A minha experiência de meditação

Sempre fui um buscador insatisfeito. Durante muitos anos vagueei relativamente só, procurando um espaço comunitário e uma espiritualidade onde lançar a âncora. Não tem sido tarefa fácil. Tenho encontrado demasiadas comunidades ou movimentos cristalizados, lentos ou parados. Abundam os exemplos de vivência da fé cristã de um modo predominantemente cultural e pouco centrado na pessoa de Jesus. Por isso, o meu caminho tem sido difícil. Sei bem que a fé tem no seu âmago uma comunidade que caminha nesta História e cujo Deus de revela nessa mesma História.

Acontece que a vida nos dá sinais, pequenos muitas vezes, que, se os seguirmos, podem abrir portas que dão para paisagens e mundos novos. Essa voz é ténue e sussurrante. Basta um pouco de barulho ou o espírito estar preocupado e o aceno passa despercebido.

Em Agosto do ano passado, escutava uma conferência de um monge beneditino, Laurence Freeman. Ele é o atual responsável da Comunidade Mundial de Meditação Cristã. Gostei do que ouvi, gostei da sua voz serena e do que disse. Falou, naturalmente, de meditação, e entre muitas coisas, perguntou ao entrevistador qual achava que eram as pessoas para quem era mais fácil e mais difícil entrar/ entender/ aderir ao mundo da meditação. E a resposta foi: mais fácil, as crianças, mais difícil, os membros do clero. Achei curioso e revelador.

Procurei informação sobre a Comunidade. Percebi que o seu fundador, John Main, também ele monge beneditino, tinha sido diplomata e vivera no Oriente. Aí, travou conhecimento com um sábio hindu que o iniciou na prática da meditação. Depois de resistências e incompreensões, Jonh Main começou os primeiros grupos em Inglaterra. A sua visão era a de recuperar a tradição contemplativa da Igreja do Ocidente, torná-la acessível a todos e procurar um regresso a Cristo, mesmo ou sobretudo aos cristãos (que sabem mais dele do que com ele falam).

Como o estimado leitor saberá, há muitas formas e caminhos de meditação. No caso da CMMC, o objetivo da meditação não é o de desenvolver uma técnica para nos sentirmos bem ou seja o que for na nossa fisiologia (embora isso possa acontecer) – mas desenvolver uma vida de comunhão com Deus, profunda e vivificante. É um caminho espiritual, de entre os muitos que a Igreja oferece.

Este caminho é exigente: a proposta é que a pessoa medite duas vezes por dia, ente vinte a trinta minutos, simplesmente recitando interiormente uma palavra sagrada, um mantra. Aos poucos, descobrirá na sua vida mudanças profundas na forma de se ver a si, aos outros e a Deus. Agradou-me esta exigência e agradou-me fazê-lo com outras pessoas. Conheci centenas de pessoas religiosas, leigos, padres, freiras, algumas delas genuinamente bem-intencionadas, mas encontrei menos de uma mão cheia de pessoas que irradiassem.

Aceitar meditar duas vezes por dia, estar em silêncio e quieto, muitas vezes lidando com o torvelinho dos pensamentos não é obra fácil. Por isso, admirei os meus companheiros meditadores e admirei esta espiritualidade que põe de lado a “conversa fiada” sobre a fé e nos diz: “Just do it”.

Comecei a integrar um grupo online (pandemia…) semanal onde se partilha, se leem textos e se medita em conjunto. É uma experiência forte. Comecei lentamente, meditando apenas de manhã e, mais tarde, alargando a meditação a um tempo ao fim da tarde. Ao fim destes meses, estes momentos já fazem parte da minha rotina diária. Não tenho tido estados místico-gasosos especiais, mas noto que nas minhas raízes mais profundas e sombrias alguma coisa se vai curando e purificando.

A cereja em cima do bolo foi a decisão, por parte da comunidade, de abrir salas virtuais durante a manhã para quem quiser estar junto, rezar e meditar. Para mim tem sido o céu! Todos os dias, às sete e vinte lá me encontro com alguns companheiros: sabemos uns dos outros, lemos o Evangelhos e um texto de John Main e atiramo-nos aos vinte e cinco minutos de meditação. Este momento em grupo enche uma sede que tinha: a experiência de uma pequena comunidade de fé, simples, mas comprometida. É uma felicidade começar o dia com outros, alinhados pela mesma vibração!

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