Solvitur ambulando

A frase é atribuída a Santo Agostinho, mas não tenho certeza que seja efetivamente dele. Uma tradução possível será: “Resolve-se, caminhando”, isto é, um problema resolve-se durante a caminhada. Uma tradução mais livre dirá que quando temos um problema, ele se resolverá pela prática.

Sempre gostei de caminhar. Desde que me lembro, andar a pé foi uma das minhas atividades prediletas. Houve algumas épocas na minha vida em que troquei a caminhada pelas corridas, mas atualmente são aquelas que me dão intenso prazer.

Tenho amigos que são verdadeiros e comprometidos caminheiros: percorrem dezenas ou centenas de quilómetros, fazem planos e organizam-se para irem para a natureza. Eu não vou tão longe. Ainda assim, já fiz duas vezes o caminho de Santiago, já fiz longas caminhadas na natureza e, nos tempos mais recentes, caminho diariamente cerca de uma hora.

Estas caminhadas foram revestindo fisionomias diversas: na cidade, junto ao mar ou ao rio, lá em cima na natureza, na berma da estrada enquanto os carros passam. Já caminhei de noite, já parti de noite e vi nascer o dia, já caminhei com chuva até entrar nos ossos e já caminhei sob um sol de morrer. Em alguns momentos caminhei com amigos, com uma ou duas pessoas e muitas vezes sozinho; umas vezes ouvindo atentamente o maior número de sons à minha volta, outras simplesmente distraído nos meus pensamentos. Aqui e acolá dirigindo uma prece, outras tantas ouvindo podcasts.

Também dentro de mim os estados de espírito foram muito diversos: saboreando uma paisagem, feliz na companhia de amigos, estremecendo com a música que me fulminava as entranhas. Caminhar foi também o lugar onde chorei em desespero, foi a companhia quando o mundo desabava em mim e à minha volta. Foi medicina para a minha operação a uma hérnia ou prosaicamente o meio para chegar de A a B.

Quando caminho, torna-se verdade este adágio latino: não preciso de pensar sobre um qualquer problema. Basta-me ficar entregue aos meus pensamentos e deixar que, à medida que o caminho se faz e as pernas se cansam e o corpo aquece, uma espécie de fio invisível vá tecendo e ligando aquilo que me ocupa ou me preocupa. Não é um processo racional, mas real. Seja por força do exercício ou não, sinto que no final de uma caminhada vejo as coisas de forma mais clara, mais serena, mais objetiva.  Cada vez tenho mais seguro que o loop mental leva a nenhures, suga-me para uma espécie de entropia: que há um vórtice mental absolutamente destruidor se a ele me abandono.

E amanhã, se Deus quiser, lá estarei, rodando as pernas e o coração.

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