O oiro do dia (I)

I
Disse-me que tinha sido o sol: sentado, olhos fechados, o calor a tomar conta da pele, braços, tronco, pernas, cabeça. Quinze minutos de embriaguez. Ouvia os sons da primavera a chegar. Postado atrás dos pensamentos quotidianos, um equilíbrio sempre precário como a criança em pé no barco estreito. Alguma coisa do mistério da existência é-lhe revelado nesse momento. Garantiu-me que não sabia explicar, talvez simplesmente a liberdade da mente que havia anos, dia após dia, colocava a exuberância da vida em prisão domiciliária. Como se naquele bocado de tempo e sol, o coração do seu coração se houvesse ligado, sem mediação, ao grande coração da própria vida. Que bom!
Fora desta órbita, tudo segue sem sobressaltos: a rotina, um dia mais, um dia a menos, tudo adiado, o coração abafado, como as castanhas no outono.

II
Insisti para que falasse. Não queria. Estava decidido a não abrir a boca… pedi-lhe uma palavra, disse-lhe que entre luz e luz há sempre um pedaço de pão, um aceno. Que não, teimava. Que havia apenas uma folha branca em branco…
Mas eu sabia que não era assim.
A custo, disse-me que gostava de caminhadas, nada do outro mundo, tantas pessoas caminham. Disse-lhe que era verdade, mas que cada caminhada, como tudo, era intransferível, pessoal, uma porta para o outro lado, onde o brilho refulge, sacia.
Lá me disse que não era apenas o ir e o vir. Era o estar envolvido no silêncio, apenas ampliado pelo coro multiforme e exuberante da passarada que cantava na noite (e que metáfora maravilhosa, pensei, cantar na noite) – uma sinfonia cósmica. E depois era o balançar ritmado e compassado do corpo, o frio nas mãos, a respiração mais profunda, o olhar levantado, a sensação que se poderia andar infinitamente sem se cansar. No fundo, era tudo e era nada.
Ali mais abaixo, o esplendor do mar, o som das ondas (mas afinal quanto disto não foi já dito?), o passeio sob as árvores ainda sem a luz da primeira manhã a dar cor. E, acima, o céu negro a ficar lentamente mais claro, o novo dia a nascer, outras coisas a nascerem também, a alma refeita, uma pequenina vibração consonante com a natureza, o alimento para o caminho de regresso, o longo interregno entre o sol e o sol, enquanto a noite não viesse, uma vez mais, estender o seu manto de sombra sobre todas as coisas.
E ele a criança em posição, esperando o momento de partir outra vez.

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