A voz aos amigos (XII)

A figura do padre na literatura (I)

Celebramos este ano cem anos do nascimento de Mario Pomilio, escritor italiano. Em 1975 publica “O Quinto Evangelho” que narra a demanda de Peter Bergin, oficial americano, agnóstico, com uma licenciatura em História, interrompida pela II Guerra Mundial, e que é enviado para a cidade de Colónia, praticamente toda destruída. Albergaram-no numa abadia paroquial, semidestruída pelos bombardeamentos ingleses.
Aproveitou para conhecer o anterior inquilino – o padre católico que parece ter abandonado a residência à pressa – através dos seus pertences: “existe quase uma sobrevivência de nós nas coisas”. São os livros que mais frequenta e, sobretudo, os seus cadernos pessoais que (nos) leva a conhecer este que, possivelmente, terá acabado num campo de concentração. Começa por ser um fascínio e uma curiosidade causados pelo “exotismo que sempre têm os anacronismos”. Aos poucos e poucos a demanda que ocupara os últimos anos do anónimo padre contagiam o indiferente historiador.
No final da Guerra podemos dizer que estamos no nível mais longínquo de Deus, a ponto de nos questionarmos honestamente se é possível regressar a Ele. Analisando os seus cadernos, cheios de ideias que “ainda que incapazes de descer do regime das abstrações vinculadas pela sua formação de base, tinham começado a questionar se hoje, na Alemanha nazi, fosse conciliável cidadão e cristão… porque ou nos rendemos ao sistema ou nos aproximamos do desespero…” Enfim, uma consciência deixada só. E eis que, numa altura, em que a ausência de Deus passa a ser aceite como postulado e a ser sofrida desse modo eis que, paradoxalmente, ela surge com uma estranha fecundidade, como que vinda do nada. Um padre que se sentia oprimido só com o peso da sensação de “não ser esperado em parte nenhuma”, questionava-se em como “ser sinal neste tempo sem sinais”.
Sobra-lhe o evangelho, até então lido por dever de ofício, mas muito mal, de forma sincopada, correndo continuamente o risco de as palavras se tornarem abstratas e esquecendo-se da humanidade de Deus, que foi Escritura, Palavra que fecundou os campos “dos absolutos impossíveis”. Quem poderá ter ousado tais coisas como as Bem-aventuranças? Elas só se tornaram utopia possível porque foi um homem que as pronunciou!
E eis que, aos poucos e poucos, a figura anónima, se torna, para Peter, o “meu padre”. Sim, o soldado continua agnóstico, indiferente, concebendo Deus como facto privado e dilema sem solução, mas agora sente-se implicado com a demanda de um “das funfte Evangelium” (Quinto Evangelho), continuamente citado nos escritos do “seu padre”.
A canonicidade das escrituras, a tensão para o apócrifo, ou então, para “um suplemento de revelação” e que o evangelista João já aflorara na conclusão do “conjunto” dos evangelhos canónicos – “há muitas outras coisas que Jesus fez; se elas fossem escritas, uma por uma, parece-me que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seria preciso escrever” (Jo 21,19) – leva-nos a acompanhar a demanda por um “quinto evangelho”, desaparecido, talvez escondido como proibido.
Adotando o método da “filologia fantástica”, em que é apresentado como uma recolha de materiais dos quais o autor se finge como mero transcritor, a Editora L’Orma leva-nos a entrar em contato com um dos maiores romances da literatura italiana, que ultrapassa as costumeiras barreiras dos géneros literários, e que é um bem conseguido conjunto de narração e ensaio, debate de ideias, fantasia e poesia, precisamente como os evangelhos que se debruçam sobre uma única figura, mas na diversidade das versões que fazem colocar a hipótese duma fonte anterior, mais próxima da Palavra, mas que se perdeu irremediavelmente!

Humberto Martins

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