-las. Que diriam? Será o ritmo acelerado e celerado com que passamos pelos nossos dias? Será o clímax da sociedade de consumo, que nos dá a sobreabundância de tudo a todo o momento onde quer que vamos? Será o deslaçar das ligações entre as pessoas, o hiperindividualismo? O desprezo pela beleza, a arte em favor da tecnologia?  A infantilização de tudo, que alastra como um vírus?

Não sei e, com estas linhas não tenho nenhuma pretensão de me colocar com uma espécie de Outcast. Ainda ossim, aprecio essas pessoas, do passado ou do presente, que fizeram o “caminho menos percorrido”. Thoreau foi uma delas.

No início do texto, lembrava, também, a sua desconfiança relativamente à tecnologia. E aqui, haveria tanto para dizer… a nossa dependência das maquinetas mágicas, o progresso da inteligência artificial, a sombra ameaçadora do Frankenstein de Mary Shelley, a cada vez mais difícil cisão entre o humano e o tecnológico. Mas isso seriam contas de um outro rosário…

Thoreau acabou por viver um período retirado (mas não em demasia) da sociedade. Termino com uma citação dele que me acompanha há muitos anos:

“Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, sendo a vida tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar todo o tutano da vida”.

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