As FP-25 e a Igreja das Catacumbas

Há alguns dias, ouvia um episódio sobre as FP-25 de Abril. O autor explicava como surgiu este grupo terrorista em Portugal, durante os anos oitenta, já depois de outros grupos semelhantes terem aparecido em Itália e na Alemanha. No nosso país, as FP assaltaram bancos, mataram pessoas, creio que 37, semearam o pânico, exerceram atos de vingança. Anos mais tarde, vários dos seus elementos foram amnistiados.
Estes factos lembraram-me outras notícias ou filmes ou séries cujas histórias rodavam à volta de elementos e organizações terroristas na preparação de ataques. Sempre me interessou perceber as motivações e os mecanismos psicológicos que levam pessoas, que diríamos “normais”, a entrarem nesse mundo, no qual a escala de valores e a educação recebida são subvertidos. Há tempos, lia sobre o recrutamento de jovens europeus para o Estado Islâmico, jovens “normais” europeus, com uma vida semelhante a qualquer um de nós. O que leva uma pessoa dessas a mudar radicalmente a sua vida, a sua mundivisão, o seu quadro de referências? Não tenho uma resposta clara, mas evito as respostas mais fáceis que resumem as motivações dessas pessoas a problemas mentais ou traumas de infância. Quando estamos diante de problemas que desafiam em muito a nossa capacidade de compreender e entender, tendemos a dar respostas simples, normalmente com recurso a chavões básicos.
Quero fazer um ensaio de explicação. Parece-me que esses candidatos a terroristas estão profundamente insatisfeitos. A sua vida e a vida à sua volta não oferecem sentido, propósito, direção. Uma espécie de mito do eterno retorno de rotinas, hábitos, trabalho mecânico ou impessoal. Talvez as relações humanas sejam frágeis e essas pessoas estejam sós. A lista será longa, mas sempre à volta da perda de sentido.
E, de repente, o prototerrorista entra numa realidade paralela, numa nova dimensão da realidade. É-lhe oferecido um sentido, uma luta, uma revolução a travar. A densidade, espessura e sentido de urgência dos seus dias ganham um ritmo alucinante. O tempo deixa de ser linear, monótono, repetitivo. Há sentido e urgência de uma missão. Eis, de forma catastrófica e desumana, a procura de sentido. A formação, as viagens, os contactos, a planificação de um atentado ou ataque são vividos com intensidade, fazendo a pessoa sentir-se viva e com um propósito holístico.
Pergunto-me o que estará a acontecer nas nossas sociedades onde nos afogamos na sobreabundância de tudo, em que somos híper estimulados até à indiferença, correndo sem parar para parte nenhuma. Dá que pensar.
Enquanto ouvia o programa sobre as FP-25 de Abril, o meu espírito voou para um outro tempo. Recordei-me da vida dos primeiros cristãos, perseguidos pelo império romano. Trouxe à memória a vida das primeiras comunidades cristãs, o seu fervor em conhecer e viver a mensagem evangélica, a perceção quase ingénua na crença que o fim do mundo estaria perto e que, portanto, tudo o que estavam a viver era precário e provisório. Muitos destes seguidores de Jesus mudaram radicalmente a sua vida; outros tantos, pagaram com o sangue a fé e devoção na pessoa de Jesus. Como seria a vida destas primeiras comunidades, tantas delas escondidas nas catacumbas? Imagino o fervor, o sentido de urgência, a vivência de cada dia como uma luta a travar, o empenho e vontade de fazer o bem ao próximo. Quantas vidas heroicas, quantos sacrifícios… como olhariam esses primeiros cristãos os seus concidadãos romanos levando a vida como um “business as usual”? É como se estivessem numa outra dimensão da realidade.
É isso que nos falta hoje, creio: sentido, direção, urgência, significado. Mesmo as grandes tradições religiosas parecem acomodadas e sonolentas. Olho para os cristãos à nossa volta (começando por mim) e vejo a satisfação com a “gestão do quotidiano” e isso parece bastar. U teólogo diz que a nossa vida deve ser uma viagem incessante do ‘egodrama’ para o ‘teodrama’ – de uma vida centrada na satisfação e subserviência do Ego para uma vida onde o Reino de Deus sobre a terra é o centro.
Termino com uma pequena história de um livro, “Ditos dos Padres do Deserto” (cristãos que viveram retirados no deserto, nos primeiros séculos da nossa era): um monge perguntou ao seu pai espiritual o que era a oração. Este não lhe respondeu. Mais tarde, viu-o em oração: o rosto e as mãos do pai espiritual tinham-se tornado fogo.

Que essa incandescência não deixe nada por lavrar.

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