Da violência

Eu acredito que a televisão e, não apenas a televisão, mas os meios de comunicação em geral têm um efeito negativo na sociedade.

A razão fundamental porque defendo esta tese é a de que, quando vemos ou ouvimos ou lemos demasiadamente sobre um determinado tema, ficamos envolvidos emocionalmente. Dou um exemplo simples e recente: ontem estive a ver uma série durante cerca de seis horas. Não é um facto habitual, na realidade, é bastante raro até. No entanto, após seis horas, a minha cabeça, pensamentos e linguagem, bem como a minha memória visual andaram à volta da série, a qual era por sinal, extremamente violenta.

Este é um princípio geral que não se aplica apenas à violência nos meios de comunicação social. É um princípio relativo a tudo na vida: quanto mais recebemos através dos nossos sentidos sobre uma determinada realidade, mais “bebemos” dessa mesma realidade. E, paralelamente, quanto menos experiências/ informação temos de outras realidades que sejam diferentes, mais consideramos que a realidade que estamos a “beber” é a única realidade ou, pelo menos, aquela que é predominante.

Este princípio geral aplica-se aos “inputs” negativos como é o caso da violência, mas também a positivos, como são vivências e experiências de bondade, de paz de solidariedade.

Porque será que isto acontece? Creio que é porque somos seres de relação. Aquilo que eu sou deriva de interações com o meio que remontam aos meus nove meses de gestação na barriga da minha mãe. Somos seres miméticos, por norma.

Em segundo lugar, porque também acredito que todos temos algo de disfuncionalidade em nós. Não acredito que vivamos em “ponto morto”. Acho que há uma entropia que, se não estivermos atentos, nos leva para o mal em vez do bem. Por essa razão, considero que devemos, por norma, exercer vigilância sobre nós mesmos.

Se o que acabo de expor é verdade para um adulto, quanto mais não o será para uma criança ou para um jovem: como esponjas, absorverão aquilo que os rodeia.

A pergunta que coloco é: será que os nossos meios de comunicação social potenciam a violência? De que violência estamos a falar? Ainda esta manhã ouvia um podcast sobre os perigos da “inteligência artificial” e a sua relação com os “social media” e, a dado momento, o autor afirmava que os algoritmos que são gerados no que diz respeito à informação que nos é dada, esses algoritmos estão programados para que, de alguma forma, o destaque seja dado ao “hate speech”, que é o material de que é feito muito do que vivemos nas redes sociais.

Para além desta violência, destaco a violência dos jogos: talvez um pouco a contra corrente, não tenho a certeza dos efeitos de violência nos jovens que conheço, meus filhos ou alunos, relativamente ao facto de essas pessoas se tornarem mais violentas ou agressivas. Não estou a dizer que isso não possa acontecer, mas não estou seguro.

Progrido na minha reflexão, falando sobre a violência que nos chega através das “notícias”. Aí creio que sofremos de um “excesso de realidade”: temos acesso, de forma crua, não processada, e com uma pretensão totalizante, à violência que grassa no mundo. “Saber a verdade” é uma frase correta, mas que deve ser entendida devidamente. Esta omnipresença da violência é preocupante.

Ele é acompanhada por outra realidade que corre em paralelo: não temos nenhuma alternativa social, comunitária e mediática a este excesso de violência; não temos nem nos é dada uma verdadeira perspetiva histórica sobre o acréscimo ou decréscimo da violência no mundo – na realidade, achamos todos que tudo está cada vez pior, mas não tenho a certeza que seja assim. Pensadores tão conceituados com Steven Pinker defendem, com rigor científico, que nunca estivemos tão bem como nos tempos que vivemos ( interessante vídeo aqui). Eis uma verdade em contra corrente com a forma como as notícias nos são vendidas.

Aprofundo o que disse antes sobre a ausência de narrativas alternativas. Estou convencido que hoje perpassa de forma muito subtil e silenciosa, uma crença que afirma que não caminhamos para lado algum, que não há um caminho ascendente de um menos para um mais, mas apenas a lógica do eterno retorno. E o cinismo insidioso com a que a “realidade” nos é apresentada, é apenas a expressão mais acabada disso mesmo. Uma vez li uma frase: “We have no more beginings” (George Steiner) – eis o homem desencantado, sem norte, cínico, desiludido. Nem a narrativa da escatologia cristã convence os próprios cristãos (a certeza de que Cristo será “tudo em todos” e de que, de uma forma que não conseguimos agora abarcar, o bem trinfará).

Do mesmo modo que a cada momento existem biliões de interações no mundo das redes sociais e da internet e que nos são absolutamente desconhecidas, também acredito que, a cada momento, existem biliões de gestos de humanidade, de amor, de serviço que são praticados e que redimem a condição humana. Todos eles ocorrem “debaixo do radar”.

Como podem eles ser um antídoto visível e duradouro para cultura de violência nihilista?

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