Os cimos do dia

O hóspede andou por aqui. Enquanto o escriba subia e descia pelos caminhos, sabia que o hóspede andou por aqui. Como se, durante este dia, um sopro fresco, num verão antigo, percorresse as divisões despidas de uma casa centenária. E, então, todas coisas foram tocadas pela graça: ali conversando com alguém que lembrou memórias vivas de tempos em que o mundo era outro. Mais adiante, as peripécias de uma sobrevivente em tempo de confinamento. Ao descer a rua, os dias mais longos e luminosos trazem um apaziguamento que nenhuma outra luz pode dar. Ainda antes, uma gargalhada irreprimível, pueril, acusadora.
Sim, o hóspede andou por aqui. Ele é Midas transformando o que toca em ouro. Vira o dia do avesso e, num repente, todos os começos são possíveis: há uma plenitude oferecida, o escriba recebe e anota; os cimos da existência são, de longe, avistados. Sim, foi o hóspede. E, no entanto, a vizinha, o colega, a criança, o passante nada viram e juraram que do nada nunca nada brotou. Mas o escriba sabe que foi o hóspede, o homem dos mil nomes, dos mil disfarces, das mil caras.
Ao anoitecer, pousa, ao lado da cama, a cesta cheia de flores silvestres e morangos, estes e outros sabores recolhidos, abundantes, vermelhos, doces, como só o grande dom pode oferecer.

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