Ler em voz alta

Antes de ter sido inventada a escrita, o património cultural, a sabedoria de uma geração transmitia-se oralmente a outra geração. Era a palavra, o conto, a história que garantiam que o saber acumulado pelas gerações anteriores não se perdia. Mesmo depois da invenção da escrita, manteve-se o hábito do uso da voz: alguém lia em voz alta em casa para todos os que estavam à sua volta.
Antes mesmo de me aperceber dos benefícios da leitura em voz alta, comecei a praticá-la: umas vezes, sozinho, outras, lendo para pessoas de família à minha volta. Nunca pensei, na realidade, que gostasse tanto de ler em voz alta, nem que as diferenças com a leitura silenciosa fossem tão evidentes.
A leitura silenciosa perde tremendamente para a leitura em voz alta. Quando leio em silêncio, a minha mente distrai-se facilmente, consigo estar a ler uma página inteira e ter retido pouco ou nada. É frustrante… fico com na ideia do que li mas não me apropriei verdadeiramente do texto: sim, o texto resiste: não nos apropriamos dele ao virar da esquina.
O primeiro benefício que encontro é a calma: quando leio sem pressas, alternando a palavra e o silêncio, sinto em mim um sossego, como se a minha própria voz me serenasse.
Também sinto que ao ler em voz alta o poder das palavras é mais profundo: a imaginação trabalha de forma mais ativa, é mais fácil “viajar” por onde nos levam as palavras, e essa sensação de deslocação é poderosa – sinto-me mais absorvido e envolvido por aquilo que o leitor quer transmitir.
Dando um exemplo: Li uma parte substancial do livro a “A Montanha Mágica” (de Thomas Mann) em voz alta. Na última cena do livro, o protagonista, alistado no exército e combatendo na I Guerra Mundial, desparece de cena mergulhando na noite e na incerteza. Essa imagem tão viva e tão nítida permanece no meu espírito e dela me recordo muitas vezes.
A leitura também é uma forma privilegiada de deslocar o nosso pensamento das certezas que temos e da forma estreita de vermos a vida, para outras possibilidades de conhecimento. Li algures que a leitura e a literatura são a nossa grande oportunidade de nos voltarmos a instruir e educar, uma vez que a formação que nos dão na escola não foi por nós decidida.
A terminar, partilho uma Tedtalk que pode ser uma extensão a estas linhas: “What Reading slowly taught me about Reading”.

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