A voz aos amigos (VIII)

Toda a gente conhece a frase “provou do seu próprio veneno” e ela faz-nos pensar que também podemos provar do nosso próprio remédio. Li algures que a depressão resulta de não se parar de ruminar pensamentos e sensações do passado e que a ansiedade resulta de quando não se pára de criar cenários mais ou menos assustadores para o futuro. O texto que hoje gostaria de vos apresentar é tirado do livro O Canto do Pássaro e fala do próprio remédio para acabar com o desgaste que estas atitudes provocam.

«O nosso cão, Brownie, estava sentado em atitude de alerta: orelhas em ponta, cauda inquieta e olhos parados, fixos na árvore. Estava de olho no macaco. Só havia uma coisa, em todo o horizonte do seu consciente: o macaco. Como Brownie não tem inteligência, não havia também um pensamento sequer que pudesse perturbar a sua concentração total. Não lhe passava pela mente, por exemplo, se teria algo para comer à noite e onde iria dormir. Na verdade, Brownie, naquele momento, era o modelo mais perfeito de Contemplação visto por mim.

Talvez também possas ter experimentado algo semelhante, algumas vezes. Por exemplo: nunca ficaste totalmente absorvido na contemplação de um gatinho a brincar? Eis aqui, portanto, uma boa fórmula ou receita para a contemplação, enquanto não houver outra melhor: estar totalmente no presente.

É uma senhora receita! Deixa cair todo e qualquer pensamento do futuro e apaga qualquer pensamento do passado. Enfim, elimina todo o pensamento e transforma-te numa presença total. Então ocorrerá a Contemplação.

Após anos de treino intenso, o aluno pediu ao Mestre que lhe desse a luz do Discernimento.

O Mestre, então, levou-o a uma moita de bambu onde lhe disse:

“Olha como são altos os bambus;

mas vê aquele lá como é mais baixo”.

E naquele momento, exatamente, o discípulo foi iluminado.»

                                                                                  (Anthony de Mello, O Canto do Pássaro)

É curioso como estas histórias podem lançar outra compreensão sobre textos já nossos conhecidos tal como este que está no Evangelho: “Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal” (Mateus, 6,34). Um dia de cada vez?

Paulo Farinha

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